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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A SEGUNDA FASE DO MODERNISMO BRASILEIRO: A PROSA MODERNISTA - ROMANCE DE 30

 O ROMANCE DE 30
  
  Na Segunda Fase do Modernismo Brasileiro, a prosa assumiu uma importância bem mais significativa do que a poesia, tanto pelo momento político vivido, quanto pelas obras produzidas pelos escritores do momento.
  Em 1926, ocorre um congresso em Recife e nele se encontram escritores do Nordeste; estes se dispõem, aos poucos, a fazer uma prosa regional consistente e participativa. É dessas primeiras manifestações que surgirá um dos momentos mais autênticos da literatura brasileira, o Romance de 30.
   O romance de 30, teve como marco inicial a publicação do romance “A Bagaceira” (1928), do escritor José Américo de Almeida. Para tanto, os escritores dessa geração estavam preocupados em denunciar as desigualdades e injustiças sociais no país, sobretudo na região do Nordeste, criando uma literatura ficcional crítica e revolucionária cujo tema era a vida rural, agrária.
    A data de 1930 é marcante porque consolida a renovação do gênero romance no Brasil, ou seja, traz novos rumos à prosa. Depois de tanta arruaça intelectual dos primeiros modernistas no Sudeste do país, procura-se atingir equilíbrio e estabilidade, que, aos poucos, vai aparecendo em obras e mais obras: O quinze, de Rachel de Queiroz(1930); O país do Carnaval, de Jorge Amado (1931); Menino de engenho, de José Lins do Rego (1932); São Bernardo, de Graciliano Ramos (1934); e Capitães da areia, de Jorge Amado (1937).
    Esta nova literatura em prosa será antifascista e anticapitalista, extremamente vigorosa e crítica. Os livros didáticos a chamam com vários nomes: "Romance de 30" (porque é o início cronológico da nova literatura); romance neo-realista(porque essas obras conseguiram renovar e modernizar o realismo/naturalismo do século 19, enriquecendo-o com preocupações psicológicas e sociais) ou romance regionalista moderno (porque escapa das metrópoles e vai ao Brasil regional, preso ainda a antinomias dos séculos    anteriores).
      Lembremos, inclusive, que algumas obras sociológicas fundamentais surgem nessa mesma época: Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, é de 1933, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, de 1936.
     De todos os nomes para essa época, o melhor parece ser o do título deste artigo. Por quê? Porque os romances de Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Verissimo, Graciliano Ramos e outros escritores criaram um estilo novo, completamente moderno, totalmente liberto da linguagem tradicional, nos quais puderam incorporar a real linguagem regional, as gírias locais.
     Os romances dessa época procuravam refletir o drama vivido pelos trabalhadores nos chamados “ciclos econômicos” das épocas e das regiões. Há os que retratam o ciclo da cana-de–açúcar (José Lins do Rego), ciclo do cacau (Jorge Amado), ciclo da seca(Graciliano Ramos), Rachel de Queiroz)...

A consciência crítica
     No  romance de 30, as personagens são integrantes de estruturas sociais perfeitamente identificáveis;  assim, tais estruturas serão aceitas ou  as personagens lutarão  para transformá-las. No  romance do  século 19, era preciso  interpretar o  texto para reconhecer os padrões culturais e sociais abordados;  no  romance de 30, eles estão abordados explicitamente.  Em Capitães da Areia, publicado  por  Jorge Amado em 1937, encontramos uma narrativa de denúncia social: são  abordadas questões como a diferença de classe, injustiças sociais, miséria, o  sincretismo  religioso e o problema grave dos meninos  de rua  em  Salvador.
    Mais do que tudo, através dessa "fala", consolidaram em suas obras questões sociais bastante graves: a desigualdade social, a vida cruel dos retirantes, os resquícios de escravidão, o coronelismo, apoiado na posse das terras - todos problemas sociopolíticos que se sobreporiam ao lado pitoresco das várias regiões retratadas.
   Leia, por exemplo, um trecho de Vidas secas, de Graciliano Ramos:

     Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos

[...]

