SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MODERNISMO - 2ª FASE - MÁRIO QUINTANA

A  IMPORTÂNCIA DA POESIA DE MÁRIO QUINTANA

A POESIA NO CONTEXTO ESCOLAR: CONTRIBUIÇÕES PARA FORMAÇÃO DE LEITORES REFLEXIVOS E CRIATIVOS
     Vimos que atualmente nas aulas de língua portuguesa a leitura é algo pouco explorada, mas sabemos que ela é de fundamental importância para a construção de conhecimentos, pois através dela o aluno conhece diferentes culturas, etnias, lugares e crenças. Infelizmente, o incentivo a leitura da poesia ficou esquecido dentro do contexto escolar, pois os professores em sua maioria optam em tratar em sala de aula, de assuntos considerados “mais sérios”. Mas, no fundo, todos os educadores sabem da importância e da grande influência que a poesia tem em nossas vidas e na formação de leitores mais proficientes e de cidadãos mais críticos. Portanto, quem lê poesia não está considerando assuntos que não são sérios, pelo contrário, vive a realidade, passa a olhar com mais verdade o mundo.
      Conforme Pinheiro (2003) a crise da leitura de poesias na escola acontece principalmente porque a poesia não é vista com o valor em si mesma. Para ele, a poesia só será um dos gêneros valorizados no âmbito escolar quando for compreendida em sua essência. Assim, é importante ter cuidado na escolha do poema a ser tratado e como será abordado. Segundo Gebara (2007), a leitura do poema acaba sendo feita de forma equivocada em que na maioria das vezes ele é lido com a utilização de estratégia da recitação ou leitura dramatizada, servindo apenas como método decorativo nas aulas. Com isto, o texto poético é visto apenas superficialmente. Como afirma Pinheiro (2003), ao escolher textos poéticos deve-se levar em conta os critérios estéticos que o constitui, como o ludismo sonoro, as imagens simbólicas e a riqueza da linguagem figurada que ele contém.
     Um problema apontado por Gebara (2007), diz respeito à escolha dos poemas, pois nem sempre a poesia que está no livro é a desejada pelo aluno para a realização da leitura. Pinheiro (2003) aponta outro problema na atividade oral de poemas em que a leitura é feita apenas como decodificação, não se considerando a reflexão sobre o texto. Para ele, a leitura deste gênero deve envolver e cativar o leitor, através da utilização de recursos sonoros. Contudo, o primordial nesta atividade é a reflexão do texto lido, pois é importante para que o leitor desenvolva sua capacidade criativa. A poesia infanto-juvenil é bastante significativa para que se alcance êxito nas etapas iniciais do gosto pelo poético. Assim, o poema está relacionado a faixa etária de seu leitor, este fator é característico da literatura infanto-juvenil que reflete sobre a estrutura do texto, ou seja, sua estética e temática. Por isso, existem poemas para crianças pequenas, para crianças maiores, para pré-adolescentes e adolescentes, com características correspondentes as expectativas e necessidades condizentes com as idades de seus leitores.
     Lajolo & Zilbermam (1985) salientam que atualmente a poesia infantil busca tratar como tema o cotidiano da criança, como faz Cecília Meireles em “Roda na rua”, “Jogo de Bola” e “Tanta Tinta”. Encontra-se também na poesia infantil contemporânea uma atitude diferenciada relacionada à linguagem, ao recorte da realidade em que há um distanciamento da representação do real, como faz Mário Quintana (1997) em Lili inventa o mundo. Segundo Abramovich (1997), Quintana em suas poesias acaba propiciando ao leitor criar um mundo mágico, de faz-de-conta, como o fez em Lili inventa o Mundo. A personagem do livro, Lili é uma criança que brinca com o mundo imaginário, que inventa o seu próprio mundo infantil, como acontece com muitas crianças que arquitetam ou idealizam amigos imaginários e criam brinquedos esquisitos. Além disso, o título do livro mostra uma visão infantil do mundo, pois a criança está descobrindo o mundo poeticamente. Desta forma, o autor apresenta a elas uma visão poética do mundo despertando assim a sensibilidade existente nos elementos cotidianos do ambiente infantil. Desta forma, cria-se um universo fantástico e surreal que procura mostrar a relação da criança com a natureza através de mecanismos que a insira em uma atmosfera de cores e sensações diversas. No livro, encontramos ainda, a recuperação das modinhas infantis, canções de ninar e brincadeiras de roda, reforçando ao máximo as aliterações, as onomatopéias e as rimas internas, pois entendemos que o ritmo e a sonoridade são fundamentais para o leitor infantil identificar tanto a imagem verbal quanto a visual presente nos textos literários. No próximo tópico verificamos a grande importância da poética de Mário Quintana para a formação de leitores proficientes através da análise de dois poemas do livro Lili inventa o Mundo.

