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segunda-feira, 9 de julho de 2012

ARCADISMO: "O URAGUAI" E "CARAMURU"

O URAGUAI, de Basílio da Gama

     Dados importantes sobre o livro:
1. CLASSIFICAÇÃO – Poema épico, escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes. Foge, assim, à imitação de Os Lusíadas, de Camões.
2. OBJETIVO DA OBRA – Satirizar os jesuítas e agradar o Marquês de Pombal, protetor do poeta.
Análise da obra
   O Uraguai, poema épico de 1769, critica drasticamente os jesuítas, antigos mestres do autor Basílio da Gama. Ele alega que os jesuítas apenas defendiam os direitos dos índios para ser eles mesmos seus senhores. O enredo situa-se todo em torno dos eventos expedicionários e de um caso de amor e morte no reduto missioneiro.
    Tema central: Pelo Tratado de Madri, celebrado entre os reis de Portugal e de Espanha, as terras ocupadas pelos jesuítas, no Uruguai, deveriam passar da Espanha a Portugal. Os portugueses ficariam com Sete Povos das Missões e os espanhóis, com a Colônia do Sacramento. Sete Povos das Missões era habitada por índios e dirigida por jesuítas, que organizaram a resistência à pretensão dos portugueses. O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757, exaltando os feitos do General Gomes Freire de Andrade. Basílio da Gama dedica o poema ao irmão do Marquês de Pombal e combate os jesuítas abertamente.
      Personagens
    General Gomes Freire de Andrade (chefe das tropas portuguesas); Catâneo (chefe das tropas espanholas); Cacambo (chefe indígena); Sepé (guerreiro índio); Balda (jesuíta administrador de Sete Povos das Missões); Caitutu (guerreiro indígena; irmão de Lindoia); Lindóia (esposa de Cacambo); Tanajura (indígena feiticeira).
Resumo da narrativa
    A pobreza temática impele Basílio da Gama a substituir o modelo camoniano de dez cantos por um poema épico de apenas cinco cantos, constituídos por versos brancos, ou seja, versos sem rimas.
    Canto I: Saudação ao General Gomes Freire de Andrade. Chegada de Catâneo. Desfile das tropas. Andrade explica as razões da guerra. A primeira entrada dos portugueses enquanto esperam reforço espanhol. O poeta apresenta já o campo de batalha coberto de destroços e de cadáveres, principalmente de indígenas, e, voltando no tempo, apresenta um desfile do exército luso-espanhol, comandado por Gomes Freire de Andrade.
    Canto II: Partida do exército luso-castelhano. Soltura dos índios prisioneiros. É relatado o encontro entre os caciques Cepê e Cacambo e o comandante português, Gomes Freire de Andrade, à margem do rio Uruguai. O acordo  é impossível porque os jesuítas portugueses se negavam a aceitar a nacionalidade espanhola. Ocorre então o combate entre os índios e as tropas luso-espanholas. Os índios lutam valentemente, mas são vencidos pelas armas de fogo dos europeus. Cepé morre em combate. Cacambo comanda a retirada.
    Canto III: O General acampa às margens de um rio. Do outro lado, Cacambo descansa e sonha com o espírito de Cepê. Este incita-o a incendiar o acampamento inimigo. Cacambo atravessa o rio e provoca o incêndio. Depois, regressa para a sede. Surge Lindoia. A mando de Balda, prendem Cacambo e matam-no envenenado. Balda é o vilão da história, que deseja tornar seu filho Baldeta, cacique, em lugar de Cacambo. Observa-se aqui uma forte crítica aos jesuítas. Tanajura propicia visões a Lindoia: a índia “vê” o terremoto de Lisboa, a reconstituição da cidade pelo Marquês de Pombal e a expulsão dos jesuítas.  
     Canto IV: Maquinações de Balda. Pretende entregar Lindoia e o comando dos indígenas a Baldeta, seu filho. O episódio mais importante: a morte de Lindoia. Ela, para não se entregar a outro homem, deixa-se picar por uma serpente. Os padres e os índios fogem da sede, não sem antes atear fogo em tudo. O exército entra no templo. O poema apresenta então um trecho lírico de rara beleza:  
"Inda conserva o pálido semblante 
Um não sei que de magoado e triste 
Que os corações mais duros enternece, 
Tanto era bela  no seu rosto a morte!"
Com a chegada das tropas de Gomes Freire, os índios se retiram após queimarem a aldeia.
     Canto V: Descrição do Templo. Perseguição aos índios. Prisão de Balda. O poeta dá por encerrada a tarefa e despede-se. Expressa suas opiniões a respeito dos jesuítas, colocando-os como responsáveis pelo massacre dos índios pelas tropas luso-espanholas. Eram opiniões que agradavam ao Marquês de Pombal, o todo-poderoso ministro de D. José I. Nesse mesmo canto ainda aparece a homenagem ao general Gomes Freire de Andrade que respeita e protege os índios sobreviventes.
Apreciação crítica
    O poema é escrito em decassílabos brancos, sem divisão em estrofes, mas é possível perceber a sua divisão em partes: proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Abandona a linguagem mitológica, mas ainda adota o maravilhoso, apoiado na mitologia indígena. Foge, assim, ao esquema tradicional, sugerido pelo modelo imposto em língua portuguesa, Os Lusíadas. Por todo o texto, perpassa o propósito de crítica aos jesuítas, que domina a elaboração do poema.
    A oposição entre rusticidade e civilização, que anima o Arcadismo, não poderia deixar de favorecer, no Brasil, o advento do índio como tema literário. Assim, apesar da intenção ostensiva de fazer um panfleto anti-jesuítico para obter as graças de Pombal, a análise revela, todavia, que também outros intuitos animavam o poeta, notadamente descrever o conflito entre a ordenação racional da Europa e o primitivismo do índio.
     Variedade, fluidez, colorido, movimento, sínteses admiráveis caracterizam os decassílabos do poema, não obstante equilibrados e serenos. Ele será o modelo do decassílabo solto dos românticos.
     Além dessas, outras características notáveis do poema são:
Sensibilidade plástica: apreende o mundo sensível com verdadeiro prazer dos sentidos. Recria o cenário natural sem que a notação do detalhe prejudique a ordem serena da descrição.
Senso da situação: o poema deixa de ser a celebração de um herói para tomar-se o estudo de uma situação: o drama do choque de culturas.
Simpatia pelo índio, que, abordado inicialmente por exigência do assunto, acaba superando no seu espírito o guerreiro português, que era preciso exaltar, e o jesuíta, que era preciso desmoralizar. Como filho da “simples natureza”, ele aparece não só por ser o elemento esteticamente mais sugestivo, mas por ser uma concessão ao maravilhoso da poesia épica.
     Devido ao tema do índio, durante todo o Romantismo, o nome de Basílio da Gama foi talvez o mais frequente, quando se tratava de apontar precursores da literatura nacional. Convém, entretanto, distinguir neste poeta o nativismo do interesse exterior pelo exótico, havendo mesmo predomínio deste, pois o indianismo não foi para ele uma vivência, foi antes um tema arcádico transposto em linguagem pitoresca.
    O preto africano lhe feriu a sensibilidade também, tendo sido o primeiro a celebrá-lo no poemeto Quitúbia, mostrando que a virtude é de todos os lugares.
     Basílio foi poeta revolucionário com seu poema épico. Enquanto Cláudio trazia ao Brasil a disciplina clássica, Basilio, sem transgredi-la muito, mas movendo-se nela com maior liberdade estética e intelectual, levava à Europa o testemunho do Novo Mundo.
Texto — A morte de Lindóia  (Canto IV)
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia]
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
     Observe a ausência de estrofes regulares, os versos brancos (sem rima), o vigor descritivo. 

