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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O CONTO CONTEMPORÂNEO - LYGIA FAGUNDES TELLES

5. LYGIA    FAGUNDES
TELLES

Lygia Fagundes Telles, nascida Lygia de Azevedo Fagundes ComIH (São Paulo19 de abril de 1923), é uma escritora brasileira, galardoada com o Prêmio Camões em 2005
É membro da Academia Paulista de Letras desde 1982, da Academia Brasileira de Letras desde 1985 e da Academia das Ciências de Lisboa desde 1987.

Biografia
É a quarta filha do casal Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, tendo nascido na rua Barão do Bananal, na capital paulista. Por causa da profissão do pai, delegado e promotor público, passa a infância em cidades do interior do estado: SertãozinhoApiaíDescalvadoAreias e Itatinga.
Em 1938, dois anos depois da separação dos pais, Lygia publicou o seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado, com a ajuda de seu pai com o pagamento da edição e assinando como Lygia Fagundes. Em 1939 terminou o curso fundamental no Instituto de Educação Caetano de Campos. No ano seguinte, ingressou na Escola Superior de Educação Física, também em São Paulo, ao mesmo tempo que frequentou um curso pré-jurídico, preparatório para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Em 1941, iniciou o curso de Direito na Faculdade do largo de São Francisco e concluiu o curso de Educação Física. Começou a participar ativamente nos debates literários, onde conheceria Mário e Oswald de AndradePaulo Emílio Salles Gomes, entre outros nomes da cena literária brasileira. Fez, então, parte da Academia de Letras da Faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Ao mesmo tempo, trabalhou no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo para pagar os estudos e para a sua própria subsistência. Foi na faculdade do Largo de São Francisco que conheceu a poeta que veio a ser a sua melhor amiga, Hilda Hilst.
Em 1944, publicou Praia Viva. Em 1947, casou com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr. (filho de Gofredo da Silva Telles), assim passando a assinar Fagundes Telles em seu sobrenome. Conheceu seu marido na escola, já que ele era seu professor na Faculdade de Direito e deputado federal, o que a levou a mudar-se para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.
Em 1954, nasceu seu único filho Goffredo da Silva Telles Neto.. De volta à sua cidade natal, no mesmo ano escreveu o seu primeiro romance, Ciranda de Pedra
Em 1960, separou-se de Goffredo. No ano seguinte, começou a trabalhar como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Em 1962, reata com Paulo Emílio Sales Gomes e volta com ele, ainda formalmente casada, o que gerou um escândalo na sociedade.
Em parceria com Paulo Emílio, fez uma adaptação para o cinema do romance de Machado de AssisDom Casmurro, para o cineasta Paulo César Saraceni - adaptação que adotaria a alcunha da personagem principal: "Capitu".
Em 1970, recebeu o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, pelo seu livro de contos Antes do baile verde. Em 1973, publica o romance As Meninas. Com o livro ganha o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; e o prêmio de Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1977, foi galardoada pelo Pen Club do Brasil na categoria de contos, pela sua coletânea Seminário dos Ratos.
Ficou viúva em 1977, e assumiu a presidência da Cinemateca Brasileira, fundada por seu marido.
Em 1982 foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, por 32 votos a 7, foi eleita em 24 de outubro para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon, tomando posse em 12 de maio de 1987. A 26 de Novembro de 1987 foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.
Em 1995 Emiliano Ribeiro apresentou o filme As Meninas, baseado no romance da escritora. Em 2001 voltou a receber o Prêmio Jabuti, na categoria de ficção, pelo seu livro Invenção e Memória. Em março de 2001 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília.[8]
Em 13 de maio de 2005 recebeu o Prêmio Camões pelo conjunto da obra,[2] distinguida pelo júri composto por Antônio Carlos Sussekind (Brasil), Ivan Junqueira (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Vasco Graça Moura (Portugal), Germano de Almeida (Cabo Verde) e José Eduardo Agualusa (Angola).
Em fevereiro de 2016 foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores. O anúncio oficial da premiação será em outubro de 2016 em Estocolmo, na Suécia. Se vencer, será a primeira vez que o prêmio é concedido a um brasileiro.[9]