IMAGINANDO E CRIANDO O MUNDO: A POÉTICA DE MÁRIO QUINTANA
     O mundo infantil existente na poesia de Mário Quintana nos mostra a importância da imaginação. Em Lili inventa o mundo, o autor se depara com uma criança com características próprias da infância. Porém, em alguns momentos essa criança apresenta características adultas identificadas em textos que se relacionam a um tempo de infância.
     O poema “Conto de Todas as Cores” (2005, p.12), nos revela um pouco desses dois mundos. O mundo irreal do poema adquire forma através da menina verde, do menino azul, do negrinho dourado e do cachorro com tons e entretons de arco-íris, como mostra o texto transcrito: Eu já escrevi um conto azul, vários até. Mas este agora é um conto de todas as cores. Sim, porque era uma vez um menino verde um menino azul um negrinho dourado e um cachorro com tons e entretons do arco-íris. Até que, devidamente nomeada pelo Senhor Prefeito, Veio ao seu encontro uma Comissão de Doutores - todos eles de preto, todos eles de barbas, todos eles de óculos E, por mais que cheirassem e esfregassem os nossos quatro amigos, viram que não adiantava nada e puseram-se gravemente a discutir se aquilo poderia ser mesmo de nascença ou...
     - Mas nós não nascemos – interrompeu o cachorro – nós fomos inventados! (QUINTANA, 2005, p.12) Vemos que a criança possui condições de se encontrar nesta poesia, pois seus elementos, personagens e o enredo têm uma aparência de conto que oferece diversas e excepcionais imagens que provocam o leitor infantil, dando-lhes a possibilidade de viajar e refletir. Nesse sentido, a poesia produzida para o público mirim recupera a magia que o cotidiano tem para oferecer. Sabe-se que o despertar de emoções é típico da poesia e no caso da criança, refere-se ao brincar, no momento em que joga com palavras que podem até mesmo não combinarem entre si, aparentando não possuírem nexos: como se pôde observar no poema em estudo, alguém pode escrever um conto azul? Ou vários até?.
     Aqui a poesia infantil acaba se manifestando textualmente de maneira não linear que incita a criança a brincar com as palavras e com os diversos sentidos que ela pode assumir dentro do texto. Portanto, a escrita não linear que acaba fugindo das normas de objetividade, estabelece uma lógica que se aproxima do ilogismo infantil, por isso, a imagem assume um papel fundamental na estruturação do poema.
    A poesia de Quintana fala de um conto de todas as cores, da presença e das diferenças das três crianças e de um cão. O autor se utiliza da repetição: “um menino azul / um negrinho dourado /e um cachorro com tons - [...] todos eles de preto, todos eles de barbas, todos eles de óculos”, e brinca com as palavras, dando ritmo ao texto. Nesse exemplo, a poesia ocorre sem a necessidade de a repetição estar diretamente ligada a uma rima. Trevisan (2000) afirma que a repetição faz parte do ritmo e este é algo que flui, dá ritmo ao verso que se agrupa em séries na composição poética de estrutura tradicional. O ritmo e a repetição estão relacionados entre si ambos contribuindo para sonoridade de um poema infantil. Um animal marca presença em “Contos de todas as cores” como um recurso a mais na proximidade com o ambiente infantil. As crianças, geralmente, desejam adquirir bichos de estimação, especificamente cachorros, para fazerem companhia em seu cotidiano. Assim, ele acaba tendo uma imagem de um fiel companheiro, com quem a criança pode conversar, brincar, etc. Alguns meninos e meninas, quando pequenos, necessitam criar e recriar mundos a partir do que está a sua volta e do que vêem em suas mentes, como os animais-amigos. As características físicas e aparentemente exóticas dos personagens criados por Quintana em seu poema fizeram o senhor Prefeito nomear uma comissão de doutores, vestidos de preto, para avaliá-los.
     A resposta de que tudo é poder da invenção, as crianças encontram rapidamente, pois a fantasia também faz parte da vida real. Zilberman (2008) esclarece sobre a importância da leitura da literatura, principalmente pelo seu poder de instigar a imaginação. “Com efeito, resolvem-se dificuldades quando recorremos à criatividade, que, aliada à inteligência, oferece alternativas de ação” (ZILBERMAN, 2008). Candido (1995) considera a literatura como a manifestação cultural dos homens em todos os tempos e lembra que não há povo “[...] que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 1995, p. 245).
     No caso da poesia, é um gênero que se utiliza de uma linguagem que se aproxima da fantasia, principalmente em se tratando dos textos dirigidos ao público infantil. “Dorme ruazinha” (2005, p. 13) é outro poema extraído de Lili Inventa o mundo (2005) e escolhido para análise neste artigo. Nele, Quintana dá vida a algo inanimado e que serve como caminho para dar passagem a diversas vivências dos diferentes papéis humanos existentes na vida cotidiana.
      A rua guarda histórias mesmo quando o dia desaparece e a noite resolve nascer, conduzindo a maior parte da população ao seu leito de sono. É ela, a ruazinha, a protagonista dos 14 versos abaixo e é ela que se mostra ligada à criança: Dorme ruazinha… É tudo escuro… E os meus passos, quem é que pode ouvi-los? Dorme teu sono sossegado e puro, Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos… Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro… Nem guardas para acaso persegui-los… As estrelinhas cantam como grilos… O vento está dormindo na calçada, O vento enovelou-se como um cão… Dorme, ruazinha… Não há nada… Só os meus passos… Mas tão leves são, Que até parecem, pela madrugada, Os da minha futura assombração… (QUINTANA, 2005, p. 13) Nesse texto, o eu lírico embala e coloca para dormir a ruazinha. Na musicalidade e ritmo das palavras, o leitor mirim acaba se sentindo como se estivesse sendo guiado por uma canção de ninar. Trevisan acrescenta que o ritmo é o essencial do verso e está próximo dos sentimentos: “[...] é a linguagem repetida com a finalidade de torná-la veículo apropriado da emoção” (2000, p. 72).
       As crianças carregam memórias das cantigas de infância. De acordo com Ramos (2005), o primeiro diálogo da criança com a literatura oral/popular acontece, geralmente, através da cantiga de ninar, em que o adulto canta para o bebê, ainda que esse adulto não leve em consideração o sentido do que está lendo ou cantando para o bebezinho. A autora percebe que a grande relevância existente nas cantigas é a oportunidade que se tem de interação com a melodia e o aconchego que ela pode proporcionar. Tal aconchego está presente em “Dorme ruazinha” proporcionado tanto para crianças quanto para adultos.         
