SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O CONTO CONTEMPORÂNEO: MOACYR SCLIAR

2.MOACYR
SCLIAR
Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre23 de março de 1937 — Porto Alegre, 27 de fevereiro de 2011) foi um escritor brasileiro. Formado em medicina, trabalhou como médico especialista em saúde pública e professor universitário. Sua prolífica obra consiste de contosromancesensaios e literatura infantojuvenil. Também ficou conhecido por suas crônicas nos principais jornais do país.

Biografia
Filho de José e Sara Scliar, Moacyr nasceu no Bom Fim, bairro que concentra a comunidade judaica.
Em 1963, após se formar pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, iniciou sua vida como médico, fazendo residência médica. Especializou-se no campo da saúde pública como médico sanitarista. Iniciou os trabalhos nessa área em 1969. Em 1970 frequentou curso de pós-graduação em medicina em Israel. Posteriormente, tornou-se doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Foi professor da disciplina de medicina e comunidade do curso de medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).
Em 1965, casou-se com Judith Vivien Oliven. O filho do casal, Roberto, nasceu em 1979.
Moacyr Scliar era torcedor do Cruzeiro, de Porto Alegre. Devido a sua morte, os jogadores do Cruzeiro fizeram uma homenagem para este torcedor-símbolo do clube, entrando de luto na partida contra o Grêmio, no dia 27 de fevereiro, que contou com um minuto de silêncio em homenagem a Scliar.

Carreira
Scliar publicou mais de setenta livros. Seu estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande quantidade de prêmios literários como o Jabuti (1988, 1993 e 2009), o Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de las Américas (1989).
Suas obras frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina (área de sua formação), a vida de classe média e vários outros assuntos. O autor já teve obras suas traduzidas para doze idiomas.
Em 2002 se envolveu em uma polêmica com o escritor canadense Yann Martel, cujo famoso romance A Vida de Pi, vencedor do prêmio Man Booker, foi acusado de ser um plágio da sua novela Max e os felinos. O escritor gaúcho, no entanto, diz que a mídia extrapolou ao tratar do caso, e que ele nunca teve o intuito de processar o escritor canadense.
Entre suas obras mais importantes estão os seus contos e os romances O ciclo das águasA estranha nação de Rafael MendesO exército de um homem só e O centauro no jardim, este último incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center nos Estados Unidos.

Adaptação para o cinema
Em 1998 o romance "Um Sonho no Caroço do Abacate" foi adaptado para o cinema, com o título "Caminho dos Sonhos", sob a direção de Lucas Amberg. O filme participou dos festivais de GramadoMiamiTrieste e outros. O filme narra a história do filho de um casal de imigrantes judeus lituanos que se estabelece no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, nos anos 1960. O jovem Mardo (Edward Boggiss) apaixona-se por Ana (Taís Araújo), uma estudante negra. Os jovens encontram no amor a força e a determinação para enfrentarem a discriminação na escola onde estudam e o preconceito entre as famílias.
Em 2002 o romance Sonhos Tropicais foi adaptado para o cinema sob a direção de André Sturm, com Carolina KastingBruno GiordanoFlávio GalvãoIngra Liberato e Cecil Thiré no elenco. O filme relata o combate à febre amarela no Rio de Janeiro, comandado pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, e a resistência da população à vacinaçãoobrigatória, que resultou na chamada Revolta da Vacina. Em paralelo, é narrada a história de uma jovem judia polonesa, que imigra para o Brasil em busca de uma vida melhor, mas acaba por se prostituir.

Morte
Scliar morreu por volta da 1h do dia 27 de fevereiro de 2011, aos 73 anos, de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre desde o dia 11 de janeiro, quando deu entrada para a retirada de pólipos (formações benignas) no intestino. A cirurgia foi bem sucedida, mas o escritor acabou tendo um acidente vascular cerebral (AVC) no dia 17 de janeiro, durante o período de recuperação, falecendo quase cinquenta dias depois de sua entrada no hospital. Foi sepultado em 28 de fevereiro de 2011, no Cemitério do Centro Israelita em Porto Alegre.
 Academia Brasileira de Letras
Foi o sétimo ocupante da cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito em 31 de julho de 2003, na sucessão de Geraldo França de Lima, e recebido em 22 de outubro de 2003 pelo acadêmico Carlos Nejar.

