SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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terça-feira, 8 de maio de 2012

HUMANISMO: GIL VICENTE - AUTO DA VISITAÇÃO (1502)


    AUTO  DA  VISITAÇÃO  (MONÓLOGO  DO  VAQUEIRO)
   
      O Auto da Visitação, ou Monólogo do Vaqueiro, é uma peça de teatro portuguesa do século XVI.
   De raízes espanholas, foi a primeira obra de Gil Vicente, composta para anunciar o nascimento do princípe D. João, futuro João III de Portugal. Estreou em 1502, no Paço Real, então no Castelo de São Jorge, em Lisboa, na presença do soberano, da rainha e da Corte.
    Apresentada à família real portuguesa (rei D. Manuel, rainha D. Maria, rainha Velha Dona Lianor, infanta D. Beatriz (mãe do rei) e sua filha (a Duquesa de Bragança), numa data particularmente festiva (nascimento do príncipe João, futuro D. João III), este auto foi a primeira obra de Gil Vicente.

Personagens:
 Gil, Brás, Lucas, Silvestre, Gregório e Mateus.
    Este auto apresenta uma "visitação" (visita habitualmente feita pelo rendeiro ao seu senhor, com o objetivo de lhe oferecer presentes. Estas visitas eram feitas por alturas do Natal). 
   Ao
 entrar na sala, o Vaqueiro apresenta os seus companheiros e os respetivos presentes (leite, ovos e queijos) para o príncipe recém-nascido.
..
Resumo: O rei: D. Manuel. A rainha: D. Maria. A noite: 07 de junho de 1502.  O príncipe João, que será o rei João III de Portugal, nasceu ontem. Agora, com a corte reunida, Gil Vicente, vestido de vaqueiro, apresenta-se com o seu Auto da Visitação. Sua entrada já é teatral: levou, do lado de fora, umas porradas de uns criados,  mas conseguiu bater pelo menos num deles. Admira a câmara, dirige-se à rainha e elogia o príncipe e seus parentes. Anuncia que outros companheiros do povo trazem presentes simples e, baseado em sua experiência, eles também terão arrancados os seus cabelos.

Vaqueiro fala:


Pardiez! siete arrepelones
Me pegaron á la entrada,
Mas yo di una puñada
Á uno de los rascones.
Empero, si yo tal supiera,
No viniera,
Y si viniera, no entrára,
Y si entrára, yo mirára
De manera,
Que ninguno no me diera.

Mas andar, lo hecho, es hecho:
Pero todo bien mirado,
Ya que entré, neste abrigado,
Todo me sale en provecho.
Rehuélgome en ver estas cosas,
Tan hermosas,
Que está hombre bobo en vellas:
Véolas yo; pero ellas,
De lustrosas,
A nosotros son dañosas.


Fala à Rainha:
Si es aqui adonde vo?
Dios mantenga si es aqui:
Que yo no sé parte de mi,
Ni deslindo donde estó.
Nunca vi cabaña tal,
En especial
Tan notable de memoria:
Esta debe ser la gloria
Principal
Del paraiso terrenal.


Ó que sea, o que no sea,
Quiero decir á que vengo,
No diga que me detengo
Nuestro consejo e aldea.
Enviame á saber acá,
Si es verdá
Que parió Vuestra Nobreza?
Mi fé si; que Vuestra Alteza
Tal está,
Que señal dello me dá.


Muy alegre y placentera,
Muy ufana y esclarecida,
Muy prehecha y muy lucida,
Mas mucho que dantes era.
Oh qué bien tan principal,
Universal!
Nunca tal placer se vió!
Mi fe, saltar quiero yo.
He, zagal!
Digo, dice, salté mal?


Quien quieres que no reviente
De placer y gasajado!
De todos tan deseado
Este príncipe excelente
Oh qué Rey tiene de ser
A mi ver
Debiamos pegar gritos:
Digo que nuestros cabritos
Dende ayer
E no curan de pacer.


Todo el ganado retoza,
Toda laceria se quita;
Com esta nueva bendita
Todo el mundo se alboroza.
Oh que alegria tamaña!
La montaña
Y los prados florecieron,
Porque ahora se complieron
En esta misma cabaña
Todas las glorias de España.


Qué gran placer sentirá
La gran corte castellana!
Cuan alegre e cuan ufana
Que vuestra madre estará,
Y todo el reino à monton!
Con razon.
Que de tal rey procedió
El mas noble que nació:
Su pendon
No tiene comparacion.


Qué padre, qué hijo y qué madre!
Oh qué aguela y qué aguelos!
Bendito Dios de los cielos,
Que le dió tal madre y padre!
Qué tias, que yo me espanto!
Viva el príncipe logrado!
Quel es bien aparentado!
Juri á Sanjunco santo.


Si me ora vagára espacio,
Y de prisa no veniera,
Juri á nos que yo os diera
Cuenta de su generacio.
Será rey don Juan tercero,
Y herdero
De la fama que dejaron
En el tiempo que reinaron,
El segundo y el primero,
Y aun los outros que passaron.


Quedáronme allí detras
Unos treinta compañeros,
Porquerizos y vaqueros,
Y aun creo que son mas;
Y traen para el nacido
Esclarecido
Mil huevos y leche aosadas,
Y un ciento de quesadas;
Y han traido
Quesos, miel, lo que han podido.


Quiérolos ir à llamar:
Mas segun yo vi las señas,
Hanles de mesar las greñas
Los rascones al entrar.


     Entrarão  figuras de pastores e oferecerão ao Principe os ditos presentes. E por ser coisa nova em Portugal, gostou tanto a Rainha velha desta representação, que pediu ao autor que isto mesmo lhe representasse ás matinas do Natal, endereçado ao nascimento do Redentor; e porque a substancia era mui desviada, em lugar disto fez a seguinte obra.


(FIM DO AUTO COMPLETO como consta na Edição das OBRAS DE GIL VICENTE com revisão, prefácio e notas de Mendes dos Remédios - TOMO TERCEIRO - COIMBRA - FRANÇA AMADO - EDITOR - 1914.)


Comentário: Eis criado o teatro em Portugal, “por ser cousa nova”. Temos já aqui elementos que aparecerão em toda a obra vicentina: a corte inserida na peça, o elemento popular e o cômico. Falta o elemento religioso, que virá logo a seguir. A rainha velha, Dona Leonor, tia do rei Don Manuel e viúva do rei anterior, Don João II, gostou muito dessa pequena manifestação teatral de Gil Vicente. Pediu a ele que a repetisse nas matinas do Natal. Como o tema era específico para o nascimento do príncipe, Gil Vicente preparou sua segunda peça, esta já com um enredo mais elaborado, ainda que curta.
     Observe-se que o texto é em espanhol, a língua da corte na época.



Auto da Visitação (ou Monólogo do Vaqueiro) - Infopédia -www.infopedia.pt/$auto-da-visitacao-(ou-monologo-do-vaqueiro)

Auto da Visitação 

gilvicente-www.joraga.net/gilvicente/pags/ximagens01visita.htmwww.joraga.net/

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