      Além dessa interação de que fala Ramos (2005), a poesia de Quintana vai além do canto de ninar porque está repleta de significações, ainda que sejam imaginárias, essas significações presentes na ruazinha representam o ponto de partida para a reflexão, bem como traz a oportunidade para a criança articular pensamento, sensibilidade e emoção. O leitor é levado a passear pela ruazinha e a ficar acarinhando-a com os olhos. Nela, a criança pode pisar sem acordar ninguém: “E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?”. Nela, a criança pode trabalhar a imaginação e todos os adereços que ela permite, porque a descrição do espaço: “Na noite alta, como sobre um muro / As estrelinhas cantam como grilos…/ Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…” fornece uma variedade de inusitadas imagens. O leitor é provocado a viajar e refletir. O poema abre caminho nesta ruazinha, manifestando o silêncio, a tranquilidade e a segurança do local em que ela se encontra para bem perto do leitor. Pois, é a noite que na maioria das cidades, sejam elas grandes ou pequenas, as pessoas e os carros se “escondem” dentro de suas casas, deixando as vias públicas menos cheias e mais desérticas. Quintana se utiliza da repetição, brincando com as palavras e com os versos: “Dorme teu sono sossegado e puro / Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro... [...] / Dorme, ruazinha… Não há nada…”. Percebe-se que este poema não possui estrutura cronológica, pois se trocássemos as estrofes ainda assim teriam sentido e continuariam dando oportunidades para o leitor interagir com o texto.
         Isso ocorre porque a linguagem poética pode ser apresentada sem seguir uma cronologia, embora sua essência seja marcada pela organização dos significados. Ou seja, ela pode ser desordem quando quer e organização quando percebe que é importante, tal recurso possui grande relevância principalmente quando se trata de um público infantil. O vento enovelando-se como um cão e dormindo na calçada é outra cena que desperta a fantasia do leitor em “Dorme ruazinha”. É possível o vento se enrolar na calçada como fazem os cães de rua? Para Quintana, é sim. O mundo de que trata a poesia é metafórico, é enigmático, pode ser real ou não. Independentemente de um ou outro, sua ação atinge a imaginação das pessoas, provocando os mais variados sentimentos que vão desde a felicidade até o mal-estar, que pode ser representado pelo medo, pela angústia, pela vida, pelo desejo, pelos sonhos...
        Em se tratando do fato enigmático alguns estudiosos afirmam que ao tentar decifrá-lo, a criança busca dar sentidos a leitura verbal e as imagens que vai criando e imaginando enquanto lê. O princípio estrutural do enigma (de provocação do sentido) desencadeia o processo de evocação aos muitos sentidos que podem ser atribuídos a um mesmo texto. O mundo da criança é um mundo que se configura de forma particular, é imaginação, criação e polissemia. É um espaço que para o adulto pode não ter grandes significados e fazer parte apenas de uma lembrança infantil. Com isso, algumas dificuldades podem ser manifestadas no que tange o aspecto da sintonia entre o leitor criança e o autor adulto. Conforme Ramos (2004), o escritor deve ajustar sua obra à realidade e às vivências do público infantil. De acordo com a autora, é necessário que o escritor leve a criança a interagir com a obra, seja ela escrita em prosa ou em poesia: Há quem diga que a criança é exigente; no entanto, acredito que não se trata propriamente de exigência, mas de atendimento a um aspecto estrutural da arte: o receptor precisa se ver no objeto artístico, ou seja, o horizonte de expectativas do leitor necessita dialogar com o horizonte do texto, a fim de que haja interação. (RAMOS, 2004, p. 128).
         No caso de Quintana, é um autor que respeita seu leitor e desperta o imaginário do público infantil assim como o é, sem trair ou desvalorizar as características deste leitor jovem. Porém, percebe-se que em alguns momentos ele se direciona para um público adulto e ainda assim sempre se referindo à infância. Em se tratando da criança na escola e o seu encontro intenso com a poesia e com a literatura de forma geral, ela precisa ser orientada por um indivíduo que tenha prazer pela leitura de um poema e que saiba reconhecer que este gênero ajuda no desenvolvimento da capacidade imaginativa da criança, além de produzir conhecimento.
     Esse encontro do infante com o texto poético pode começar pela família, mas terá maior importância quando partir do professor. De acordo com Averbuck (1984), principalmente para o publico infantil, o educador é quem deve provocar e oferecer oportunidades para os alunos reconhecerem o valor que um poema possui quando toca o íntimo da criança. A autora explica que recuperar o conteúdo lúdico da poesia no trabalho escolar significa valorizar a essência e a originalidade do texto poético, pois o que a linguagem poética faz é brincar com as palavras e seus sentidos. É importante jogar com o poema, ou seja, com sua desconstrução e reconstrução, tal procedimento serve como exercício de liberdade poética onde a criança alfabetizada pode exercitar a imaginação relacionando poesia a outras formas de arte. No contato com as imagens de um poema, a criança avança em sua liberdade porque dispõe da chance de recriar o que foi construído pelo escritor-poeta e pode fazer uma nova elaboração em cima de seu pensamento, de suas reflexões e de suas intenções.
         Na opinião de Averbuck (1984, p.83): “A poesia na escola pode cumprir um papel integrador na medida em que, apoiando-se na palavra do aluno e do poeta, busca a essência da expressão do homem”. Pelas análises já realizadas, dos dois poemas de Quintana é possível destacar e perceber as particularidades estruturais do texto poético e seus possíveis efeitos nos leitores infantis. Vimos em algumas observações feitas na fundamentação teórica deste trabalho que a poesia, embora atraente ao aluno, é pouco trabalhada nos colégios. Uma das causas citadas é o despreparo do professor frente ao gênero. Muitos educadores têm receio de se entregar à fruição da linguagem simbólica, já que o texto poético emprega uma linguagem carregada de sentidos e imagens. A poesia, como é possível constatar neste estudo, cria caminhos para o leitor mirim estabelecer diálogos com o texto e consigo mesmo num processo de autoconhecimento e invenção. A obra de Quintana reforça a percepção de que o texto poético é importante ferramenta na formação e no estímulo à criatividade do leitor.