Obras

Romances
·         Ciranda de Pedra, 1954
·         Verão no Aquário, 1964
·         As Meninas, 1973 (Prêmio Jabuti)
·         As Horas Nuas, 1989

Livros de Contos
·         Porão e sobrado, 1938
·         Praia viva, 1944
·         O cacto vermelho, 1949
·         Histórias do desencontro, 1958
·         Histórias escolhidas, 1964
·         O Jardim Selvagem, 1965
·         Antes do Baile Verde, 1970
·         Seminário dos Ratos, 1977
·         Filhos pródigos, 1978 (reeditado como A Estrutura da Bolha de Sabão, 1991)
·         A Disciplina do Amor, 1980
·         Mistérios, 1981
·         Venha ver o pôr-do-sol e outros contos, 1987
·         A noite escura e mais eu, 1995
·         Oito contos de amor, 1996
·         Invenção e Memória, 2000 (Prêmio Jabuti)
·         Biruta, 2004
·         Conspiração de nuvens, 2007
·         Passaporte para a China, 2011
·         Um coração ardente, 2012

Antologias
·         Seleta, 1971 (organização, estudos e notas de Nelly Novaes Coelho)
·         Lygia Fagundes Telles, 1980 (organização de Leonardo Monteiro)
·         Os melhores contos de Lygia F. Telles, 1984 (seleção de Eduardo Portella)
·         Venha ver o pôr-do-sol, 1988 (seleção dos editores - Ática)
·         A confissão de Leontina e fragmentos, 1996 (seleção de Maura Sardinha)
·         Oito contos de amor, 1997 (seleção de Pedro Paulo de Sena Madureira)
·         Pomba enamorada, 1999 (seleção de Léa Masima).
Prêmios
Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1958)
Prêmio Guimarães Rosa (1972)
Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (1973)
Prêmio Pedro Nava, de Melhor Livro do Ano (1989)
Melhor livro de contos, Biblioteca Nacional
Prêmio APLUB de Literatura
Prêmio Bunge (2005)
Prêmio Jabuti
Prêmio Camões (2005)

LYGIA FAGUNDES TELLES, TESTEMUNHA LITERÁRIA

A escritora relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a amizade com Clarice Lispector e Hilda Hilst, a viagem à China em 1960, o encontro com Montero Lobato e a agonizante espera pela liberação de “As meninas” pela censura.       
Ubiratan Brasil ,

Para João Ubaldo Ribeiro, é a grande dama da literatura brasileira. Milton Hatoum destaca a magnitude e a perenidade dos contos de Antes do Baile Verde e Seminário dos Ratos, livros publicados nos anos 1970. Já Ignácio de Loyola Brandão garante não "existir, na literatura brasileira, uma pessoa mais adorável". Próxima dos 90 anos (completa na sexta-feira, dia 19), a escritora Lygia Fagundes Telles é praticamente uma unanimidade.        Autora de uma obra de estilo elegante, ecos machadianos e um permanente estado de espírito que permite manipular a escrita com firmeza e serenidade, Lygia sempre oferece ao leitor a oportunidade de pensar sobre suas existências.
 Basta conferir sua obra, reeditada com esmero pela Companhia das Letras desde 2009. Muitos livros se tornaram clássicos, como o romance As Meninas, de 1973, "livro até hoje muito lido nas escolas, pois reflete o impasse de jovens que viveram numa época obscura", observa Milton Hatoum. "O destino das personagens é, de algum modo, o destino de uma geração movida por sonhos de liberdade sexual e política, ou por um desejo de ascensão social. É um romance que opera com o equilíbrio entre o psicológico, o social e o político. Sem dúvida, um dos melhores livros da autora."
De fato, a literatura sempre foi, para Lygia Fagundes Telles, um caminho para mudar o mundo. Pelas letras, ela transmite aos leitores a aventura de novos conhecimentos - seja pelos detalhes do cotidiano, pelo devaneio particular ou mesmo pela vida da imaginação. "É uma escritora que se dedica aos temas universais: a loucura, o amor, a paixão, o medo, a morte", observa o crítico José Castello, autor do posfácio da nova edição de Seminário dos Ratos.
Mesmo assim, é uma mulher ligada ao cotidiano. Em seu apartamento, em São Paulo, vive rodeada de boas lembranças: fotos dos dois maridos (Goffredo da Silva Telles e Paulo Emílio Salles Gomes), do filho querido Goffredinho, de amigos e de viagens inesquecíveis. Nos últimos meses, Lygia recebeu o Sabático para reavivar lembranças, escrevendo ou falando, como as que vêm a seguir.

