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quarta-feira, 25 de julho de 2012

A PROSA ROMÂNTICA: FRANKLIN TÁVORA E VISCONDE DE TAUNAY

FRANKLIN TÁVORA
    João Franklin da Silveira Távora (Baturité, 13 de janeiro de 1842 — Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1888) foi um advogado, jornalista, político, romancista e teatrólogo brasileiro.
    Em 1844 transferiu-se com os pais para Pernambuco. Fez preparatórios em Goiana e Recife, em cuja Faculdade de Direito matriculou-se em 1859, formando-se em 1863. Lá viveu até 1874, tendo sido funcionário público, deputado provincial e advogado, com breve intervalo em 1873 no Pará, como secretário de governo. Em 1874, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi funcionário da Secretaria do Império.
    Iniciou o romantismo de caráter regionalista no Nordeste. Uma de suas obras mais marcantes é O Cabeleira, romance passado em Pernambuco do século XVIII. Foi crítico ferrenho de outros grandes autores brasileiros, como José de Alencar.Foi de grande contribuição para os contos literários brasileiros,pois em suas obras abordava lendas e tradições populares ,em oposição a uma literatura do sul ,considerada cheia de estrangeirismos e antinacionalismos. Possuia dois Pseudônimos: Semprônio e Farisvest.
Homenageado pela Academia Brasileira de Letras, é o patrono da cadeira 14, escolhido por Clóvis Beviláqua.
1 Obras
Fase literária recifense
Trindade maldita (contos, 1861);
Os índios do Jaguaribe (romance, 1862);
A casa de palha (romance, 1866);
Um casamento no arrabalde (romance, 1869);
Um mistério de família (drama, 1862);
Três lágrimas (drama, 1870).
Fase carioca
Cartas de Semprônio a Cincinato (crítica, 1871);
O Cabeleira (romance, 1876); Considerado um de seus melhores livros.
O matuto (crônica, 1878);
Lourenço (romance, 1878);
Lendas e tradições do norte (folclore, 1878);
O sacrifício (romance, 1879).


