SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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terça-feira, 13 de março de 2012

TROVADORISMO: CANTIGAS E PROSA MEDIEVAIS

  TROVADORISMO (1189/1198 até 1418/1434)

I – INTRODUÇÃO:
       A palavra trovador vem do francês trouver, que significa achar, encontrar. Dizia-se que o poeta achava a música adequada ao poema e o cantava acompanhado de instrumentos como a cítara, a viola, a lira ou a harpa. 
       Os primeiros passos da história literária da moderna Europa foram dados, ao longo do século XII, pelos trovadores da Provença. Por Provença entende-se toda a civilização do Languedócio, região situada entre o Mediterrâneo e o Maciço Central, os Pireneus e a fronteira italiana. Nessa região surgiu uma poesia lírica que se pode considerar como fonte de todo o lirismo europeu dos séculos posteriores.
         Lirismo ou poesia lírica é a poesia que busca expressar temas ligados à interioridade do poeta. Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 (ou 1198?) e 1418 (ou 1434?).
    Mais importante que essas datas convencionais são saber que o Trovadorismo corresponde à primeira fase da história portuguesa ao período da formação de Portugal como reino independente.
Didaticamente, considera-se como marco final desta época o ano de 1418, quando Fernão Lopes é nomeado guardador da Torre do Tombo, assinalando o início do Humanismo em Portugal.
  A Cantiga da Ribeirinha ou Cantiga de Guarvaia, de Paio Soares de Taveirós, é considerada o mais antigo texto escrito em galego-português: 1189 ou 1198, portanto fins do século XII. Uns a tomam por cantiga de amor; outros por de escárnio. Foi dedicada a Dona Maria Paes Ribeiro e pertence a uma coleção de textos arcaicos, denominada Cancioneiro da Ajuda.
  Acorriam estrangeiros aos portos de Portugal, acolhia-os o Rei no intuito de aumentar a população, fazer fértil aquelas terras após os findos tempos das trevas bárbaras. Conhecido tal senhor, combatente dos mouros, ficou por Povoador. Dom Sancho I, o Povoador, segundo a subir no trono lusitano, quarto filho do monarca Afonso Henriques. Fora batizado Martinho em honra ao santo do dia de seu nascimento, mas tendo seu irmão mais velho falecido recebeu alcunha um tanto mais monárquica, chamado ficou Sancho Afonso.
    À infanta de Aragão e Catalunha, Dulce de Barcelona, teve por esposa, e com ela uma prole de onze filhos e filhas. Desses valem menção três de suas filhas, Dona Mafalda, Dona Sancha e Dona Teresa que se tornaram freiras, e por suas vidas fizeram-se beatas. O Rei não era, no entanto, tão santo, teve outros tantos filhos bastardos. Seis desses filhos ilegítimos teve com Dona Maria Pais Ribeiro, conhecida como a “Ribeirinha”.
No mundo nom me sei parelha,
mentre me for' como me vai,
ca ja moiro por vos - e ai
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia que me levantei, que vos enton nom vi fea!
(No mundo ninguém se assemelha a mim / enquanto a minha vida continuar como vai / porque morro por ti e ai / minha senhora de pele alva e faces rosadas, / quereis que eu vos descreva (retrate) / quanto eu vos vi sem manto (saia : roupa íntima) / Maldito dia! me levantei / que não vos vi feia (ou seja, viu a mais bela). 
E, mia senhor, des aquel di', ai!
me foi a mim muin mal,
e vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d'aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós ouve nem ei
valia d'ua correa.
(E, minha senhora, desde aquele dia, ai / tudo me foi muito mal / e vós, filha de don Pai / Moniz, e bem vos parece / de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupas luxuosas) / pois eu, minha senhora, como mimo (ou prova de amor) de vós nunca recebi / algo, mesmo que sem valor.)