Obras

Contos
·         O carnaval dos animais.
·         A balada do falso Messias.
·         Histórias da terra trêmula.
·         O anão no televisor.
·         Os melhores contos de Moacyr Scliar.
·         Dez contos escolhidos.
·         O olho enigmático.
·         Contos reunidos.
·         O amante da Madonna.
·         Os contistas.
·         Histórias para (quase) todos os gostos.
·         Pai e filho, filho e pai.

Romances
·         A guerra no Bom Fim.
·         O exército de um homem só.
·         Os deuses de Raquel. O ciclo das águas.
·         Mês de cães danados.
·         Doutor Miragem.
·         Os voluntários.
·         O Centauro no Jardim.
·         Max e os felinos.
·         A estranha nação de Rafael Mendes.
·         Cenas da vida minúscula.
·          Sonhos tropicais.
·         A majestade do Xingu.
·          A mulher que escreveu a Bíblia.
·         Os leopardos de KafkA.
·         Uma história farroupilha.
·         Na noite do ventre, o diamante.
·         Ciumento de carteirinha 
·         Os vendilhões do templo 
·         Manual da paixão solitária.
·         Eu vos abraço, milhões.

Ficção infanto-juvenil
·         Cavalos e obeliscos.
·         A festa no castelo.
·         Memórias de um aprendiz de escritor.
·         No caminho dos sonhos.
·         O tio que flutuava.
·         Os cavalos da República.
·          Pra você eu conto.
·         Uma história só pra mim.
·         Um sonho no caroço do abacate.
·         O Rio Grande farroupilha.
·         Câmera na mão, o guarani no coração.
·          A colina dos suspiros.
·         O livro da medicina.
·         O Mistério da Casa Verde.
·         O ataque do comando
·         O sertão vai virar mar.
·          Aquele estranho colega, o meu pai.
·         Éden-Brasil.
·         O irmão que veio de longe
·         Nem uma coisa, nem outra.
·         Aprendendo a amar - e a curar.
·         Navio das cores Livro de Todos - O Mistério do Texto Roubado.
·        
     Crônicas
·         A massagista japonesa.  
·         Um país chamado infância.
·         Dicionário do viajante insólito.
·         Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.
·         O imaginário cotidiano
·         A língua de três pontas: crônicas e citações sobre a arte de falar mal.

Ensaios
·         A condição judaica.
·         Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública.
·         Cenas médicas.
·          Enígmas da culpa
·          
·         Prêmios
·         Prêmio Jabuti de Literatura, 1988, categoria Contos, Crônicas e Novelas
·         Prêmio APCA, 1989, categoria Literatura
·         Prêmio Casa de las Américas, 1989, categoria Conto - O olho enigmático
·         Prêmio Jabuti de Literatura, 1993, categoria Romance - Sonhos tropicais
·         Prêmio Jabuti de Literatura, 2000, categoria Romance - A mulher que escreveu a Bíblia
Prêmio Jabuti de Literatura, 2009, categoria Romance - Manual da paixão solitária


- Características:
- Realista mágico, criador de atmosferas, domador do fantástico;
- Conto ultracurto, simples, claro, sem esclarecer o mistério;
- Histórias geralmente ligadas ao universo judeu,  principalmente situados em Porto Alegre (bairro do BOMFIM);
-Manipulação de tramas fantásticas, com humor e ironia, critica e sátira. da condição humana , de conotação política.

ALGUMAS  OBRA  DE  MOACYR  SCLIAR
O Carnaval dos Animais 
   
   Os contos usam como ponto de partida sugestões provenientes do cotidiano e próximas das vivências do escritor e do leitor. O cenário da maioria das histórias é Porto Alegre, e as características conhecidas do espaço conferem natureza veristas às narrativas.

A Guerra no Bom Fim 
   
   O livro é narrado por Joel, que relembra os tempos de menino quando vivia com a família, judia, na Porto Alegre dos anos 1940, em pleno Bom Fim. É um relato da angústia de uma família de imigrantes judeus – a adaptação a uma realidade e a uma sociedade que não são suas.