Porto Alegre, a “pequena cidade grande” de Mario Quintana
                                                                      Anna Faedrich Martins

Resumo: Este trabalho tem por objetivo o levantamento e a análise de poemas do poeta Mario Quintana. A intenção das reflexões é examinar elementos como a cidade, a modernidade e a memória lírica. O enfoque escolhido consiste em observar o sentimento do poeta em relação ao passado irrecuperável e a sua perplexidade face às transformações do espaço urbano, revelando suas inquietações a respeito da temporalidade e a sua íntima relação com a cidade de Porto Alegre.
 Palavras-chave: cidade; modernização; memória lírica
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      Na vida de Mario Quintana houve dois fatores que provocaram mudanças no seu cotidiano e no seu olhar sobre a cidade. O primeiro é a sua transferência para Porto Alegre, deixando a pequena cidadezinha do interior — Alegrete — para viver no centro da capital, onde tudo acontecia. O segundo, o fato de ele ter acompanhado as mudanças da cidade de Porto Alegre que se foi tornando grande, modernizando-se, com direito a arranha-céus, bondes elétricos, novas e largas avenidas, fábricas etc. A transformação da cidade de Porto Alegre, que foi deixando traços de cidade pequena , provoca no poeta tristeza e melancolia.
       Donaldo Schüler (1987), em seu estudo sobre a poesia gaúcha, integra Mario Quintana e os poetas Paulo Corrêa Lopes, Francisco Machado Villa, Pedro Wayne, Ovídio Chaves, Reynaldo Moura e Lila Ripoll no capítulo denominado “Evasionismo”. O estudo feito sobre Quintana vem com o subtítulo “convergência e renovação”. Para o estudioso, os evasionistas seriam aqueles poetas que estrearam em 30 e que se diferem dos líricos de 20 por mostrarem que “a terra já não é o único valor” (SCHÜLER, 1987, p.207), abandonando o projeto nacionalista e localista, o que faz emergir “uma geração sem vínculos com a dominação O sonho e a utopia são exemplos das novas possibilidades temáticas dessa lírica. Schüler observa a notável contribuição de Quintana à poesia brasileira ao focalizar o cotidiano, mostrando a magia das coisas simples, aparentemente corriqueiras, através de uma percepção aguda e própria do poeta. Ele observa o mundo e evade-se dele, projetando uma imagem utópica da cidade imaginária e negando conscientemente a realidade que ele queria diferente.
           Em 1940, aos 34 anos, Mario Quintana publica o seu livro inaugural, A rua dos cataventos. Trata-se de um conjunto de 35 poemas sob a forma de soneto, dedicado aos irmãos Milton e Marietta. O título da obra já revela características evasionistas do poeta, sendo que a rua aludida é produto da imaginação pura. No livro, o poeta personifica a cidade com a qual dialoga. Ele já adverte que a cidade que será apresentada dentro da obra é a cidade que ele próprio pintou: um cenário urbano que faz parte de sua criação, distanciando-se do real e aproximando-se do mundo dos sonhos. Segundo Donaldo Schüler (1987, p.238) “a evasão abriu a Quintana a distância necessária à observação continuada. Por não se comprometer, pode observar atentamente e detectar fraturas proibidas a comportamento apaixonado”. Desta forma, o estudioso afirma que os escritores e poetas que alcançaram melhores resultados em compreender o mundo sensível, são aqueles que dele conseguiram se distanciar, como é o caso de Quintana.
           Podemos perceber, na obra de Mario Quintana, que há uma oposição fortemente marcada: a cidade de antes (Alegrete ou Porto Alegre dos anos 20 e 30), motivo de saudade para o poeta, e a cidade dos anos 50 e 60 (Porto Alegre em processo de modernização ou outras capitais progressistas). A cidade de antes é o lugar onde o poeta busca conforto, uma cidade que não existe mais, porém, está presente na sua memória e faz parte do seu mundo de fantasias. Ela, a cidade da memória, é constantemente apresentada na sua obra, principalmente, no primeiro livro do poeta - A rua dos cataventos. O silêncio sobre a emergência da nova cidade, sobre a vida moderna, é algo revelador nessa obra. Esse silêncio permanece nas duas publicações seguintes Canções (1946) e Sapato Florido (1948). Todavia, nessas obras, o poeta não se refere à cidadezinha da memória tão enfaticamente como o faz em A rua dos cataventos.