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:
Primeira fase da história de Portugal - séculos XII a XIV: 
1095 - O rei Afonso VI, de Leão e Castela, concede o condado Portucalense a seu genro Henrique de Borgonha, que vai dar origem a Portugal.
1109-1385 - Dinastia de Borgonha. Declínio do feudalismo. O período de 1100 a 1300 já foi chamado de Revolução Industrial da Idade Média.
1139 - D. Afonso Henriques, filho e sucessor de Henrique de Borgonha, após vencer os mouros em batalha, declara a independência de Castela (tratado de Zamora). 
1143 - Reconhecimento da independência de Castela (tratado de Zamora). 
1385 - Fim da Revolução de Avis; D. João I é aclamado rei de Portugal; início da dinastia de Avis. 
      Alguns aspectos da história da Península Ibérica são importantes para entendermos certas características das manifestações literárias desse período: 
• O feudalismo, já em declínio, terá reflexos até mesmo na linguagem da poesia amorosa, como veremos adiante. As cortes dos reis e dos grandes senhores feudais são os centros de produção cultural e literária. 
• A reconquista do território, dominado pelos árabes desde o século VIII, faz prolongar, na nobreza ibérica, o espírito guerreiro e aventureiro das Cruzadas. Daí o gosto tardio em Portugal pelas novelas de cavalaria. 
• Por último, o profundo espírito religioso medieval, o teocentrismo, que refletirá tanto nas já citadas novelas de cavalaria como na poesia de temática religiosa (Cantigas de Santa Maria, de D. Afonso X) e nas hagiografias (vidas de santos) e obras de devoção. 

III – ARTISTAS MEDIEVAIS:
       Na hierarquia dos artistas medievais distinguiam-se quatro categorias:
a) o trovador: pessoa culta, fidalga, que não só escrevia a poesia, mas também era capaz de compor música e apresentar o seu trabalho, sem receber qualquer recompensa material. O mais famoso trovador foi D. Dinis, o Rei Trovador. Em 1290, ele torna obrigatório o uso da Língua Portuguesa e funda a primeira Universidade em Coimbra.
b) o segrel: trovador profissional, geralmente um fidalgo decaído, que ia de corte em corte, de castelo em castelo com o seu executante (o jogral);
c) o jogral: designação que tanto poderia pertencer ao saltimbanco como ao ator mímico, ou simplesmente ao compositor; cantava nas festas e nos torneios as poesias de trovadores e segréis em troca de pagamento, às vezes, rivalizando com estes na elaboração da letra e da música;
d) o menestrel: músico ligado à determinada corte. 

IV – A PRODUÇÃO MEDIEVAL PORTUGUESA:
       Nos castelos, principiam novas formas de convivência social criadas pouco a pouco pela mulher, que começa a ter um papel especial nessa organização, elaborando um mundo à parte, no qual os salões tornam-se um centro da vida social. Desse modo, começa a se delinear uma nova civilização que trás consigo várias manifestações artísticas tais como a música, a pintura, a arquitetura etc.
       Processa-se uma espécie de renascimento da mulher que estimula um verdadeiro culto na poesia dos trovadores da Provença
    O tema mais importante dessa poesia do sul da França é o amor sentimental, cortês, elegante, refinado, transformando a mulher numa fonte quase sagrada de sua inspiração.
A fidelidade do trovador à mulher que lhe servia de inspiração ficou conhecida como o “serviço amoroso” ou a vassalagem amorosa, como fruto de uma comparação com o homem feudal, isto é, com a relação de servidão entre o vassalo e o suserano. No entanto, é preciso deixar claro que a vida social das pessoas não era essa
  O amor cortês (praticado nas cortes e com cortesia) era uma atitude estritamente cavalheiresca, exclusiva da vida palaciana, e que rapidamente se espalhou e se afirmou em toda a Europa romana e anglo-germânica, como um modelo de atitude amorosa presente, sobretudo na imaginação poética dos trovadores.
   A descoberta do amor espiritualizado que luta desesperadamente contra todos os obstáculos que se opõem à sua realização, como um tema central da inspiração poética, é a grande mensagem dessa poesia que se tornaria universal, mantendo seu interesse até os dias de hoje.
      A produção artística vai estar impregnada, neste período, do espírito teocêntrico. As artes decorativas predominam, sempre deformando os elementos objetivos do mundo ou procurando simbolizar o universo espiritual e sobrenatural através do qual o homem interpreta sua realidade. O estilo gótico, com suas formas alongadas, ogivais e pontiagudas, parece expressar forte desejo humano de ascender a uma nova e eterna vida. 
    A literatura, geralmente escrita em latim, não ultrapassa os limites religiosos em sua temática: a vida dos santos, a liturgia dos rituais cristãos. Mas em torno dos castelos feudais desenvolve-se também uma arte leiga que, mesmo, às vezes, chegando ao profano, redimensiona a visão de mundo medieval e aponta novos caminhos. É a arte dos trovadores e suas cantigas, das novelas de cavalaria.

