4.CAIO FERNANDO
ABREU

BIOGRAFIA
  Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago, 12 de setembro de 1948 — Porto Alegre, 25 de fevereiro de 1996) foi um jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro.
   Apontado como um dos expoentes de sua geração, a obra de Caio Fernando Abreu, escrita num estilo econômico e bem pessoal, fala de sexo, de medo, de morte e, principalmente, de angustiante solidão. Apresenta uma visão dramática do mundo moderno e é considerado um "fotógrafo da fragmentação contemporânea".
   (Casa  de Caio em sua cidade natal, Santiago-RS)

Caio Fernando Abreu estudou Letras e Artes Cênicasna Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi colega de João Gilberto Noll. No entanto, ele abandonou ambos os cursos para trabalhar como jornalista de revistas de entretenimento, tais como Nova, Manchete, Veja e Pop, além de colaborar com os jornais Correio do Povo, Zero Hora, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo.
   Em 1968, perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), Caio refugiou-se no sítio de uma amiga, a escritora Hilda Hilst, em Campinas, São Paulo. No início da década de 1970, ele se exilou por um ano na Europa, morando, respectivamente, na Espanha, na Suécia, nos Países Baixos, na Inglaterra e na França.
   Em 1974, Caio Fernando Abreu retornou a Porto Alegre. Chegou a ser visto na Rua da Praia usando brincos nas duas orelhas e uma bata de veludo, com o cabelo pintado de vermelho [carece de fontes]. Em 1983, mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1985, para São Paulo. A convite da Casa dos Escritores Estrangeiros, ele voltou à França em 1994, regressando ao Brasil no mesmo ano, ao descobrir-se portador do vírus HIV. Abreu era declaradamente homossexual em plena época da Ditadura Militar no Brasil.
   Em 1995, Caio Fernando Abreu se tornou patrono da 41.° Feira do Livro de Porto Alegre.
   Um ano depois, Caio Fernando Abreu voltou a viver novamente com seus pais, tempo durante o qual se dedicaria à jardinagem, cuidando de roseiras. Faleceu em 25 de fevereiro de 1996, Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre, no mesmo dia em que Mário de Andrade. Seus restos mortais jazem no Cemitério São Miguel e Almas.

LITERATURA

   Seu primeiro romance, Limite branco (1970), já possui as marcas que iriam acompanhar sua trajetória literária: a angústia diante do devir e a morte como certeza no final da jornada. Segundo sua perspectiva literária, a vida deve ser buscada continuamente.
   Caio Fernando Abreu viveu intensamente a época da ditadura, em suas obras literárias, o autor buscava inspiração em momentos importantes de sua vida, fazia uma releitura rápida, porém despercebida de seu modo de pensar, a maioria de suas criações e personagens retratavam um modo cinzento e triste de viver, na busca inquietante pela felicidade.

PRÊMIOS
Prêmio Jabuti de Literatura, 1996, categoria Contos / Crônicas / Novelas - livro "Ovelhas Negras"
Prêmio Jabuti de Literatura, 1989, categoria Contos / Crônicas / Novelas - livro "Os Dragões não Conhecem o Paraíso"
Prêmio Jabuti de Literatura, 1984, categoria Contos / Crônicas / Novelas - livro "O Triângulo das Águas"
Revista IstoÉ, 1982, Melhor Livro - "Morangos Mofados"

Para conhecer a obra de Caio Fernando Abreu:
Inventário do irremediável
Limite Branco
O ovo apunhalado
Pedras de Calcutá
Morangos mofados
Triângulo das Águas
Os dragões não conhecem o paraíso
Mel & Girassóis
A maldição do Vale Negro
As frangas
Onde andará Dulce Veiga?
Ovelhas Negras
Estranhos estrangeiros
Pequenas epifanias
A Vida Gritando nos Cantos
Teatro completo
Girassóis
Fragmentos: 8 histórias e um conto inédito
Cartas
Caio 3 D: O Essencial da Década de 70
Caio 3 D: O Essencial da Década de 80
Caio 3 D: O Essencial da Década de 90
Melhores contos
Além do ponto e outros contos
A comunidade do arco-íris
# Caio Fernando Abreu de A a Z.


CAIO FERNANDO ABREU

   Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago do Boqueirão, RS, 1948 - Porto Alegre, RS, 1996). Contista, romancista, dramaturgo, jornalista. Muda-se para Porto Alegre, em 1963. Publica seu primeiro conto, O Príncipe Sapo, na revista Cláudia, em 1963. A partir de 1964 cursa Letras e Arte Dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas abandona ambos os cursos para dedicar-se ao jornalismo. Transfere-se para São Paulo em 1968, após ser selecionado, em concurso nacional, para compor a primeira redação da revista Veja. No ano seguinte, perseguido pela ditadura militar, refugia-se na chácara da escritora Hilda Hilst (1930-2004), em Campinas, São Paulo. A partir daí passa a levar uma vida errante no Brasil e no exterior. Fascinado pelo contracultura, viaja pela Europa de mochila nas costas, vive em comunidade, lava pratos em Estocolmo, e considera a possibilidade de viver de artesanato em uma praça de Ipanema. Na década de 1980, escreve para algumas revistas e torna-se editor do semanário Leia Livros. Em 1990, vai a Londres, lançar a tradução inglesa de Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. Vai para a França, em 1994, a convite da Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs de Saint Nazaire, onde escreve a novela Bien Loin de Marienbad. Em setembro do mesmo ano escreve em sua coluna semanal, no jornal O Estado de S. Paulo, uma série de três cartas denominadas Cartas para Além do Muro, onde declara ser portador do vírus HIV.