    Arrastaram-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanhacado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

    Perceba a força narrativa com que o narrador descreve a cena cruel, de retirantes exaustos sob o sol, a família silenciosa e triste, com a qual ele se solidariza ("os infelizes"); ele e nós, os leitores. A lentidão proposital da narrativa é a superação difícil do caminho sob o sol (para onde vai quem não tem terras?) e a secura descritiva reproduz o silêncio dos que estão exaustos. Essa é a seca vida do herói - agora um anti-herói -, humilhado e vencido pelo meio hostil.
      Esses romances foram fundamentais para o amadurecimento da consciência crítica e social do leitor brasileiro. Com eles, encontramos formas de compreensão do homem em várias faixas da sociedade brasileira e do determinismo que o persegue em situações adversas. É injusto pensarmos que esses romances mostraram apenas as "mulatas gabrielas" para o mundo exterior. As formas de narrar o cotidiano ficaram mais complexas e tensas.
      Leia mais um trecho de Graciliano Ramos, não da história de Fabiano, mas da de Paulo Honório, que foi guia de cego e trabalhador de enxada, mas conseguiu conquistar, com violência e determinação, além da fazenda de São Bernardo, respeito, dinheiro e prestígio: virou um coronel. Teria sido um Fabiano que deu certo? Parece que não:

Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei
[...]

Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.

[...]
Não consigo modificar-me, é o que aflige.

[...]

A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste.


     A adesão ao socialismo impôs aos escritores da época, às vezes de forma radical, fórmulas de compreensão do homem em sociedade. Os romancistas, imbuídos do sentimento de missão política, queriam mostrar as tensões que transformavam ou destruíam os homens - aliás, um tema universal e sempre vivo na literatura.
     Mas o fato é que sem os modernistas de 1922 (1ª geração), dificilmente os modernistas de 1930 (2ª geração) teriam conseguido o feito literário e social que obtiveram, porque aqueles foram os primeiros que provocaram a atualização da "inteligência" brasileira, foram eles que trouxeram para a literatura o fato não-literário e a oralidade, que tanto beneficiou o realismo seco dos escritores regionalistas, dando-lhes maior autenticidade.
      Por outro lado, mesmo com os romances mais pitorescos e menos brutais, os leitores aprenderam, como nos ensina Alfredo Bosi (História concisa da literatura brasileira), que o velho mundo dos homens poderosos não acaba tão facilmente: as estruturas das oligarquias regionais se mantêm através do poder e da força, e é contra eles que se tem de lutar. Como nos conta Jorge Amado, ao final de Capitães da areia:

       No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.

[...] E no dia em que ele fugiu..., em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. [...] Qualquer daqueles lares se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.


Características
     Veja abaixo as principais caraterísticas do Romance de 30:
·         Regionalismo romântico
·         Romance social
·         Diversidade cultural brasileira
·         Retomada do romantismo e do realismo
·         Perspectiva determinista
·         Narrativa linear
 Autores e Obras
     Segue abaixo alguns autores que fizeram parte da segunda fase modernista e exploraram temas como a miséria, desigualdade social e econômica, além das dores e sofrimentos humanos:
·         José Américo de Almeida (1887-1980): escritor, professor, político e sociólogo paraibano, foi quem introduziu o romance regionalista no Brasil, com a publicação de “A Bagaceira” (1928), romance que aborda o tema da seca de 1898 e da fuga dos retirantes nordestinos.
·         Rachel de Queiroz (1910-2003): escritora, jornalista, dramaturga e militante política cearense foi uma das mais proeminentes artistas do momento, com sua ficção social nordestina retratada na obra “O Quinze” (1930). O título faz referência ao ano em que a seca assolou o Nordeste: 1915.
·         Graciliano Ramos (1892-1953): escritor, jornalista e político alagoano. Sem dúvida sua obra mais emblemática do período é “Vidas Secas” (1938) donde autor aborda o tema da seca que assola o Nordeste e a vida de uma família de retirantes que foge do sertão e da miséria.
·         José Lins do Rego (1901-1957): escritor paraibano, explorou temas regionalistas apontando aspectos, políticos, sociais e econômicos do país. Sua obra mais emblemática do período é intitulada “Menino de Engenho” (1932), donde denuncia a realidade social ao mesmo tempo que apresenta a decadência do ciclo de açúcar nos engenhos nordestinos.
·         Jorge Amado (1912-2001): escritor baiano considerado um dos maiores nomes da literatura regionalista brasileira do século XX. Em suas obras explorou a diversidade étnica e social brasileira, da qual se destaca “Capitães de Areia” (1937), romance urbano ambientado na cidade de Salvador na década de 30, cujos protagonistas formavam um grupo de menores abandonados chamados de “Capitães da Areia”.

    Fonte: Vários sites da internet.










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