A mulher que escreveu a Bíblia
    
    O título é bastante explicativo: a história é um relato fictício sobre uma mulher anônima que, há 3 mil anos, tornou-se autora da primeira versão da Bíblia. Narrativa maliciosa que alterna a dicção bíblica com o baixo calão. Ajudada por um ex-historiador que se converteu em "terapeuta de vidas passadas", uma mulher descobre que, no século X a. C., foi uma das setecentas esposas do rei Salomão - a mais feia de todas, mas a única capaz de ler e escrever. Encantado com essa habilidade inusitada, o soberano a encarrega de escrever a história da humanidade - e, em particular, a do povo judeu -, tarefa a que uma junta de escribas se dedica há anos sem sucesso.

O Centauro no Jardim
   
   No interior do Rio Grande do Sul, na pacata família Tratskovsky, nasce um centauro: um ser metade homem, metade cavalo. Seu nome é Guedali, quarto filho de um casal de imigrantes judeus russos. A partir desse evento fantástico, Scliar constrói um romance que se situa entre a fábula e o realismo, evidenciando a dualidade da vida em sociedade, em que é preciso harmonizar individualismo e coletividade.
Os Vendilhões do Templo
   
    A expulsão dos vendilhões do Templo de Jerusalém — relatada em poucas linhas do Evangelho de São Mateus — é o ponto de partida para uma narrativa original, que se desdobra em três épocas: 33 d.C., 1635 e os nossos tempos. As três histórias se entrelaçam e se iluminam umas às outras, desdobrando de maneira inesperada o núcleo temático do episódio bíblico, com diversas possibilidades cômicas e dramáticas e focalizando suas implicações morais. A exemplo do que fez no premiado A mulher que escreveu a Bíblia, Scliar parte da narrativa bíblica para traçar um painel muito pessoal e bem-humorado dos dilemas de nosso tempo.
Sonhos Tropicais
  Romance sobre Oswaldo Cruz, responsável pela introdução no Brasil do controle científico das epidemias e protagonista da Revolta da Vacina. Um diagnóstico preciso de uma sociedade que, travada pela miséria e pelo atraso, abre-se com relutância para a modernidade.
Max e os Felinos
  O alemão Max, um garoto sensível, cresceu sob a severidade de seu pai que sempre lhe incutiu medos e inseguranças. Envolve-se, mais tarde com Frida, esposa de um militar Nazista, o que faz que tenha que abandonar o país. Em meio a viagem de barco, é obrigado, graças a um naufrágio, a dividir o pequeno espaço de um barco com um imenso Jaguar, um felino que sempre lhe aterrorizou. O livro tornou-se conhecido após o autor, Moacyr Scliar, comentar em um jornal que o best seller “A vida de Pi” seria parcialmente um plágio de seu livro Max e os Felinos.

O Exército de Um Homem Só
    A saga de Birobidjan, o solitário pregador de um mundo melhor, seu louco humanismo, quixotesco, seus sonhos mágicos, fazem deste livro uma leitura emocionante e inesque-cível...

A Guerra no Bom Fim
     Joel é o protagonista desta novela que mistura realismo e fantasia. Ele relembra seus tempos de menino judeu, quando vivia com a família em Porto Alegre nos anos de 1940, em pleno bairro Bom Fim, o coração judaico da capital gaúcha. Revivendo seus anos de aprendizado, Joel busca na memória o garoto que, em meio às notícias da guerra na Europa e uma comunidade imigrante vinda de lá, brincava com os amigos e aventurava-se pelas calçadas do bairro, conhecendo os fatos da vida...

Cavalos e Obeliscos
     O coronel Picucha era um homem capaz de fazer coisas incríveis: pegar avião a laço, fugir da prisão num balão improvisado, enfrentar vários inimigos ao mesmo tempo... Essas façanhas inflamam a imaginação de Ernesto, neto de Picucha, que ouvia com atenção as histórias sobre o lendário coronel, combatente da Revolução de 1923 e misteriosamente desaparecido. Vivendo a monotonia de uma pacata cidadezinha gaúcha, seu maior divertimento era escrever sobre o avô e sonhar tais aventuras...