Comentário Crítico
   A literatura de Caio Fernando Abreu começa a ser produzida em 1966, e não se interrompe até sua morte, trinta anos depois. Delimitar o momento de criação de sua obra é fundamental para compreendê-la, pois é desse tempo que o escritor extrai os temas e a atmosfera necessários para criá-la.
   As décadas de 1960 e 1970 são marcadas pelos movimentos contraculturais: de um lado, floresce a ideologia "paz e amor"; o movimento negro, a rebeldia estudantil, a revolução sexual, o feminismo e o movimento gay. De outro, predomina o cenário cinzento das ditaduras latino-americanas, o imperialismo norte-americano e a guerra do Vietnã. Nutrindo-se desse momento particularmente rico da história do Brasil e do mundo, a obra de Caio Fernando Abreu elege a contemporaneidade como tema, e nela vai buscar seus personagens sombrios, angustiados, obcecados pela morte e pela busca desesperada de amor e sexo. O fim das utopias libertárias, no entanto, chega, para o escritor, com o advento da AIDS, que será tematizada em cada um de seus livros, a partir de 1983.
   As marcas e a influência de autores como Clarice Lispector (1925-1977), Hilda Hilst, Gabriel García Márquez (1928-2014) e Julio Cortázar (1914-1984) - dos quais é leitor contumaz - podem ser facilmente detectadas em seus livros, em diferentes momentos. A música, o teatro e o cinema também atuam como fontes de inspiração tão relevantes quanto a própria literatura.
   Gosta de escrever com fundo musical e tenta incorporar, ao texto, o ritmo da música, procedimento que chama de "coreografia verbal". Sua intenção é a de projetar os sons até mesmo na experiência da leitura e, para obter esse efeito, alguns de seus contos são acompanhados de um curioso "modo de usar": para ser lido ao som de... Chega a admitir que as canções de Rita Lee e de Cazuza exercem maior influência sobre ele do que toda a obra de Graciliano Ramos (1892-1953). Da mesma forma, não teme incorporar à sua escrita o chulo ou o não-literário. Todas estas inspirações, e mais as frases assimiladas no cotidiano - as "frases-ímãs - são anotadas em pequenos cadernos: eu vou magnetizando coisas no inconsciente, coisas do dia-a-dia, coisas que magicamente as pessoas vão te dizendo".
   Outro procedimento importante utilizado em sua técnica de escrita é o que denomina "teoria dos metâmeros", retirada da biologia, e que foi desenvolvido por ele a partir de 1970. Metâmeros são anéis de alguns tipos de verme, e por meio deles o animal se multiplica, gerando outro, já que cada parte contém informações genéticas do verme inteiro. Segundo Jeanne Callegari, biógrafa do escritor, em literatura um metâmero pode ser qualquer esboço ou anotação fragmentada que contenha informações sobre personagens, estilo, ou trama. Assim que o desejar, o escritor pode recuperar esses textos e utilizar-se deles, ampliando-os, transformando-os em contos, romances, ou peças teatrais.
   Limite Branco, um romance de formação escrito aos 18 anos, permanece engavetado por cinco anos, quando então vai ser recuperado e reescrito por Abreu segundo a teoria dos metâmeros. Embora obra de um adolescente, já anuncia os temas sombrios que compõem sua literatura. O livro tem como cenário os anos 1960, mas o autor prefere classificá-lo como um romance intimista e atemporal.

   Inventário do Irremediável, seu livro de estreia (reescrito posteriormente, pouco antes de sua morte) traz em seus contos uma forte influência da literatura de Clarice Lispector. A preocupação de se desvincular da influência exercida pela escritora nas suas produções é comentada em uma de suas entrevistas: "só lia os livros dela escondido de mim mesmo".
   Entre os contos que compõem esse livro, O Ovo é o que exemplifica de modo mais visível essa influência. Escrito sob o impacto da ditadura militar no Brasil, O Ovo funciona como metáfora de tudo aquilo que aprisiona. O livro se divide em quatro grandes partes (ou inventários), a saber: a morte, a solidão, o amor e o espanto. Cada uma delas obedece a uma lógica interna, minuciosamente elaborada em cada conto. A busca dessa coerência e de uma unidade temática estão presentes em todos os livros do autor.
   Pedras de Calcutá, cujo título é retirado de um poema de Mario Quintana (1906-1994), marca o amadurecimento de Abreu como escritor e o pleno domínio da palavra escrita. Tornam-se mais visíveis o rigor formal, a busca da palavra exata, o burilamento sem afetação que identificam sua obra. A temática predominante é ainda a descrença e o desamparo.
   O livro que se segue, Morangos Mofados, lançado em 1982, transforma-se rapidamente no seu maior sucesso de público e de crítica: oito tiragens são impressas uma após a outra. Nele, Caio Fernando Abreu sedimenta sua presença na literatura brasileira como legítimo representante de sua geração. Segundo Heloisa Buarque de Holanda, pode-se ler "no conto título do livro, uma última e inútil tentativa de socorrer John Lennon, um certo adeus às fantasias apocalípticas, sobretudo, a clareza quanto à urgência de um novo projeto (sonho) que inclua um acerto de contas com o real".
   E esse acerto vem, e é brutal. A AIDS já ronda a vida e a literatura de Caio Abreu. Seu próximo trabalho, Triângulo das Águas, obedece a uma concepção esotérica, astrológica: reúne três novelas, cada uma delas dedicada a um dos signos do elemento água. Uma delas, Pela Noite, é considerada o primeiro texto da literatura brasileira sobre o tema da AIDS. O livro não tem a mesma concisão de Morangos Mofados. Há um excesso de palavras, um jorro de linguagem proposital, segundo o autor, para provocar um efeito de imitação da água.
   Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, ao contrário, é considerado o melhor trabalho do escritor, e o mais maduro. Como o autor, seus personagens envelhecem: estão agora na faixa etária dos 40 anos. Predomina a temática amorosa, suas angústias e solidões. O tema da AIDS, ainda de forma implícita, também está presente no conto que abre o livro: Linda, uma História Horrível, no qual a doença é insinuada por metáforas, por sintomas: "Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pelo da cadela quase cega, cheia de manchas rosadas. Iguais à do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pelos. Crespos, escuros, macios".
   Com Onde Andará Dulce Veiga? Caio Fernando Abreu volta ao romance. A inspiração para o livro e a personagem pode ser encontrada na obra de Marques Rebelo, A Estrela Sobe, sucesso nos anos 1930, e filmada por Bruno Barreto em 1974. Apenas na aparência Dulce Veiga é um romance policialesco. O jornalista que protagoniza a trama e procura por uma cantora desaparecida está, na verdade, em busca de si mesmo, do seu passado, mas também da aceitação do seu presente, assombrado pela AIDS que, desta vez, é anunciada sem reticências. O livro descreve um Brasil urbano, violento e poético.
   Desde os anos 1980 e 1990, Caio revisa e reescreve seus livros, obsessivamente. Em Ovelhas Negras, volta então aos seus primeiros escritos da adolescência e junta as duas pontas de sua vida e de sua obra. Ali reúne desde o seu primeiro trabalho ficcional, A Maldição dos Saint-Marie, até contos mais recentes, assim como fragmentos de origem e tempos diversos. Trata-se, para ele, de uma espécie de autobiografia ficcional, um livro pré-póstumo, como diz.
   A obra teatral de Caio Fernando Abreu, variada e expressiva, remete aos mesmos temas tratados em sua literatura, e estabelece, por vezes, interessante diálogo com ela, como na peça A Maldição do Vale Negro, que retoma, mais uma vez, A Maldição dos Saint-Marie. Toda sua dramaturgia está reunida em Teatro Completo.
   O volume Cartas, publicado em 2002, traz grande parte da enorme correspondência de Abreu, que nada fica a dever, em qualidade, à de sua obra ficcional.