V – TROVADORISMO EM PORTUGAL:
    A Provença exportou para outros lugares da Europa, entre os quais as terras galego-portuguesas, a influência de sua poesia sobre aquela que já produziam, de maneira espontânea, as populações rústicas e burguesas. Assim, com a nova forma importada, a “canso provençal ou o cantar d’amor, também ganha prestígio a velha poesia tipicamente local, cujo agente criador era a mulher e cuja expressão literária eram as cantigas de amigo.
    De outro lado, pertencentes ao gênero satírico, surgiram as cantigas de escárnio e de maldizer, também bastante cultivadas durante a Idade Média.
     Neste momento a poesia está bastante ligada à música e algo comprometida com a dança. Os poemas eram feitos para ser cantados e costumavam ser acompanhados de partituras musicais. Em Portugal floresceram cantigas de tipos diversos quanto à temática: 
a) GÊNERO LÍRICO - neste gênero, a emoção é a temática predominante. São divididos em cantiga de amor e de amigo.
     * CANTIGA LÍRICA DE AMOR
1- O trovador assume o eu-lírico masculino: é o homem quem fala, expressando seus sentimentos pela dama que deseja;
2- A mulher é um ser superior, casada, pertence a uma categoria social mais elevada que a do trovador;
3- Seu amor é platônico. Expressa a coita (dor, sofrimento) amorosa do trovador, por amar uma mulher inacessível, que não lhe corresponde e a quem rende vassalagem amorosa;
4 - Expressa o amor cortês da época;
5 - O eu-lírico masculino nunca revela o nome da amada, chamado-a de "mia senhor";
6 - O poeta se dispõe a um afastamento casto de sua amada, desejando-a a distância, por uma posição tomada pela moral cristã e pela distância hierárquica que os separa;
7 - O ambiente, culto e refinado, retrata a vida na corte;
8 - As cantigas, do ponto de vista formal, possuíam uma estrutura formal sofisticada, caracterizada pela diferenciação dos versos da estrofe e pela ausência de refrão, sendo chamada de “cantiga de maestria” ou de “mestria”;
9 - É de origem provençal (de Provença, região do sul da França).
Como morreu quem nunca amar
se fez pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
                    (Paio Soares de Taveirós)

     * CANTIGA LÍRICA DE AMIGO
1- O trovador assume o eu-lírico feminino, exprime os sentimentos que supunha ter as amadas: é a donzela quem fala.
2 - A mulher, campesina, é de nível social baixo;
3- Expressa o sentimento de quem sofre por sentir saudade do amigo (namorado) que foi combater os mouros invasores. Essa cantiga procura mostrar a mulher dialogando com sua mãe, amiga ou com a natureza;
4- O ambiente é rural ou familiar obedecendo às convenções de sua forma folclórica inicial;
5- Teve origem em território galaico-português;
6 - A linguagem é menos rica e mais musical; possui estrutura paralelística caracterizada pela repetição quase integral dos versos e pelo uso do refrão;
7 - A relação amorosa é verdadeira e o amor de que se fala no poema tende a ser mais sensual ou carnal do que na cantiga de amor;
8 – O elemento da natureza invocado no poema é sempre uma metáfora do desejo amoroso do eu-lírico, um indício da origem popular dessa forma poética;
Por muito tempo, ó amado,
Sei eu que me dedicastes
Grande amor e que ficastes
Muito feliz a meu lado
Falo do tempo passado!
Já passou.
         (João Garcia de Guilhade)