Clarice Lispector
Era uma grande amiga, além de excepcional escritora. Sempre me dizia: "Liginha, não sorria nas fotos. Ninguém leva a sério mulher que aparece sorrindo na fotografia!". Também era ótima companhia em viagens. Certa vez, em Cali, na Colômbia, abandonamos os debates para ficar no bar, bebendo champanhe (ela) e vinho tinto, enquanto ríamos gostosamente e ela pedia a minha opinião sobre quem era mais indiscreto nas suas traições, o homem ou a mulher. Aliás, na viagem de ida, quando o avião balançava muito e eu estava preocupada, Clarice se voltou para mim e disse: "Não tenha medo porque o avião não vai cair. Minha cartomante disse que eu morreria deitada, portanto, fique tranquila". Esse misticismo era contagiante. Certa noite, quando eu dormia em um hotel da cidade de Marília, onde participava de um seminário, fui acordada por uma andorinha desgarrada, que entrou voando no meu quarto. Levei um susto, mas logo estranhei a forma como o animal me encarava, muito amigável. Logo, consegui que o pássaro saísse pela janela. No dia seguinte, fui informada que Clarice morrera naquela noite. Só consegui dizer, baixinho: "Eu já sabia".
Ato da escrita
Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia. É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três 'Is'.
Mao Tsé-tung
Era um homem atarracado, com os olhos muito puxados e uma expressão quase imutável. Em nossa visita à China (éramos vários escritores), nos presenteou com um livro de poemas, escrito por ele mesmo, em francês e chinês. Os versos até que eram bons.
Monteiro Lobato
No longo corredor que me pareceu sombrio, o carcereiro avisou que a visita teria que ser breve, mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdeada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. "Este aqui é um caro editor", apresentou-o e disse o nome do editor que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, "ah! as paixões da minha adolescência": Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-pererê...
Ele me interrompeu com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas porque livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler, mas não liam e daí a ideia das cartas curtas e diretas. "Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso. A mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?" Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante: "Pois foi lá que eu me formei!". Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. "Ah! Se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?" Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, eu era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim anunciar um bom emprego. Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances...
Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro. "Olha aí, a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!", disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta. "Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça."
Faculdade de Direito
Decidi ser advogada por causa do meu pai, Durval, que também se formou na São Francisco. Era um homem lindo, adorável, mas que tinha um grande pecado: era um jogador contumaz. Adorava roleta. Ele me levava a um cassino em Santos e, enquanto eu, pequena, tomava uma enorme taça de sorvete, meu pai jogava as fichas e as perdia, uma a uma. Quando íamos embora, derrotados, ele sempre dizia: "Hoje perdemos, mas amanhã a gente ganha". Eu o admirava muito. Mas não foi fácil estudar na São Francisco. Na minha turma, éramos apenas seis mulheres entre mais de cem homens. Todas virgens! Certa vez, um dos meus colegas me perguntou: 'O que vocês, mulheres, querem aqui na faculdade? Casar?' Respondi, de bate-pronto: 'Também!' Mal sabia ele que me casaria com um dos professores (Goffredo da Silva Telles).
Hilda Hilst
Verão de 1952. Eu já estava casada com Goffredo quando a Hilda foi nos visitar no Rio. Ficou hospedada no Hotel Olinda, em Copacabana. Ela usava um maiô claro de tecido acetinado, inteiriço, na moda, os discretos maiôs inteiriços. Lembro que tinha no pescoço um longo colar de conchinhas. Falou-me dos novos planos, tantos. Estava amando e escrevendo muito, quando ela se apaixonava a gente já sabia que logo viria um novo livro celebrando o amor. Nesse sábado, tínhamos marcado no nosso apartamento um encontro com alguns amigos, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Breno Accioly, José Condé... Hilda Hilst chegou toda de preto, os cabelos dourados soltos até os ombros. Falou em Santa Teresa d'Ávila, a do "amor duro e inflexível como o inferno". Pedi-lhe que dissesse o seu poema mais recente. Então, eu me lembro, Cyro dos Anjos cumprimentou-a com entusiasmo e começou a examinar a pequena palma da mão que ela lhe estendeu, ele sabia ler o destino nas linhas da mão.