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Textos de Caio Fernando Abreu
Poderíamos casar, teríamos um apartamento, tomaríamos café as cinco da tarde, discordaríamos quanto a cor das cortinas, não arrumaríamos a cama diariamente, a geladeira seria repleta de congelados e coca-cola, o armário, de porcarias, adiaríamos o despertador umas trinta vezes, sentaríamos na sala de pijama e pantufas, sairíamos pra jantar em dia de chuva e chegaríamos encharcados, nos beijaríamos no meio de alguma frase, você pegaria no sono com a mão no meu cabelo e eu, escutando sua respiração. Eu riria sem motivo e você perguntaria porque, eu não responderia, saberíamos.

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.

E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência.
E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

Tudo isso dói. Mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois.
Para me dar força, escrevi no espelho do meu quarto: 'Tá certo que o sonho acabou, mas também não precisa virar pesadelo, não é?' É o que estou tentando vivenciar.
Certo, muitas ilusões dançaram - mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída.
Nada é muito terrível. Só viver, não é?
A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir.
Porque não estou fluindo.

Extremos da paixão

Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes.
(...)
A cada dia viver me esmaga com mais força.

Ando tropeçando em absurdos. Em desassossegos também. Tem gente que tirou o mês pra me chatear, me colocar pra baixo, me jogar em cima um amontoado de energias ruins. Tem gente que tem esse dom. De não ser feliz e querer enferrujar o sorriso alheio.

Aí eu lembro daquela música do Forfun: "Faço de mim casa de sentimentos bons, onde a má fé não faz morada e a maldade não se cria." Me cerco de boas intenções, me reservo pros poucos e melhores amigos. Me encho de luz lendo Adélia e Manoel. Me permito o riso.

Porque, na verdade, o que eu levo aqui dentro é maior que tudo. É maior porque é do bem e vem fresquinho. Eu vivo mesmo é de claridades e não vai ser qualquer gentinha à toa que vai enfraquecer minha fé na vida e minha vontade de sorrir pro mundo.

Pra você que não aprendeu a ser feliz e que não tem olhos pra esticar horizontes, eu canto o meu refrão: 'Sendo aquele que sempre traz amor, sendo aquele que sempre traz sorrisos. E permanecendo tranquilo aonde for. Paciente, confiante, intuitivo.'

Yeah, Baby, Yeah!

Do Outro Lado da Tarde

Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança - e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.

Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse - e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado - a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram essas duas coisas - a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento.

De repente, eu não consegui ir adiante. E precisava: sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Mas de repente não havia depois: eu estava parado à beira da janela enquanto lembranças obscuras começavam a se desenrolar. Era dessas lembranças que eu queria te dizer. Tentei organizá-las, imaginando que construindo uma organização conseguisse, de certa forma, amenizar o que acontecia, e que eu não sabia se terminaria amargamente - tentei organizá-las para evitar o amargo, digamos assim. Então tentei dar uma ordem cronológica aos fatos: primeiro, quando e como nos conhecemos - logo a seguir, a maneira como esse conhecimento se desenrolou até chegar no ponto em que eu queria, e que era o fim, embora até hoje eu me pergunte se foi realmente um fim. Mas não consegui. Não era possível organizar aqueles fatos, assim como não era possível evitar por mais tempo uma onda que crescia, barrando todos os outros gestos e todos os outros pensamentos.

Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada - sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo.