          Solange Yokozawa (2006) aponta para o fato de que Quintana assume uma postura poético-política afastada da engrenagem social, dizendo nada entender da questão social — Eu nada entendo da questão social / Eu faço parte dela, simplesmente.../ (QUINTANA, 2005, p.89), associando-se a uma poesia puramente intimista onde ele canta o seu próprio mal. Por anunciar essa postura, Quintana é tachado pela crítica de poeta alienado. Ele é menosprezado Vol. 03 N. 02  jul/dez 2007 Porto Alegre, a “pequena cidade grande” de Mario Quintana 3 pela crítica, pois não é ostensivamente engajado politicamente. Essa tendência da crítica ocorre também pelo fato de o poeta apresentar a simplicidade em seus poemas. Um estilo próprio, uma simplicidade verbal, uma estrutura arquitetada por reticências e diminutivos, que geram a falsa impressão de um “poeminha” fácil de fazer. Porém, Yokozawa observa essas conclusões como apressadas e equivocadas, pois, ao optar por não falar da questão social, Quintana já mostra uma rejeição reveladora. Por isso, a estudiosa afirma que Quintana é engajado sem sê-lo, “vivendo em um determinado contexto social, imprime, na sua poética, a sua política, ou seja, a sua cosmovisão” (YOKOZAWA, 2006, p.43).
         Armindo Trevisan (2006) afirma que o poeta não se interessava por política e parecia não gostar dos políticos. Entretanto, julga a falta de bom senso daqueles que imaginam o poeta como um alienado: Toda a poesia de Quintana contém vírus antiburgueses, vírus antiestablishment, antitudo o que induz o homem à indiferença social e à hipocrisia. Existe nos seus poemas, em geral, uma secreta antipatia a qualquer coisa que humilhe o homem, que o prive de sua liberdade, que o torne explorador de outros homens, que o submeta às leis do mercado e do marketing. O “defeito” de Quintana foi não ser retórico, foi ter ojeriza a palanques, não encher pulmões de empáfia, de certezas duvidosas sobre a distribuição da renda e dos direitos humanos. Quando lemos o poeta, topamos, em cada um de seus versos, com o murmúrio da inocência, o grito – sufocado – dos injustiçados, a dor anestesiada dos miseráveis. (TREVISAN, 2006, p.20).
        Yokozawa (2006) cita Adorno e seu estudo sobre lírica e sociedade. Para entender a poesia de Quintana, esse embasamento teórico é fundamental. Adorno (1983) observa que a lírica não é apenas uma individualização perante a sociedade, e sim uma manifestação lírica como forma de comunicação entre os homens: “obras de arte, todavia, têm sua grandeza unicamente em deixar falar aquilo que a ideologia esconde” (ADORNO, 1983, p.195). Alguns críticos apontam Quintana como um romântico tardio, insistindo na idéia de morte, preocupando-se com o que lhe é particular e demonstrando subjetivismo. Recorrendo à rede de interligações de Adorno, percebemos que essa crítica não se edifica. O subjetivismo de Quintana - a experiência específica do poeta - é objetivado pelas palavras, concretizado através da linguagem – meio palpável -, e novamente subjetivado pelo leitor, que contribui com a sua experiência particular. Dessa forma, segundo Adorno, quanto mais subjetivo o poeta se mostra, através da sua individualidade e da sua percepção profunda dos conhecimentos, mais universal e amplificada se mostra a sua obra. (Cf. ADORNO, 1983, p.193-208).
        Yokozawa faz a sua leitura de Adorno e relaciona com a obra de Quintana, concluindo que: A poesia não é apenas uma soma feliz do texto mais o contexto. A poesia autêntica se quer libertadora e por isso é o avesso do seu contexto quando este tende a denegrir ou extinguir o humano do homem. Assim, dar de ombros para as questões sociais e seguir para um vago país, Nau Literária 4 Anna Faedrich Martins deixar falar a morte, um dos maiores interditos da sociedade ocidental moderna, preferir o silêncio de uma cidadezinha cheia de graça ao barulho das grandes cidades, refugiar-se na infância indireta a um contexto que se queria diferente. (YOKOZAWA, 2006, p.44).
         Fizemos um levantamento de poemas que mostram essa cidadezinha da imaginação do poeta evasionista, a sua preferência pelo silêncio, a exaltação da cidade pequena, de coisas que o poeta sente saudade e recusa-se esquecer. Os primeiros poemas compõem a obra A rua dos cataventos. Segundo Fischer & Fischer (2006, p.71), “a cidade começa pelo título, que nem por ser aparentemente delirante – afinal, quem é que já imaginou uma rua cheia de cataventos, senão o poeta mesmo? – deixa de ser uma rua, um espaço da cidade”. Os autores observam que a cidade é “vista como ambiente de tristeza e melancolia [dizendo que essa é] a cidade suburbana que está morrendo, ou a cidade noturna e solitária que serve para lembrar o passado” (FISCHER; FISCHER, 2006, p. 72).    
          No “Soneto II”, percebemos a maneira afetiva e carinhosa com que Quintana se refere à cidade pequena. Ele dialoga com a cidade tranquila, num tom leve, deixando pistas de que essa é a imagem da cidade que não existe mais, que agora é fruto de sua memória. Aqui ainda é a cidade dos lampiões e dos jardins, cidade do sossego, num espaço de tempo onde certamente não havia os altos índices de criminalidade e violência. Segundo Becker (1996, p.49), Mario Quintana desenha “um cenário e um tempo utópicos, aparentemente impermeáveis às mazelas e contradições da vida moderna”:

II
Dorme, ruazinha... É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos...

Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los...
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha... Não há nada...

Só os meus passos... Mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração... (QUINTANA, 2005, p.86)
      
      Já no “Soneto XXIII”, o sujeito lírico coloca-se na posição de alguém que vem de fora e contempla, afetivamente, a cidade pequena, sentindo a nostalgia do mundo que não lhe pertence mais e o desejo de ficar no lugar pequeno. Novamente, a oposição entre a cidade de Vol. 03 N. 02  jul/dez 2007 Porto Alegre, a “pequena cidade grande” de Mario Quintana 5 antes e a cidade atual é marcada, e a relação afetivo-amorosa do eu poético com a cidade de antes é explicitamente revelada nos seus poemas através da memória:

SONETO XXIII
Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
 E fica a torre, sobre as velhas casas,
 Fica cismado como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
 Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida morar!
Cidadezinha... Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar... (QUINTANA, 2005, p.107)
      
      Segundo Solange Yokozawa (2006, p.214), a memória lírica de Quintana é uma forma simbólica de negar uma época que se queria diferente. O poeta recorda um tempo passado para “sobreviver em um meio hostil para o poético”. Bosi (apud YOKOZAWA 2006, p.214) afirma que essa é uma das faces assumidas pela poesia moderna, desde o Romantismo, para resistir ao desencantamento do mundo.
       Ao escrever sobre memória e modernidade, Yokozawa aproxima Mario Quintana a Marcel Proust. Para a autora, ambos escritores têm a criação literária fundada na recordação do passado: pelo sujeito-lírico, na poesia de Quintana, e pelo narrador, na série Em busca do tempo perdido, de Proust. A memória como núcleo da criação não é um privilégio da modernidade, afirma Yokozawa, notando que, apesar disso, nessa época o aparecimento dela ganha destaque: a recorrência à memória como impulso primeiro de criação liga-se também à assaz comentada fratura que se opera entre o artista e a época moderna. Não conseguindo se integrar na sociedade burguesa, não encontrando ressonâncias para sua arte na cidade modernizada, desacreditado do progresso técnico e científico, sofrendo as conseqüências dessas e de outras fraturas tais que, o artista busca insistentemente, em sua criação, recuperar um tempo em que ainda não houvesse se manifestado essa cisão entre o eu e o mundo. Floresce assim, abundantemente, a recriação poética de um passado – notadamente a infância – em que é possível viver em estado de graça, com o qual é possível manter uma relação de fusão. (YOKOZAWA, 2006, p.213)
           Mesmo não tendo o interesse de discutir a influência de Marcel Proust na obra do tradutor de Em busca do tempo perdido, Yokozawa aponta para a confluência temática existente entre ambos: a memória: Nau Literária 6 Anna Faedrich Martins Há uma confluência temática entre tradutor e traduzido, mas esta parece assinalar antes uma reação artística solidária a uma angústia da humanidade e aos tempos modernos do que necessariamente uma influência. Assim, a obra de Proust e a de Quintana, malgrado as diferenças entre elas, ao se voltarem para a recuperação artística do tempo perdido, afirmam-se, por um lado, como reação à fugacidade da vida, à força avassaladora da morte e, por outro, como negação indireta da modernidade. (YOKOZAWA, 2006, p. 222)
         A passagem do tempo está presente no “soneto VIII”. O poeta fala sobre “um vento de Desesperança” que veio de repente, referindo-se às mudanças, à modernidade. O primeiro verso enfatiza a importância do ato de recordar, nada mais importando. Nas entrelinhas desse quintanar , os sentidos que aparecem são aqueles sempre presentes quando o assunto é o novo cenário urbano: a saudade e a vontade de voltar ao passado. Percebemos o tom de desagrado e de tristeza no poema que vai revelando o poeta face à modernização:
Recordo ainda... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
 Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!... (QUINTANA, 2006, p.92)
          
         No “soneto IX”, percebemos a mesma temática e o sentimento de impotência que se mostra diante do mundo contemporâneo e das mudanças que ocorrem. Com a emergência da modernidade, muitas coisas consideradas boas pelo poeta desapareceram:
É a mesma ruazinha sossegada,
Com velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo bem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para quê?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí a fora  
Que inda anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora!... (QUINTANA, 2006, p.93)

      O poeta exalta o simples e, a partir daí, faz a sua poesia. Um cartaz cheio de representações e em tom amarelado é referido para mostrar que o tempo tira a cor das coisas. O tempo passou, e o sentimento melancólico diante do processo de mudança é fruto da rejeição do poeta frente ao novo. Vemos aqui as consequências dessa nova cidade em que a alegria e o riso parem ter ido embora com o circo. Em Canções (1946), segundo livro publicado de Quintana, encontramos um número menor de poemas que se referem à cidade da memória do poeta. Porém, não poderíamos deixar de mencionar o poema “Canção da ruazinha desconhecida”, onde o poeta refere-se a essa ruazinha desconhecida e perdida como o seu porto seguro; é o local do seu futuro refúgio, “quando tudo estiver perdido”:

Ruazinha que eu conheço apenas
Da esquina onde ela principia...
Ruazinha perdida, perdida...
Ruazinha onde Maria fia...
Ruazinha em que eu penso às vezes
Como quem pensa numa outra vida...
E para onde hei de mudar-me, um dia,
Quando tudo estiver perdido...
Ruazinha da quieta vida...
Tristonha... tristonha...
Ruazinha onde Marta fia
e onde Maria, na janela, sonha... (QUINTANA, 2006, p.153)