O CARAMURU , de Santa Rita Durão 
      Dados importantes sobre o livro:
1. CLASSIFICAÇÃO – Poema épico, escrito em decassílabos rimados, com divisão em cantos e estrofes. Imita, assim, o esquema tradicional imposto por Camões em Os Lusíadas.
2. TEMA CENTRAL – O poema narra, em dez cantos, o naufrágio de Diogo Álvares Correia (na costa da Bahia) e suas aventuras amorosas com as índias, sobretudo com Paraguaçu e Moema. O material é vasto: fatos da História, o temperamento e as lendas dos indígenas. O poema segue o esquema clássico camoniano, usando a oitava rima, obedecendo à divisão tradicional em proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo.
3. PERSONAGENS PRINCIPAIS: 
Diogo Álvares Correia – herói; náufrago português.
Paraguaçu – índia, filha do cacique.
Moema – amante de Diogo; morre afogada.
Taparica – cacique; pai da índia Paraguaçu
A – Tema Central
   O poema narra, em dez cantos, o naufrágio de Diogo Álvares Correia e seus amores com as índias, sobretudo com Paraguaçu. O material é vasto; fatos de nossa história, o temperamento dos indígenas, lendas. O poema segue o esquema clássico-camoniano, usando a oitava rima, observando a divisão tradicional em proposição, invocação, dedicatória, narrativa e epílogo. Uso da linguagem mitológica e do maravilhoso pagão e cristão, rigorosamente nos moldes camonianos. 
B – Apreciação crítica
    Costuma-se rotular Santa Rita Durão de passadista. Embora pertença à geração de Cláudio Manuel da Costa, é na de Gonzaga que escreve e publica o seu poema épico, num estilo neocamoniano, em que reminiscências cultistas misturam-se a traços de cosmovisão do seu tempo. Dentre os que vieram a formar com ele a chamada Escola Mineira, é o mais isolado. Não se conhece dele qualquer preocupação teórica que permita relacioná-lo ao movimento, nem se nota em seus versos influência estilística dos árcades.
    O Caramuru tem os elementos tradicionais do gênero épico: duros trabalhos de um herói, contato de gentes diversas, visão de uma seqüência história. A sua linha é camoniana e o intuito foi “compor uma brasilíada”.
    A narrativa é enriquecida com referência a fatos históricos desde o descobrimento até a época do autor, dando-se grande relevo também à matéria descritiva e informativa. É o caso da descrição do Brasil por Diogo, coroando as tentativas de louvação da terra, prenunciando certos aspectos do nacionalismo romântico.
MORTE DE MOEMA (fragmento)
(Abandonada por Diogo, que parte para a Europa com Paraguaçu, Moema atira-se ao mar, perseguindo o navio em que Diogo viajava, até a morte).
(...)
XXXVI
É fama então que a multidão formosa
Das damas que Diogo pretendiam,
Vendo avançar-se a nau na via undosa,
E que a esperança de o alcançar perdiam,
Entre as ondas com ânsia furiosa
Nadando o esposo pelo mar seguiam
E nem tanta água, que flutua vaga,
O ardor que o peito tem, banhando apaga.
(...)
XXXVII
Copiosa multidão da nau Frances
Corre a ver o espetáculo assombrada
E, ignorando a ocasião de estranha empresa,;
Pasma da turba feminil que nada.
Uma, que às mais precede em gentileza,
Não vinha menos bela do que irada:
Era Moema, que de inveja geme,
E já vizinha à nau se apega ao leme.
(...)
Bem puderas, cruel, ter sido esquivo,
Quando eu a fé rendia ao teu engano;
Nem me ofenderas a escutar-me altivo,
Que é favor, dado a tempo, um desengano.
Porém, deixando o coração cativo,
Com fazer-te a meus rogos sempre humanos,
Fugiste-me, traidor, e desta sorte
Paga meu fino amor tão crua morte?
                          [in Tesouro da Juventude, volume 15]