E era sempre de tarde quando nos encontrávamos. Até aquela vez que fomos ao parque de diversões, e também disso eu lembro difusamente. O pensamento só começa a tornar-se claro quando subimos na roda-gigante: desde a infância que não andávamos de roda-gigante. Tanto tempo, suponho, que chegamos a comprar pipocas ou coisas assim. Éramos só nós depois na roda gigante. Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você. Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada - pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço. Coisas assim.

Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram - e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas.Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava - ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insignificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas - ou pelo menos as que tínhamos no momento.

Depois de não sei quanto tempo, as luzes se acenderam, a roda-gigante concluiu a volta e um homem abriu um portãozinho de ferro para que saíssemos. Lembro tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado.Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora.

Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante - seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa - depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

Mais do que doce...
...é saber que tudo se move a nossa volta, tudo se transforma e, até mesmo quando nos recusamos a acompanhar a dança da vida, sem percebermos, ela nos tira pra dançar, nos envolve com um ritmo novo. Quando isso acontece? Quando nos abrimos para a magia de viver e respirar as entrelinhas, os silêncios.

Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique.
Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.

Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez'.

Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.

Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.

Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia – qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!

 [...] sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus...como você me doía! De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme...só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!

Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias.

Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.

...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.

Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.
https://pensador.uol.com.br/textos_de_caio_fernando_abreu

10 CITAÇÕES DE CAIO FERNANDO ABREU QUE TODO MUNDO DEVERIA LER

 “Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho. Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias.”

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’.”

“Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.”

“A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.”

“Que seja doce o dia quando eu abrir as janelas e lembrar de você. Que sejam doces os finais de tardes, inclusive os de segunda-feira – quando começa a contagem regressiva para o final de semana chegar. Que seja doce a espera pelas mensagens, ligações e recadinhos bonitinhos. Que seja (mais do que) doce a voz ao falar no telefone. Que seja doce o seu cheiro. Que seja doce o seu jeito, seus olhares, seu receio. Que seja doce o seu modo de andar, de sentir, de demonstrar afeto. Que sejam doces suas expressões faciais, até o levantar de sobrancelha. Que seja doce a leveza que eu sentirei ao seu lado. Que seja doce a ausência do meu medo. Que seja doce o seu abraço. Que seja doce o modo como você irá segurar na minha mão. Que seja doce. Que sejamos doces…”

“Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos, todos os carinhos, todas as atenções. Quero colo, quero beijo, quero cafuné, abraço apertado, mensagem na madrugada, quero flores, quero doces, quero música, vento, cheiros, quero parar de me doar e começar a receber. Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências. Eu vou gostando, eu vou cuidando, eu vou desculpando, eu vou superando, eu vou compreendendo, eu vou relevando, eu vou… e continuo indo, assim, desse jeito, sem virar páginas, sem colocar pontos. E vou dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros tem para me dar.”

“E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro – mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua viva, há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo. Mas não se tem, nem se terá.”

“Que eu saiba puxar lá do fundo do baú um jeito de sorrir pros nãos da vida. Que as perdas sejam medidas em milímetros e que todo ganho não possa ser medido por fita métrica, nem contado em reais. Que as relações criadas sejam honestamente mantidas e seladas com abraços longos. Que eu possa também abrir espaço pra cultivar a todo instante as sementes do bem e da felicidade de quem não importa quem seja, ou do mal que tenha feito pra mim. Que a vida me ensine a amar cada vez mais de um jeito mais leve. Que o respeito comigo mesmo seja sempre obedecido com a paz de quem está se encontrando e se conhecendo com um coração maior. Um encontro com a paz e o desejo de viver.”

“Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto.”

“Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim”.