Mês de Cães Danados

   Neste romance ele foge da sua temática para abordar o episódio da “Legalidade” no mês de agosto de 1961. Toda sua narrativa é construída em torno dos últimos dias de agosto – mês tido popularmente como “o mês dos cães danados” - daquele agitado ano de 1961, imediatamente à renúncia do então presidente Jânio Quadros. Os militares tentavam impedir que João Goulart, o vice-presidente, assumisse a presidência da República.
Através de uma narrativa nervosa – que se passa durante a crise da “legalidade” – este livro cativa o leitor até as suas últimas linhas. A trajetória de um homem, de tradicional família da fronteira do Rio Grande do Sul até a sarjeta de uma rua no centro de Porto Alegre. De rico filho de fazendeiro à mendigo e morador de rua. A história conta esta vida atribulada, os anos agitados, as aventuras, os amores e o heroísmo. “Mês de cães danados” é um livro especial dentro da extensa bibliografia de Scliar e uma das raras obras de ficção dentro da literatura brasileira a abordar ficcionalmente este que foi um mais críticos e importantes momentos da nossa história recente.

Os Deuses de Raquel
    O livro do escritor gaúcho Moacyr Scliar conta a historia de Raquel, narrada por um dos personagens (o que só descobrimos no final do livro). É narrada em duas épocas, o tempo de hoje, e alguns lampejos da infância e da adolescência de Raquel, os quais ajudam a entender melhor a história.
    De família judia, os pais de Raquel, Ferenc e Maria se mudam da Hungria para o Brasil, Porto Alegre, e depois de muito tempo, o pai de Raquel não arranja o tão desejado emprego como professor de latim, pois era isso que ele sabia fazer, e sua mãe, grávida, começava a reclamar de que iriam ficar sem nenhum dinheiro. Assim, o pai de Raquel resolve abrir uma loja de ferragens no bairro Partenon. Quando Raquel nasce, ele a manda para a única escola do bairro, uma escola de freiras, sua mãe é totalmente contra, mas a menina precisava de educação, e o pai acabou convencendo sua mulher.
    No colégio de freiras, Raquel começou a se sentir dividida, entre seu Deus judeu e o Deus católico, principalmente depois de uma peça de colégio sobre pecado, e as razões que levam as pessoas para o inferno. Secretamente, ela começa a converter-se ao catolicismo, na loja de ferragens seu pai contrata um menino do sanatório que haveria fugido de casa e o chamavam de louco, mas era bom menino, tinha uma ideia fixa na cabeça que teria que construir um templo para o que tudo vê, e arranhava algumas palavras em latim, o que conquistou o pai de Raquel.
    Este Miguel e Raquel ficam muito amigos, ela a ajuda nos temas, e Raquel sempre o visita no alto do morro aos domingos, quando Miguel trabalhava no projeto do templo.
As coisas começam a mudar quando no colégio de Raquel entra outra menina judia, Raquel a observa e pensa que a nova aluna não é digna de rezar a virgem Maria, faz o sinal da cruz sem respeito, e acha até que cruza os dedos quando responde a perguntas sobre catecismo. Raquel arranja briga com a menina e pode até ser expulsa, mas algo acontece, o colégio é incendiado. Há muitas idas e vindas até chegar o tempo “atual”, Raquel se apaixona pelo marido de uma antiga amiga, e até chegam a ficar juntos, porém ele morre em um acidente de pedalinho. Ela assume a loja de ferragens junto com Miguel, já que seu pai decide se aposentar e se dedicar ao latim. No final do livro, em uma das várias discussões com Miguel, ela descobre que a vida toda se sentiu vigiada por ele, o que tudo vê, como o chamavam, mas aquele cujo nome não podia ser pronunciado, Jeová, que a levou para ver o templo finalmente concluído.
    A linguagem é fácil apesar da data da obra, interessante, pois o título do livro nos dá muitas opções de história e a obra não é muito extensa, podendo ser lida em um dia se você tiver um tempo livre, isso é prático. Entretanto, a história poderia ter mais detalhes, para explicar melhor certos acontecimentos, ainda mais com tantas passagens para a infância da menina.