b) GÊNERO SATÍRICO - Expressa a psicologia medieval, despertando muitos comentários na época. Satiriza-se a vida social e política, sem as normas rígidas do gênero lírico.
1- Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa indiretamente, por intermédio da ironia e do sarcasmo. Apresenta críticas sutis e bem-humoradas expressas por jogos de palavras de duplo sentido, de subentendidos, de trocadilhos ao redor de uma pessoa muito conhecida;
2 - Criticava pessoas, costumes e acontecimentos, sem revelar o nome da pessoa ou pessoas visadas.
Ai, dona feia, foste-vos queixar
de que nunca vos louvei em meu trovar;
e uma das trovas vos quero dedicar
em que louvada de toda a maneira
sereis; tal é o meu louvar:
dona feia, velha e sandia!
                  (João Garcia de Guilhade)

     * CANTIGA SATÍRICA DE MALDIZER
1- Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa diretamente com intenção de ofender a pessoa; a intenção de ferir a vítima é clara e escandalosa;
2- Criticava pessoas, costumes ou acontecimentos, citando o nome da pessoa ou pessoas visadas expondo-a á humilhação pública;
3 - Há o uso de palavras grosseiras e vulgares.
Roi Queimado morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por uma dona que gran bem queria;
e, por se meter por mais trobador,
por que lh' ela non quiso bem fazer,
feze-s' el em seus cantares morrer,
mais resurgiu depois, ao tercer dia.

Este fez ele por uma sa senhor
que quer gram bem; e mais vos ém diria:
por que cuida que faz i mestria,
enos cantares que fez, á sabor
de morrer i e des i d' ar viver;
esto faz el, que x' o pode fazer,
mais outr' omem per rem nono faria.

e nom á já de sa morte pavor,
se nom, sa morte mais la temeria,
mais sabe bem, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for;
e faz-s' em seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, - mais que no cuidaria!

E se mi Deus a mi desse poder
qual oj' el á, pois morrer, de viver,
ja mais morte nunca eu temeria.

Tema da cantiga de maldizer: Roi Queimado é atacado como trovador de pouca qualidade, e o amor cortês é ridicularizado.
Divisão em partes:
1ª. parte: 1ª. estrofe - roi Queimado para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua dama morreu de amor por ela;
2ª. parte: 2ª. estrofe - ele fez isso porque acha que assim mostra mais engenho do que os outros trovadores;
3ª. parte: 3ª. estrofe - ele é como que um eleito de Deus, pois morreu e ressuscitou; o trovador também se 
lhe fosse dado esse poder não temeria a morte e ressuscitaria como ele;
Forma: Cantiga de mestria com três estrofes (sétimas) e finda (terceto) que retoma a rima dos três últimos versos das estrofes (coblas) abbabbb, rima emparelhada e interpolada, toante e consoante, pobre e rica.

ATUALIDADES:
     A cantiga trovadoresca é importante por documentar a história de nossa língua, os costumes da época e por influenciar e inspirar o lirismo de poetas até hoje.
Veja, a seguir, alguns exemplos:

Queixa - Caetano Veloso
 Um amor assim delicado, você pega e despreza
Não devia ter despertado, ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo pela sua grandeza
Não sou o único culpado, disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento, oceano sem água
Ondas: desejos de vingança nessa desnatureza
Batem forte, sem esperança contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo e vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo e eu te grito essa queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Amiga, me diga

       Na canção de Caetano Velloso há um eu-lírico masculino em plena condição de vassalo que se dirige a amada com termos como "Senhora" e "Princesa" referindo-se a uma mulher que está em um grau superior, em uma posição quase inatingível. A palavra "Princesa" remete ainda à ideia de uma ambientação palaciana.
Fico Assim Sem Você - Adriana Calcanhotto (fragmento)
 Composição: Abdullah / Cacá Moraes
 Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu, assim, sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu, assim, sem você...
Porque é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim...

Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu, assim, sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem abraço
Sou eu, assim, sem você...

Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração...

Eu não existo longe de você
E a solidão, é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo...

Por quê? Por quê?

     Já nesta canção o eu-lírico encontra-se no feminino e retrata a solidão e a ausência do amado, tema muito comum das cantigas de amigo.
(valiteratura.blogspot.com/.../trovadorismo-cantigas-e-prosa-medieval..)
                                                                                                                     (CONTINUA...)

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