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3.DALTON
TREVISAN

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Dalton Jérson Trevisan (Curitiba14 de junho de 1925) é um escritor brasileiro, famoso por seus livros de contos, especialmente O Vampiro de Curitiba (1965), e por sua natureza reservada.
Biografia
Trevisan trabalhou durante sua juventude na fábrica de vidros de sua família (hoje falida) e chegou a exercer a advocacia durante 7 anos, depois de se formar pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR). Quando era estudante de Direito, Trevisan costumava lançar seus contos em modestos folhetos. Liderou o grupo literário que publicou, entre 1946 e 1948, a revista Joaquim. O nome, segundo ele, era "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil". A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas. Reunia ensaios assinados por Antonio CândidoMário de Andrade e Otto Maria Carpeaux e poemas até então inéditos, como "O Caso do Vestido", de Carlos Drummond de Andrade. A revista também trazia traduções de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e era ilustrada por artistas como PotyDi Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. A publicação, que circulou até dezembro de 1948, continha o material de seus primeiros livros de ficção, incluindo Sonata ao Luar (1945) e Sete Anos de Pastor(1948) - duas obras renegadas pelo autor. Em 1954 publicou o Guia Histórico de CuritibaCrônicas da Província de CuritibaO Dia de Marcos e Os Domingos ou Ao Armazém do Lucas, edições populares à maneira dos folhetos de feira.
Inspirado nos habitantes da cidade, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular, que valoriza os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante. Publicou também Novelas Nada Exemplares (1959) e ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Como era de se esperar, enviou um representante para recebê-lo. Morte na Praça (1964), Cemitério de Elefantes (1964) e O Vampiro de Curitiba(1965). Isolado dos meios intelectuais e concorrendo sob pseudônimo, Trevisan conquistou o primeiro lugar do I Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná, em 1968. Escreveu depois A Guerra Conjugal (1969), posteriormente transformada em um premiado filme, dirigido por Joaquim Pedro de AndradeCrimes da Paixão (1978) e Lincha Tarado (1980). Em 1994 publicou Ah, é?, obra-prima do estilo minimalista. Seu único romance publicado é A Polaquinha.
É reconhecido como um importante contista da literatura brasileira por grande parte dos críticos do país. Entretanto, é avesso a entrevistas e exposições em órgãos de comunicação social, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome. Por esse motivo recebeu a alcunha de "Vampiro de Curitiba", nome de um de seus livros. Assina apenas "D. Trevis" e não recebe a visita de estranhos.
Prêmios
Foi eleito por unanimidade vencedor do Prémio Camões de 2012, ano em que também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.
Obras publicadas
·         Novelas nada Exemplares (1959)
·         Cemitério de Elefantes (1964)
·         Morte na Praça (1964)
·         O Vampiro de Curitiba (1965)
·         Desastres do Amor (1968)
·         Mistérios de Curitiba (1968)
·         A Guerra Conjugal (1969)
·         O Rei da Terra (1972)
·         O Pássaro de Cinco Asas (1974)
·         A Faca No Coração (1975)
·         Abismo de Rosas (1976)
·         A Trombeta do Anjo Vingador (1977)
·         Crimes de Paixão (1978)
·         Primeiro Livro de Contos (1979)
·         Vinte Contos Menores (1979)
·         Virgem Louca, Loucos Beijos (1979)
·         Lincha Tarado (1980)
·         Chorinho Brejeiro (1981)
·         Essas Malditas Mulheres (1982)
·         Meu Querido Assassino (1983)
·         Contos Eróticos (livro) (1984)
·         A Polaquinha (1985)
·         Noites de Amor em Granada
·         Pão e Sangue (1988)
·         Em Busca de Curitiba Perdida (1992)
·         Dinorá - Novos Mistérios (1994)
·         Ah, É? (1994)
·         234 (1997)
·         Quem tem medo de vampiro? (1998)
·         111 Ais (2000)
·         Pico na veia (2002)
·         99 Corruíras Nanicas (2002)
·         O Grande Deflorador (2002)
·         Capitu Sou Eu (2003)
·         Arara Bêbada (2004)
·         Gente Em Conflito (com Antônio de Alcântara Machado)        (2004)
·         Macho não ganha flor (2006)
·         O Maníaco do Olho Verde (2008)
·         Uma Vela Para Dario (talvez 2008)
·         Violetas e Pavões (2009)
·         Desgracida (2010)
·         O Anão e a Ninfeta (2011)
·         O beijo na nuca (2014)
Renegados pelo autor
Primeiros livros publicados, que o autor renega. Editores desconhecidos.
·         Sonata ao Luar (1945)
·         Sete Anos de Pastor (1946)
No exterior
·         Novelas Nada Ejemplares - tradução de Juan Garcia Gayo, Monte Avila - Caracas (1970)
·         De Koning der Aarde (O Rei da Terra) - tradução de August Willemsen - Amsterdam (1975)
·         The Vampire of Curitiba and Others Stories - tradução de Gregory Rabassa, Alfred A. Knopf - Nova York (1972)
·         El Vampiro de Curitiba - tradução de Haydée M. J. Barroso, Ed. Sudamericana - Buenos Aires (1976)
·         De Vijfvleugelige Vogel (O Pássaro de Cinco Asas) - trad. August Willemsen - Amsterdam (1977)
Antologias
Contos em antologias alemãs (1967 e 1968), argentinas (1972 e 1978), americanas (1976 e 1977), polonesas (1976 e 1977), sueca (1963), venezuelana (1969), dinamarquesa (1972) e portuguesa (1972).
Filme
A Guerra Conjugal (1975), histórias e diálogos do autor, roteiro e direção de Joaquim Pedro de Andrade.


- Características :
- Contos curtos, textos secos, frases breves, linguagem simples e sugestiva;
- Temática: profundo pessimismo, enorme descrença na sociedade e nos seres humanos;
- Aborda situações extremamente realistas, explora o desespero existencial, as obsessões e misé-rias morais, as tensões, o sadismo, o macabro, o erótico, a pornografia, o grotesco.
- É considerado o melhor contista brasileiro da atualidade

10 LIVROS DE DALTON TREVISAN PARA TER NA ESTANTE

1 - 234: Mosaico composto por narrativas que vão do haicai ao miniconto, investe de forma explícita no ato da leitura. Saboroso elogio da leveza, ele responde à necessidade moderna, proposta por Italo Calvino, de concentração de poesia e de pensamento

2 - Cemitério de Elefantes: A fuga instintiva da solidão por meio de rituais impostos pela sociedade e assumidos pelos homens de forma inconsciente, é o ponto de convergência destes trinta contos reunidos pelo autor curitibano em seu segundo livro...

3 - Essas Malditas Mulheres: O diuturno combate a que se lançam mulheres e homens é tratado minuciosamente por Dalton Trevisan, escrevendo de vários ângulos esta antiga saga de amor e ódio...

4 - Duzentos Ladrões: Reúne 59 pequenos contos de Dalton Trevisan, reconhecido como um dos maiores contistas vivos da literatura brasileira pela maioria dos críticos do país. Trevisan é criador de um estilo inconfundível que alia linguagem popular e erudita, valorizando os incidentes do cotidiano e o banal da vida de classe média...

5 -Abismo de Rosas: A sedutora fragrância das rosas arrastam homens e mulheres para o labirintos das experiências furtivas. Cinemas, consultórios médicos e outros lugares inesperados são o habitat desses seres lançados nos abismos da sedução...

6 - Contos Eróticos: Reunidas da obra erótica de Dalton Trevisan, 16 histórias que se servem da descrição detalhista da aventura sexual como pretexto para o derramar-se da mais fina literatura...