A Estranha Nação de Rafael Mendes

    Não lembro a data exata de quando li o livro cujo título está em epígrafe. Lembro que foi presente de um amigo da Universidade – prof. Edmilson Paiva. Moacyr Scliar, o autor faleceu a pouco. Perdeu a literatura brasileira, uma de suas mais brilhantes estrelas. Autor de mais de setenta livros, inseria-se entre os mais destacados acadêmicos brasileiros.
   Arnaldo Niskier homenageou o confrade com um artigo. Nele fala de sua disponibilidade e desprendimento. Dentre outros aspectos, cita sua dedicação à ABL, pois morando em Porto Alegre, deslocava-se semanalmente para as reuniões no Rio de Janeiro, onde aproveitava o tempo disponível para escrever seus artigos para os jornais.
Vários de seus trabalhos de ficção trataram da condição judaica, como O exército de um homem só e O ciclo das água, dentre outros.  Alguns, normalmente não mencionados na listagem de sua obra, foram livros de divulgação da história do judaísmo como: Judaísmo: Dispersão e Unidade, A Condição Judaica, Judaísmo (da coleção Para Saber Mais, da Editora Abril) e ainda O ABC do mundo judaico (infantil). Niskier cita outra de suas contribuições nesse sentido, uma adaptação feita por Scliar, da Hagadá, livro de rezas, em que se recorda a odisséia do povo judeu, conduzido por Moisés, nos 40 anos de travessia do deserto.
    Com o trabalho que dá título a essa crônica, estendeu seu olhar também sobre a questão marrana. Marranos foram aqueles judeus que forçados à conversão ao cristianismo em Portugal e Espanha, continuavam, mesmo arriscando sua vida, a praticar sua religião ocultamente dentro do lar. A tradição ou a memória dessa origem se perpetuou no seio de muitas de nossas famílias, chegando até os dias atuais.
Scliar romantiza a saga de uma dessas famílias descendentes de marranos, focando o enredo nos Mendes, traçando sua trajetória desde a antiguidade bíblica até os tempos atuais no Rio Grande do Sul. Todos os homens da linhagem se chamam Rafael Mendes. A história se desenrola a partir de uma caixa que é entregue ao Rafael recente, e nela, roupas, fotos e anotações, haverão de levá-lo a uma viagem genealógica, semelhante a que tem sido praticada por muitos de nós.  No romance, a história dos Mendes, será contada em cadernos supostamente escritos pelo penúltimo Rafael Mendes, pai do Rafael Mendes “atual”.
    No posfácio do livro Scliar assim se expressa sobre a obra:
    A temática judaica e a visão histórica do Brasil se conjugam em “A estranha nação de Rafael Mendes”. Meu ponto de partida para esse livro foi a história de nosso país, no que se refere aos cristãos-novos, judeus convertidos à força pela inquisição. Lendo sobre o assunto, descobri que este grupo humano, pouco mencionado nos textos oficiais, exerceu muita influência na formação da nação brasileira.
    Qualquer estudioso da historia do Brasil, facilmente verificará esta realidade: o conhecimento da importância dos cristãos-novos na história do nosso país é quase nula.Completamente desconhecida dos textos didáticos. Cada um de nós, descendente, é um Rafael Mendes e teve que cavar fundo nessa mina, até encontrar o ouro profundamente escondido, guiado pelo brilho tênue que vinha do veio aurífero da memória familiar.  
    Na ficção, antes dele, conhecia apenas o livro de Octavio Mello Alvarenga – Judeu Nuquim, distinguido com o prêmio Walmap de 1967. A banca julgadora da obra era composta por Jorge Amado ,Guimarães Rosa e Antonio Olinto. Este último, na sua análise, cunhou o neologismo estória, hoje tão utilizado, para caracterizar estudos que fogem da pura investigação do real, baseado na utilização de documentos. Nesse espírito também se inclui A Estranha Nação de Rafael Mendes.
Scliar, já havia, mais de uma vez, enfatizado a importância do marrano na história do Brasil, e ao finalizar seu posfácio chega a vincular o cumprimento de sua missão como escritor, à confecção do citado livro :

Se consegui com A estranha nação de Rafael Mendes, ter proporcionado algum subsídio a esta questão, creio ter desempenhado minha missão como escritor. 



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