POESIA SATÍRICA 

MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA
      Nasceu em Vila Rica, em 1749 e faleceu no Rio, em 1814.
    O Desertor das Letras, poema escrito quando Silva Alvarenga estudava em Coimbra, caracteriza-se pelo entusiástico apoio dado ao Marquês de Pombal pela civilização do ensino, revolucionária reforma educacional feita na Universidade portuguesa que destituiu os jesuítas das funções de administração e magistério até então exercidas.
    Com Glaura, torna-se o exemplo perfeito do estilo rococó em nossa literatura. Com seus rondós e madrigais, envolvidos por intensa musicalidade, apresenta uma “natureza decorativa, onde as pombas e borboletas se cruzam, o mar, o musgo, a areia, as flores e as matas constituem linda moldura carioca para os requintes arcádios”.
   Silva Alvarenga pode ser considerado precursor do Romantismo, enquanto não cultua excessivamente as belezas postiças greco-romanas do repertório árcade. Usava o pseudônimo de Alcindo Palmireno. 

INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO
     Nasceu no rio de Janeiro em 1744 e faleceu em Angola, em 1793.
   Obra irregular e convencional, atrelada aos clichês árcades. Fez poesia encomiástica e laudatória, enaltecendo o despotismo ilustrado do Marquês de Pombal e, por vezes, assumindo uma posição crítica diante da política colonialista portuguesa. É considerado o poeta mais inexpressivo do século XVIII no Brasil, destacando-se, em sua produção, a lira “Bárbara Heliodora” e o soneto “Estela e Nize”. Atribui-se a Alvarenga Peixoto o lema da bandeira da Inconfidência, extraída de um verso de Virgílio: “Libertas, quae sera tamem” (Liberdade, ainda que tardia). A maior parte de sua obra perdeu-se

ESTELA E NIZE
“Eu vi a linda Estela, e namorado
fiz logo eterno, voto de querê-la;
mas vi depois a Nize, e a achei tão bela
que merece igualmente o meu cuidado.
A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.
Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.
Vem, cupido, soltar-me desses laços;
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços.”

O Uraguai, de Basílio da Gama - Passeiweb
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Santa Rita Durão – Colégio Web
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Arcadismo - Grupo de Poetas Livres
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