7 - 111 Ais: São 111 dos célebres minicontos de Dalton Trevisan, cuja grande característica é um olhar sem ilusões, trágico e tragicômico sobre o gênero humano. Um livro cuja densidade é inversamente proporcional a economia de palavras...

8 - O Maníaco do Olho Verde: O tal maníaco era um homem normal, a não ser por uma estranha fixação: sexo. Doença ou tara, o fato é que bastava ser mulher para atrair seus cobiçosos olhos verdes. A fim de satisfazer seus desejos, ele sai pelas ruas à procura de sua presa perfeita. Em 26 contos, com uma linguagem mordaz e diálogos insólitos, O maníaco do olho verde reúne o melhor do estilo enigmático de Trevisan...

9 - O Vampiro de Curitiba: Vampiro em pele de cafajeste, Nelsinho, o tarado, persegue virgens, velhas professoras, prostitutas em fim de carreira, enquanto se forma aos olhos do leitor a imagem de uma Curitiba degradada....

10 - Rita, Ritinha, Ritona: As fatalidades das relações humanas são o tema deste volume de contos inéditos...


UM PEDAÇO BRUTO DE VIDA: A NARRATIVA DE DALTON TREVISAN
Berta Waldman

RESUMO Professora analisa aspectos como a repetição e o uso dos clichês na obra do curitibano até os anos 2000. Esta é uma versão abreviada de um dos 17 textos inéditos que estarão em "Do Vampiro ao Cafajeste e Outros Ensaios sobre a Obra de Dalton Trevisan" (org. Hélio Guimarães), a sair pela Editora da Unicamp neste semestre.
*
Arredio a todo contato direto com o público, recusando-se a participar de eventos, a dar entrevistas, a expor-se heroicamente como uma personalidade singular, o curitibano Dalton Trevisan forja insistentemente os limites que separam sua vida de sua obra.
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Esse isolamento deliberado do escritor, entretanto, funciona como um bumerangue. Se, por um lado, seu desejo expresso é o de ser deixado à margem, como que anunciando que o que de fato importa são seus livros, por outro, os leitores não suportam o vazio da imagem pública do autor e acabam por preenchê-lo com uma representação que eles forjam.
Desde que começou a escrever, nas décadas de 1940-1950, Trevisan demonstrou possuir os atributos que fazem um grande escritor: originalidade, capacidade de resumir sua época, de opor-se a ela.
Apesar de alguns escritores paranaenses participarem do séquito modernista na década de 1920, é só a partir dos anos 1940 que surge um movimento propriamente de renovação das artes no Paraná. Nem poderia ter sido diferente. Curitiba, nos anos 1920, era uma pacata capital de província, demasiado tranquila. Como refletir os dramas e neuroses de uma civilização tecnológica em meio a tanta paz? De onde extrair o tipo de inquietação que iria mover, por exemplo, os futuristas de Milão ou o Armory Show de Nova York?
Só duas décadas mais tarde é que as cidades paranaenses entraram num esquema de vida mais agressivo, o que talvez tenha viabilizado o surgimento de alguns artistas da nova geração de 40 (à qual pertence Dalton Trevisan) com novas propostas estéticas.
Se certa contextualização ou o estabelecimento de algumas relações extratexto são necessários para saber de que modo um escritor fala com sua época, eles não são, contudo, suficientes para determinar o modo particular de sua fala. Essa especificidade só pode ser alcançada pela análise dos textos.
Trevisan é um contista que reúne, hoje, vasta obra. Acompanhando sua produção literária e observando-a em seu conjunto, percebe-se nela o itinerário de uma busca obsessiva e incessante que se manifesta na repetição de situações, de personagens, de um mesmo mote que se contorce em voltas infindáveis. Como uma história se repete na outra, forja-se um discurso reiterado que esconde, contudo, uma operação dupla: progressivo-regressiva, regressivo-progressiva, movimento estático, já que reiterar, recorrer, retomar, supõem que se está a caminho e que se insiste em seguir. Mas caminho que aponta para o retorno.
Essas repetições compõem um estranho ritual que não encontra correspondência em nenhum movimento cíclico, já que ciclo supõe mudança, deslocamento e retorno.
O que perfaz sua narrativa é justamente a ausência de mudanças, e o movimento que ela traça é o da repetição do sempre igual. Nesse sentido pode-se dizer que as personagens e sua história não encontram correspondência nos ciclos da natureza, apontando seu homólogo no contexto social. De uma neutralidade semelhante à da época em que se inserem e que as cria, elas e suas histórias repetidas nos explicam e comunicam o cotidiano que é delas e que é nosso.
VAMPIRO
A metáfora que traduz esse universo seriado e repetido vem de um núcleo arquetípico, em que imperam imagens demoníacas. Entre os demônios, o autor privilegia o vampiro como figura capaz de significar a realidade que deseja traçar. Por que o vampiro?
Na sua prática, o vampiro situa-se no rol das criaturas cuja ação o nosso desejo rejeita. Se, de nosso ponto de vista, ele caminha em pleno domínio do negativo, na atuação vampiresca essa negatividade se revela como prazer.
Em Freud, Eros e Tânatos são categorias divergentes porque Tânatos revela o sentido de Eros como aquilo que resiste à morte, situando, portanto, as pulsões sexuais como pulsões de vida, atuantes contra o desígnio das pulsões que conduzem à morte. Essas duas pulsões são configuradas como convergentes na prática vampiresca, já que no ato da conjugação sexual se instila a morte.
Não são necessários dois vampiros para que surja um terceiro. A vítima do vampiro torna-se vampiro. A multiplicação, portanto, dá origem a um outro que, paradoxalmente, é o mesmo. Destituído das funções vitais, pode-se dizer que o vampiro é um ser morto. Mas, como se multiplica, liga-se à vida e ergue-se no universo lendário em que existe como figura erótica.