Livraria Jaraguá
Segunda Guerra Mundial, ano de 1944. Eu era uma mocinha de boina, morava com a minha mãe num apartamento na Rua Sete de Abril e duas vezes por dia passava pela Rua Marconi, quando ia para as aulas na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. E quando retornava no final da tarde, emendava a manhã com o meu expediente de trabalho na Secretaria da Agricultura, onde colava retratos, era uma estudante pobre.
Nessa Rua Marconi ficava a bela Livraria Jaraguá, de Alfredo Mesquita, e onde se reuniam as mais importantes personalidades da tranquila cidade de São Paulo, comoção da minha vida! - no desabafo ardente de Mário de Andrade. Esse mesmo Mário de Andrade que foi um dos primeiros frequentadores da livraria nos encontros no fim da tarde, ele o Oswald de Andrade. A esses intelectuais mais velhos (Sérgio Milliet, Lívio Xavier, Sérgio Buarque de Hollanda) foi se juntando um grupo de jovens, os fundadores com Alfredo Mesquita da revista Clima: Antonio Candido, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e Ruy Coelho, ah, tanta gente e tantos projetos. Tantos planos. Era a elite intelectual da Faculdade de Filosofia, os jovens herdeiros da Semana de 22 e aos quais Oswald de Andrade apelidou de chato-boys: "Com oito anos eles começaram a ler Marcel Proust e com dez já discutiam Spengler, ai! não aguento tamanha precocidade!", disparava Oswald de Andrade e Alfredo Mesquita dava aquela risadinha cascateante.
Paulo Emílio Salles Gomes
Meu segundo marido era um homem encantador, inteligente, vibrante, irônico. Ele me apelidou de Cuco, brincadeira com o relógio de uma velha tia cujo cuco sempre cantava as horas com atraso - eu sempre me atrasava para nossos compromissos. Também apelidou meu filho Goffredinho de Cré, pois, nas aulas de francês, quando o garoto errava feio, Paulo disparava: 'Crétain!" (cretino). Paulo sempre foi um grande incentivador da minha obra, especialmente nos momentos mais difíceis. Como em 1973, quando publiquei As Meninas. Era época pesada da ditadura militar e eu me inspirei, entre outras coisas, num panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político. Coloquei isso no meio da trama e fiquei apreensiva quando o livro foi enviado para a censura. Enquanto aguardava, nervosa, o veredicto, fui surpreendida pela chegada, alegre, de Paulo, em nosso apartamento. Ele trazia uma garrafa de vinho e estava muito disposto a comemorar. Logo explicou: aborrecido com uma história em que não acontecia nada, o censor só lera algumas páginas, não chegara àquele ponto da tortura e liberava a obra.
Dom Casmurro
Eu estava na Faculdade de Direito quando li pela primeira vez Dom Casmurro, uma edição que comprei em um sebo. Achei, então, que Capitu era uma santa, uma pobrezinha; e ele, Bentinho, um neurótico, um doido varrido, histérico. Conversei com as minhas colegas, éramos seis mulheres, sobre a leitura, e eu dizia: "Não pode isso, esse homem é um louco, neurastênico, desesperado, casado com uma santa em que via a traição." Enfim, não li mais o livro. A segunda leitura foi na maturidade. Estava casada com o Paulo Emílio e preparávamos Capitu (roteiro filmado por Paulo César Saraceni e lançado pela Cosac Naify). Reli o livro e disse ao Paulo: "Mudei completamente de ideia, a mulher traiu ele, sim, o filho não era dele". E ele me perguntou: "Você tem certeza? Cuco, você não pode ser juiz, temos que suspender o juízo, como o próprio Machado queria." E eu: "Mas eu não posso suspender, esse homem é um doido, coitada dessa mulher". "Cuco, não vista a toga de juiz. Vamos apresentar o roteiro como está no livro. Você está ficando com a cara do Bentinho!" "E você então está me traindo!" Capitu traiu Bentinho? Eu já não sei mais. Minha última versão é essa, não sei. Acho que, enfim, suspendi o juízo. No começo, ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei.