      Esse mesmo mistério que vimos em “Canção da ruazinha desconhecida” e que encanta Quintana, percebemos, também, em “Topografia”, um quintanar presente no livro Sapato Florido, onde o poeta diz:
                              Meu bonde passa por ali. Pela sua esquina, apenas. É uma ruazinha tão                       discreta que logo traz uma curva e o olhar não pode devassá-la. Não lhe sei o
                      nome, nem nunca andei por ela. (QUINTANA, 2006, p.181)
      
       Notamos que a temática da modernização, em Quintana, associa-se a sentimentos de perda, de abandono, de solidão e de melancolia. O poeta mostra essa negatividade face à cidade presente, atual, pois conheceu uma cidade diferente, anterior a essa, e carrega consigo uma dor nostálgica.
          Quando a cidade moderna dos anos 70 está em pauta, o descontentamento do poeta fica evidente. A cidade progressista é uma cidade sem estrelas, sem tranquilidade, sem harmonia, com barulhos excessivos, com violência, uma cidade “cacofônica”, metálica, sem os antigos atrativos. Enfim, uma cidade que sofre as consequências da modernização:

ANTES E DEPOIS
Porto Alegre, antes, era uma grande cidade pequena. Agora, é uma pequena cidade grande. (QUINTANA, 2005, p.647)

URBANISMO
Para as nossas cidades metálicas, que melhor ornamentação que os cactos? Se não por outros motivos, já bastava o seu próprio nome – cacto – tão adequadamente cacofônico. (QUINTANA, 2005, p.277)

BARULHO E PROGRESSO O progresso é a insidiosa substituição da harmonia pela cacofonia. (QUINTANA, 2005, p.236)
   
        Em “Arquitetura Funcional”, o poeta confessa não gostar da nova arquitetura advinda da modernidade – a funcional. A casa velha tem a sua história, a sua memória; ela abriga o sonho, o mistério. Permite a brincadeira das crianças em seus “longos intermináveis corredores” e em seus “sótãos e porões”:

ARQUITETURA FUNCIONAL
Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
 É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
 Como, em nós, a presença invisível da alma...
Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
 As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso [...]
E as casa novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar! (QUINTANA, 2005, p.397)

       Em “Tempo Perdido” o poeta apresenta a nostalgia face à cidade que não existe mais. É a cidade de antes, um tempo diferente do atual, “um tempo de cadeiras na calçada” onde as Vol. 03 N. 02  jul/dez 2007 Porto Alegre, a “pequena cidade grande” de Mario Quintana 9 pessoas conversavam e conviviam mais entre si. “Lendo as linhas e as entrelinhas”, de acordo com Fischer & Fischer (2006, p.16-17), “vamos encontrar vários contrastes: no tempo de sua infância, havia menos luz artificial, mais segurança, mais familiaridade, menos pressa na vida. Era certamente uma vida de que se poderia ter muita saudade”. Um “tempo perdido” porque não existe mais, passou, ficou para trás:

TEMPO PERDIDO
Havia um tempo de cadeiras na calçada.
Era um tempo em que havia mais estrelas.
Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua.
 E o cachorro da casa era um grande personagem.
E também o relógio de parede!
Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo. (QUINTANA, 2005, p.323)

     Sandra Pesavento (1994) observa as características da modernidade mostrando que ela desperta sentimentos antitéticos, como a atração e o repúdio, no sujeito que vive essa experiência histórica: Experiência histórica individual e coletiva, a modernidade caracterizar-se-ia pela atitude de celebração e combate, de atração e repúdio em face da perda de um universo de valores e certezas, ante a inquietude e a sedução do novo. (PESAVENTO, 1994, p.200) Mario Quintana também se mostra, muitas vezes, seduzido pelo “novo”. Apresenta, em suas poesias, essa perplexidade face à modernização da cidade. São dois sentimentos contraditórios, resultantes da modernização. Em “Eu escrevi um poema triste”, o poeta revela uma tristeza que vem “das mudanças do Tempo”, do processo de modernização, da passagem do tempo. Esse percurso temporal, “que ora traz esperanças” ao sujeito-lírico, também dá incerteza e desperta a tristeza, porém, apesar de triste, é um poema belo:

EU ESCREVI UM POEMA TRISTE
Eu escrevi um poema triste
 E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
 Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel! (QUINTANA, 2005, p.878-879)

      Mario Quintana joga com as palavras e mistura termos antitéticos, deixando o leitor, num primeiro impacto, na dúvida. Através dessa obscuridade, Quintana mostra-se fascinante e desconcertante, o que, segundo Friedrich (1978), determina a dissonância que caracteriza a lírica contemporânea. A poesia torna-se dissonância, isto é, “junção de incompreensibilidade Nau Literária 10 Anna Faedrich Martins e de fascinação” (p.15). A tensão dissonante e a inquietude são colocadas pelo autor como um objetivo das artes modernas, assim como a surpresa e a estranheza face à absurdidade e ao desejo inexistente de compreensão: Quando a poesia moderna se refere a conteúdos – das coisas e dos homens – não as trata descritivamente, nem com o calor de um ver e sentir íntimos. Ela nos conduz ao âmbito do não familiar, torna-os estranhos, deforma-os. A poesia não quer mais ser medida em base ao que comumente se chama realidade, mesmo se – como ponto de partida para a sua liberdade – absorveu-a com alguns resíduos. A realidade desprendeu-se da ordem espacial, temporal, objetiva e anímica e subtraiu as distinções – repudiadas como prejudicais -, que são necessárias a uma orientação normal do universo: as distinções entre o belo e o feio, entre a proximidade e a distância, entre a luz e a sombra, entre a dor e a alegria, entre a terra e o céu. (FRIEDRICH, 1978, p.16-17)      
          “O Mapa” - célebre e conhecidíssimo poema - mostra o sujeito-lírico seduzido pelo novo e por seus mistérios. Novamente, a cidade marca presença na obra de Quintana. Essa é uma cidade nova, em processo de modernização, uma cidade que está crescendo e apresentando maior número de ruas e limites expandidos. O poeta lamenta não ter mais o domínio da cidade e de seu espaço, e de certa forma, imagina todas as coisas que ele ainda não viu e já sabe que jamais verá: as moças bonitas, as esquinas esquisitas, algumas ruas de Porto Alegre. Segundo Becker (1996, p.52), a idealização presente no poema em análise, é “pressuposto sem dúvida indispensável para que ocorra a identificação entre o poeta e a cidade”. Dessa forma, Becker aponta para o fato de que, embora o poeta deixe explícito que a cidade a qual ele se refere é Porto Alegre, ele “não faz menção a nenhum aspecto real ou característica típica da capital gaúcha” (BECKER, 1996, p. 52). Ele imagina a sua cidade e “acredita mesmo que a cidade esconda ‘uma rua encantada’ que ultrapassa sua própria capacidade de fantasiá-la” (BECKER, 1996, p. 52):