O vampiro porta, também, uma face trágica. Sem repouso nem satisfação, é impulsionado a prosseguir perpetuamente por um caminho que não escolheu. Nem verdadeiramente morto nem vivo, dirige seu desejo a objeto igualmente ambíguo: querer viver, querer morrer. Para sobreviver, tem de beber o sangue dos vivos, mas não cabe a ele a opção de não sobreviver.
Situado no limiar, e com acesso aos dois mundos, projeta-se como figura terrível mas fascinante. Terrível, pelo pavor de que uma vida corpórea depois da morte signifique danação. Fascinante, porque a ideia de aniquilação total é pavorosa para o homem. A angústia de morrer e o fascínio da morte, a esperança de sobreviver e o medo da sobrevivência diabólica, essa dupla tendência parece ser a chave do fenômeno vampírico. Como se vê, o vampiro comporta o movimento e a fixidez. É por isso que, enquanto metáfora, tem a força de traduzir a obra de Trevisan.
Nela, o vampiro despe sua longa capa negra, abre mão de seus modos sofisticados e dos refinamentos da grande crueldade, pendura as asas e, vestindo roupa comum, anda de ônibus pelas ruas de Curitiba. O aristocrata torna-se, num passe de rebaixamento, todos nós.
FAMÍLIA
A família é o lugar privilegiado pelo escritor para enfocar a vida como vampirização. É em seu âmbito que se explicita a impossibilidade de convívio com a diferença, na prática da guerra conjugal, em que a existência se confina a um cerco do qual o outro é expulso e onde só cabe o eu.
No limiar da angústia, da crueldade, da agressividade, da lubricidade, as personagens reduzem-se a peças silenciosas de um espetáculo sempre igual, indiferenciado e terrível: o do cotidiano. Visto como o domínio da tautologia, da repetição, universo plano gerador de formas embalsamadas, de um modelo que se produz perpetuamente, o domínio do cotidiano se identifica com o do vampiro.
A linguagem que conta esse universo achatado pela multiplicação do mesmo é feita de grandes elipses, de pausas, de cortes abruptos, frases reduzidas. Pode-se observar nessas marcas um caminho que aponta para a redução da linguagem, que passa a incorporar o não dito, o implícito, uma área de silêncio emperrando o curso da linguagem. Das entranhas do discurso, surge o silêncio como um outro rumo ao qual o primeiro caminha, e é a essa forma peculiar de trabalho da linguagem que chamo de discurso-vampiro, expressão sem dúvida paradoxal, na medida em que o conto, enquanto linguagem articulada, nunca silencia.
Um dos principais responsáveis pelo entranhamento do vazio na narrativa de Trevisan é o clichê, entendido como a fala citada, o molde, que não remete a um ato individual de percepção diante de um elemento único da experiência. O clichê promove a diluição desses caracteres irredutíveis, anulando a observação original de um objeto específico, reorganizando-o sob a forma de estereótipo.
Em outras palavras, o clichê fixa a linguagem e se institui, por força da cristalização, como uma espécie de antilinguagem que não comporta as possibilidades de atribuição de sentido à experiência particular. Nesse sentido, o uso do clichê predica a ausência de sujeito e resulta, nos contos do escritor, na construção de um tom ambíguo quanto ao emissor das narrativas, tornando difícil ao leitor distinguir quem fala, já que a fala tanto pode ser atribuída ao narrador como a uma personagem ou outra.
"READY-MADE"
Entre as linguagens prontas, a predileção de Trevisan recai sobre a fotonovela, para expressar o universo feminino, e sobre a imprensa marrom, o relatório policial, para expressar a violência. Algo como um "ready-made", esses textos são sempre caracterizados por uma estrutura monolítica, construídos a partir de operações prefixadas, em que a voz do narrador não identifica um sujeito, mas sua abstração.
No caso da imprensa marrom, a voz do narrador é representada como a salvaguarda do equilíbrio social. Por isso, estão sempre à cata de culpados, de "monstros", estupradores, homicidas etc. A procura do culpado e seu banimento do espaço da "normalidade" perfazem o ritual que visa à catarse coletiva. Quem compra os jornais sabe que existem "monstros" soltos, já que padecem no cotidiano a violência disseminada e indiscriminada. Com o simples gesto de comprar o jornal, refaz o leitor cotidianamente seu próprio equilíbrio e reconstrói sua redenção diária.
Ao deslocar esse tipo de linguagem para a literatura,o autor não só subtrai a carga de "verdade" que ela apresenta como desmorona a hipérbole sobre a qual se constrói a monstruosidade, apontando, ao lado da violência, para os gestos cotidianos das personagens (preocupam-se com os filhos, fumam, cospem no chão etc.).
Com isso, ele cotidianiza o terrível, diluindo, no leitor, a imagem e a certeza de que os "monstros" são os outros, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a monstruosidade da vida cotidiana. Sirva como exemplo desse tipo de linguagem o conto "Debaixo da Ponte Preta" (em "O Vampiro de Curitiba", 1978), do qual segue uma pequena mostra:
"Noite de vinte e três de junho, Ritinha da Luz, dezesseis anos, solteira, prenda doméstica, ao sair do emprego, dirigiu-se à casa de sua irmã Julieta, atrás da Ponte Preta. Na linha do trem foi atacada por quatro ou cinco indivíduos, aos quais se reuniram mais dois. Então violada por um de cada vez e abandonada entre as moitas. Seu choro atraiu um guarda-civil, que a conduziu até a delegacia."
COR-DE-ROSA