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10 LIVROS DE LYGIA FAGUNDES TELLES QUE VOCÊ PRECISA LER

"As meninas", "Um coração ardente" e "Passaporte para China" são alguns dos títulos que merecem destaque.
Se você ainda não conhece Lygia Fagundes Telles ou nunca leu um de seus livros, pare o que estiver fazendo para ler esta matéria e escolha uma das obras abaixo para conhecer o mais rápido possível. 
Para quem ainda não sabe, Lygia foi uma das primeiras mulheres a consquistar o diploma de Direito no Largo São Francisco e é uma das maiores escritoras brasileiras. Este ano, no alto de seus 92 anos, ganhou mais um prêmio, o Prêmio Fundação Conrado Wessel 2015, na categoria Cultura, sendo agraciada com R$ 300 mil. 
Sua obra é hoje internacionalmente reconhecida, e para que você saiba mais sobre sua trajetória profissional e se apaixone por sua escrita, listamos 10 livros incríveis que você precisa ler. Confira:

AS MENINAS
Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso. "As Meninas" colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas.

SEMINÁRIO DOS RATOS
Em "Seminário dos Ratos", publicado pela primeira vez em 1977, a autora lança mão de toda a sua maestria narrativa para explorar regiões recônditas da psique e do comportamento humanos. Em várias das suas catorze histórias, ela se aventura pelo fantástico como modo privilegiado de acesso ao real. Mas o fantástico de Lygia recusa as facilidades do chamado realismo mágico, apresentando-se a cada vez de maneira diversa e surpreendente. Alternando tempos narrativos, passando com desenvoltura da primeira à terceira pessoa, usando com destreza o discurso indireto livre, Lygia Fagundes Telles atinge neste livro a proeza de conciliar uma construção literária altamente complexa com uma capacidade ímpar de comunicação com o leitor.

DURANTE AQUELE ESTRANHO CHÁ
Estes textos de origens, naturezas e épocas diversas, compõem um painel de memórias de Lygia Fagundes Telles, com destaque para seus encontros e diálogos com personalidades literárias que, de um modo ou de outro, marcaram a sua formação como escritora. A autora passa em revista as conversas com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, as visitas a Jorge Amado e Zélia Gattai, a amizade com Hilda Hilst, um diálogo com Jorge Luis Borges e uma entrevista concedida à amiga Clarice Lispector.

UM CORAÇÃO ARDENTE
Os dez contos reunidos neste livro foram publicados entre 1958 e 1981. Em "Um Coração Ardente", um rapaz se apaixona por uma moça sem saber que ela é prostituta e, depois, tenta regenerá-la. Em "Biruta", um menino órfão cujo único consolo e companhia é seu cão de estimação vê-se traído pela família que o adotou como uma espécie de agregado. Em "Emanuel", o amante inventado por uma moça solitária em um mecanismo de defesa contra as zombarias das amigas acaba por ganhar existência real. "As Cartas", por sua vez, narra o empenho de uma mulher para proteger a correspondência comprometedora de uma amiga com um político casado. Já o entrecho de "A Estrela Branca" é o transplante de olhos que devolveu a um cego a visão - mas não o controle sobre ela.  