O MAPA
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
 E talvez de meu repouso... (QUINTANA, 2005, p.453)

       O mapa também é uma metáfora utilizada para o “perder-se na cidade”, assim como os diagramas, os sonhos, os labirintos, como observa Susan Sontag (1987, p.90). Ela diz que os meios de espacialização do mundo – as idéias e as experiências vistas como ruínas – são temas recorrentes de Benjamin. Portanto, “compreender alguma coisa é compreender sua topografia, saber mapeá-la. E saber como se perder”(SONTAG, 1987, p. 90).
        Yokozawa (2006, p.213) relaciona a memória lírica, “a invocação poética do pretérito”, com a “angústia ancestral da humanidade frente à irreversibilidade do que passou, à transitoriedade do tempo, frente, em última instância, à fugacidade da vida, à morte”. A autora afirma que Quintana encontra na memória a matéria nuclear de sua poesia: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...” (QUINTANA, 2005, p.285). Verificamos que o sentimento do poeta, em relação ao passado irrecuperável, revelando por vezes um sentimento melancólico, mostra-se nostálgico em relação ao tempo que não existe mais, uma vez que nega indiretamente o presente, a modernidade:

NOTAS DA CIDADE
O mais triste da arquitetura moderna é a resistência do seu material. Havia, não me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E nós que moramos em caixas de sapato!

Esses tetos baixos me abafam... De modo que só resido em casas antigas. Acontece é que as casas velhas têm proprietários velhos, muito velhos aliás e por isso mesmo muito morredores. E seus herdeiros resolvem sempre vendê-las a construtores de edifícios. Resultado: há anos que venho me mudando: sou uma pobre vítima do surto do progresso e do clamor público.

Em todo caso, como vocês já devem ter reparado, é nessas épocas de mudança arquitetônica que se dá a maior instabilidade social e individual.

E quando põem abaixo, então, a velha casa em que nascemos?! (QUINTANA, 2005, p.331, 332, 333)

      A intenção desse trabalho foi estudar o advento da modernidade, o processo de transformação das cidades – especificamente Porto Alegre -, a relação do poeta Mario Quintana com a capital do Rio Grande do Sul e com a lírica contemporânea, e seus sentimentos em relação ao novo cenário urbano. Segundo Trevisan (2006, p.16),“Quintana foi um urbano auto-exilado, fora dos padrões tradicionais”. O amigo lembra que o poeta “vivia na cidade, gostava dela, amava-a [porém] não se interessava por ela. Queria uma cidade de Nau Literária 12 Anna Faedrich Martins outros tempos, arcaica, feita de lampiões, de solares, de cacimbas em pátios e de goiabeiras junto aos galinheiros” (TREVISAN, 2006, p.16). Isso talvez explique uma dúvida que possa ter ficado ao longo deste trabalho: como o poeta da cidade, conhecido por todos pela sua relação afetiva com Porto Alegre, apresenta uma certa negatividade perante a mesma? Ainda com as palavras de Trevisan, Quintana “não apreciava cidades que teimavam em evoluir, que se tornavam falsamente adultas, que viravam marmanjas”. Ele amava a sua capital, escolhera viver nela, caminhava pelas suas ruas e acompanhava o seu desenvolvimento. A relação entre ambos sempre foi muito forte, o poeta gostava das coisas simples que a cidade podia oferecer. Ele era um indivíduo cosmopolita, como nos alerta Trevisan, ele “estava vacinado contra o provincianismo! A ironia e o humor não lhe permitiram enredar-se nas frivolidades da sociedade burguesa, nem aderir a um sistema de vida idiota” (TREVISAN, 2006, p.18).     
        Quando Trevisan pede aos leitores de Quintana que o leiam novamente, é, em outros termos, uma solicitação para que deixem o poeta agir e envolver. Ressaltamos que a obra de Quintana carrega traços contemporâneos, como o tema da morte, da passagem do tempo, da metafísica, da realidade aparente, da singularidade, usando a ironia e a lírica com humor. Repleta de ritmo, rimas, aliterações, coloquialismo, cotidiano, a sua obra envolve o leitor, mantendo viva a exploração sonora da língua. Quintana faz da poesia a sua vida e da sua vida a poesia. Em cada poema confessa um pouco de si, revelando aos poucos, de forma suave, os múltiplos Quintanas sob a fisionomia daquele mesmo menino azul que ele era na infância

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