No que se refere ao uso da fotonovela, a escolha recai sobre esse reduto que embalsama a situação idílica do romance cor-de-rosa porque é aí que o autor localiza uma das matrizes que ditam o comportamento da mulher. A imagem da mulher inerente à fotonovela cinde-se em casta e vampe, pura e carnal, procurando sempre velar a degradação do corpo, também ele reduzido hoje a um objeto de consumo como os demais produzidos pela indústria.
Desse modo, a heroína, às voltas com o mundo degradado, sai ilesa de qualquer contaminação, façanha conseguida graças ao abismo intransponível existente entre ela e o mundo que não chega a tocá-la.
Ora, ao incluir essa linguagem em sua narrativa, Dalton Trevisan faz contracenar o amor romântico com o dinheiro, trazendo para a literatura um mecanismo social: a "comédia ideológica" (a expressão é de Roberto Schwarz, em "Ao Vencedor as Batatas") forjada pelo desconcerto de uma sociedade que tem suas bases no dinheiro, mas alimenta sua imaginação no rádio, foto e telenovela, que normalmente o repudiam, forçando na contramão a imagem ilusória do puro amor e da felicidade idílica.
Contracenando com esse registro que vem direto do manual de cartas de amor vendido em bancas de jornal, outro registro feito de arroubos de "subjetividade", indicativos de um desejo claro de que o casamento ou a união matrimonial solucionem o problema de sobrevivência econômica da mulher. Ambos, postos lado a lado, alcançam um efeito de fino humor.
Sem dúvida, o uso do clichê provoca uma boa dose de abstração e desindividualização da matéria narrada. Na boca da personagem, tem o poder imediato de transformá-la em réplica, em portador abstrato. Não é mais o eu que se conta ou conta o mundo pela linguagem. É ela que toma rumo próprio, alheio às intenções da subjetividade. A realidade está presa a uma forma prefixada, como um inseto numa teia de aranha.
Espécie de olho da câmera, essa linguagem cristalizada alcança descrever o desumano de modo desumano. Põem-se de lado os filtros sentimentais, qualquer intuito de humanização, e o resultado é o efeito grotesco adicionado de humor entre satírico e negro.
O realismo de Dalton Trevisan insere-se, historicamente, na linhagem desconfiada do realismo de um Flaubert ou de um Machado de Assis. Entretanto, tachá-lo de realista pura e simplesmente é incorrer num equívoco semelhante ao que considerava o hiper-realismo como um retorno à representação depois das abstrações antifigurativas do expressionismo abstrato. As pinturas hiper-realistas não eram exatamente realistas porque representavam não o mundo exterior, mas uma fotografia dele. Numa atitude de quebra do ilusionismo da representação, Trevisan traz para a literatura linguagens já prontas que dão a seu estilo e à narrativa tom realista. Mas trata-se de uma representação da representação. Imagem da imagem.
A confusão entre a linguagem dos meios de comunicação e a de Trevisan é possível porque, num certo ponto da trajetória, houve um roubo, a apropriação de uma forma esvaziada por força de repetida, que vai ganhando em sua obra novos planos de significação.
Reciclada, parte de outro tecido verbal, a linguagem pronta, o clichê, vai precipitando a criação de um espaço oco no interior da linguagem. É esse vazio um dos fortes responsáveis pela fragmentação do conto de Dalton Trevisan. A outra parte da responsabilidade recai sobre a suspensão de regras tácitas da convenção literária que o autor vai imprimindo às suas narrativas.
Um exemplo de suspensão pode ser visto na permutabilidade de falas e vozes que tanto podem manar de uma boca como de outra, o que recoloca sempre a questão: quem é o sujeito da enunciação?
O tema da diluição da diferença certamente é a chave que explica a necessidade de tornar pouco nítido o ponto de enunciação e também -esse é outro lado do mesmo exemplo- a necessidade de suprimir mediações na construção da narrativa de modo a se chegar ao plano único de bidimensionalidade que expõe o objeto ao mesmo tempo que se expõe como seu suporte. Se a perspectiva é a expressão de uma relação entre dois polos, sendo um o narrador, e o outro, o mundo narrado, a ruptura se dá quando um dos polos é eliminado e com isso se diluem os planos. O residual são os contos aforismos, como este, de "Abismo de Rosas" (1976):
 "- Está quentinho o café? Entende que ela chama o outro de benzinho."
Será necessário dissimular o diálogo, quando ele insiste em se mostrar monólogo? Quando a fala do outro se constrói -caso da micronarrativa acima- como projeção dos fantasmas de um interlocutor dotado de ouvidos moucos?
A significação da pergunta desse interlocutor anônimo reside menos no que ele diz do que no beco sem saída em que desemboca. A pergunta -que pode ser vista como portadora de uma função fática, proferida provavelmente em situação coloquial- não tem a força, o impulso capaz de construir um curso, porque falha como liame, ponte que carece de suporte. Daí a interferência do relato indireto que, ao comunicar o mal-entendido, comunica também o final de um jogo: a representação acabou.
Como ficou dito em outra parte, a ruptura, o estilhaçamento é o traço distintivo da arte minimalista de Dalton Trevisan. Ela ocorre nas narrativas, nas micronarrativas e também no romance -na verdade um conto espichado, "A Polaquinha" (1985), publicado contra todas as expectativas. É a ruptura que o autor constata, enfatiza, retoma com frieza e certa dose de humor. Nenhum eco metafísico, nenhuma ressonância psicológica, só mesmo a superfície dilacerada. Um pedaço bruto de vida.

(BERTA WALDMAN, professora aposentada de literatura da USP e da Unicamp, é autora de "Entre Passos e Rastros" (Perspectiva). 
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