PASSAPORTE PARA A CHINA
Em 1960, delegações de todo o mundo participaram da festa do 11º aniversário do socialismo chinês. Embora não se considerasse comunista, Lygia foi incluída no grupo brasileiro e resolveu enfrentar o pânico dos 'aviões a jato'. Antes de embarcar, ela recebeu outra proposta - enviar relatos da viagem para o jornal 'Última Hora'. Daí surgiram 29 crônicas, que formam um diário de bordo, ambientado em várias cidades. O olhar da autora se demora em paisagens, monumentos, roupas, costumes. Mas as crônicas também nascem do convívio com o povo e com detalhes do cotidiano. Além das anotações de viagem, encontram-se evocações literárias, recordações de infância e reflexões sobre o país natal. O livro conta ainda com um pequeno caderno de fotos tiradas durante a viagem.

A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO
Os protagonistas destas histórias encontram-se, em geral, numa relação crítica com as pessoas e ambientes que os cercam. Secretos podres familiares, desenganos amorosos, vocações frustradas, o desejo extraviado, nada é confortável nessas narrativas, que alternam descrição objetiva, discurso indireto livre e fluxo de consciência.

A DISCIPLINA DO AMOR
Ao publicar "A disciplina do amor", em 1980, a autora já era consagrada. Apesar de seu êxito como romancista, muitos críticos tinham apontado a ficção curta como o território de maior maestria da escritora. Agora ela ressurgia experimentando uma escrita mais livre, que despreza as fronteiras entre a ficção e a realidade, a invenção e a memória, o conto e o relato autobiográfico. Estava lançado o desafio à separação rígida dos gêneros literários. O resultado foi um dos livros mais bem-sucedidos, vencedor do Prêmio Jabuti e do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Espécie de paródia amadurecida de um discurso da intimidade juvenil, o livro estende sobre o mundo um olhar atento, às vezes desencantado, mas sempre compreensivo e terno, na busca incessante da única hipótese de sabedoria cabível nos tempos modernos: “controlar essa loucura razoável”, seguindo o exemplo da “disciplina indisciplinada” dos apaixonados.

AS HORAS NUAS
Rosa Ambrósio, uma atriz de teatro decadente, passa em revista, entre generosas doses de uísque, os amores de sua vida. O primo Miguel, sua paixão adolescente, morreu de overdose por volta dos vinte anos. Gregório, seu marido, virou um homem taciturno depois que foi torturado pela ditadura militar. Diogo, seu amante e último companheiro, trocou-a por moças mais jovens. Alternando vozes e pontos de vista, passando do fluxo interno de consciência à narrativa em terceira pessoa, Lygia Fagundes Telles põe em cena temas como - o movimento feminista, a cultura de massa, a aids e as drogas.

INVENÇÃO E MEMÓRIA
Um baile de faculdade em São Paulo quase no final da Segunda Guerra Mundial; um galo que se deixa morrer de fome depois que seu amigo peru é sacrificado para uma ceia; as relações equívocas entre um velho e um garoto vistos num restaurante; um vampiro norueguês que atravessa os séculos em busca de sua amada, uma índia brasileira. Essas são algumas das histórias narradas neste livro singular, em que uma das maiores escritoras da língua portuguesa entrelaça as potências criativas da memória e da invenção. Com um misto de serenidade e inquietação, Lygia Fagundes Telles passa em revista descobertas, projetos e desencantos vividos ou imaginados ao longo das décadas. Na linguagem cálida e fluente que a tornou uma das escritoras brasileiras mais amadas pelos leitores, ela funde o cômico e o comovente da experiência humana.

VERÃO NO AQUÁRIO
No verão mais quente e abafado de sua juventude, Raíza oscila entre a memória do pai, que entregara sua vida ao alcoolismo, e a figura um tanto alheia de sua mãe, Patrícia, escritora madura que se dedica à criação de mais um romance. O sentimento de rejeição e rivalidade que se apossa de Raíza aumenta diante da ligação misteriosa de Patrícia com o ex-seminarista André - um rapaz tão tímido quanto atraente. Serão amantes? Forma-se assim, na imaginação angustiada de Raíza, o triângulo amoroso que prenderá o leitor da primeira até a última página. 

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