A  IMPORTÂNCIA  DE  FRNKLIN  TÁVORA
      Franklin Távora figura ao lado dos romancistas José de Alencar, Bernardo Guimarães e Alfredo Taunay, entre outros, como um escritor que trouxe à literatura brasileira o gosto pelo sentimento da natureza, evocando a paisagem aliada ao enfoque de personagens que simbolizam os arquétipos do sertanejo. No entanto, como a maioria de seus colegas de geração, escreveu também para o teatro. E é justamente esse lado menos conhecido do artista, que o estudioso Cláudio Aguiar está resgatando, com a obra Teatro de Franklin Távora. As obras reunidas neste volume por Aguiar representam significativos exemplos de dramas realistas aparecidos justamente no momento em que tal movimento ganhava força no cenário da dramaturgia brasileira.
     Franklin Távora  é o patrono da Cadeira nº 14, da ABL, e formou-se pela Universidade de Direito do Recife, celeiro de grandes escritores no período. Um dos fundadores da Revista Brasileira, foi intérprete literário de um regionalismo que vinha se exprimindo ideologicamente desde o início do século. Távora defendeu o que chamava uma literatura do Norte, em oposição a uma literatura do Sul, considerada por ele cheia de estrangeirismos e antinacionalismo. Ficou conhecido, especialmente, pelas obras Três Lágrimas (1870), Cartas de Semprônio a Cincinato (1871), O Cabeleira (1876), O Matuto (1878) e Lendas e Tradições do Norte (1879). Nesta entrevista, Aguiar aborda a vida e a obra do dramaturgo nordestino.
     Como poderíamos classificar a presença de Franklin Távora na literatura brasileira?
Ela acha-se bastante documentada nos mais importantes livros que tratam de nossa história literária, como os de Sílvio Romero, José Veríssimo, Lúcia Miguel-Pereira, Antonio Candido, para ficar apenas nos mais conhecidos. A marca fundamental aparece com o romance Um Casamento no Arrabalde, de 1869, que o situa como uma das principais obras que se caracterizam por abandonar o tom romântico então predominante. Por isso, boa parte da crítica viu nesta obra de Távora um momento precursor do realismo no contexto da literatura brasileira. O mesmo acontecia com sua estréia no Teatro de Santa Isabel, no Recife, com a peça Um Mistério de Família, de 1861, embora a primazia sempre tenha recaído para autores que então freqüentavam o eixo Rio-São Paulo. Sílvio Romero chegou a ver em Távora mais faro psicológico e firmeza das tintas do que em Alencar, no qual reconhecia, por outro lado, maior imaginação. José Veríssimo classificou Um Casamento no Arrabalde como um dos melhores da literatura brasileira. Lúcia Miguel-Pereira, apesar de propensa a destacar mais os defeitos do que os acertos da obra de Távora, chamou a atenção “para os novos rumos que delineia”, querendo dizer com isso que Távora naquele romance apontava para caminho nitidamente realista. Candido considerou Um Casamento no Arrabalde a obra-prima de Távora exatamente pelo “traço realista”. Então, em rápidas palavras, verificamos que Távora afirma-se desde os primeiros passos literários, quer no romance, quer no teatro, como um autor realista. Isso não significa que não tenha tentado, ainda muito jovem, obras com fortes laivos românticos, as quais não alcançaram nenhuma repercussão e logo foram abandonadas pelo próprio autor, como ocorreu a Os Índios do Jaguaribe, de 1862.
    Qual a importância do teatro de Franklin Távora, onde convivem num mesmo espaço o regionalismo, certa preocupação realista, histórica, e enredos de teor folhetinesco?
A importância do teatro de Távora, segundo penso, não reside basicamente na possibilidade de conviver no mesmo espaço circunstâncias de gêneros, movimentos ou escolas. As peças selecionadas, a meu ver, fogem de esquemas regionalistas ou históricos e centram-se em questões fundamentais da própria vida humana: a honra e a desonra de pessoas que são feridas em seus sentimentos mais íntimos e sagrados, ainda que preponderem aspectos relevantes em determinada época. Creio que a importância do teatro de Távora está exatamente no elevado senso da condução do drama. Do ponto de vista da historiografia literária destaco, porém, fatores que influenciaram o surgimento de intensa fermentação dramática que apontavam para novos caminhos do teatro brasileiro. O principal deles era o enfoque realista que deixava para segundo plano o romantismo, também, à época, ocorrendo no Recife com as mesmas características do Rio de Janeiro e São Paulo. E mais: a novidade recifense surgia da pena do jovem Franklin Távora, com apenas 20 anos de idade, que conseguia levar à cena no Teatro de Santa Isabel um drama com o concurso de grandes companhias e renomados atores, circunstância que no mínimo chancelava a qualidade de seu texto.
     Alguns críticos consideraram Franklin Távora o primeiro romancista do Nordeste. Mas dizem que, no final da vida, mostrou-se desgostoso com a literatura. Qual terá sido o motivo?
Távora realmente leva vantagem cronológica sobre o aparecimento do primeiro romance cearense, isto é, escrito por autor cearense, quando, em 1862, publicou Os Índios do Jaguaribe, no Recife, aliás, anterior a Iracema, de José de Alencar, que é de 1865. No entanto, não é um romance de regionalismo extremado, mas, sim, extremadamente romântico. Nele há um certo ufanismo mesclado a um saudosismo que só uma atitude romântica poderia justificar. Foi uma obra totalmente abortada. Tanto que ele prometia continuar a publicação do resto do romance e não se tem notícia da edição dos tomos seguintes. Quanto ao fato de revelar-se desgostoso no final da vida com a literatura, também não encontrei em sua trajetória nenhuma razão plausível para tal atitude. O que constatei foi justamente o contrário. Revelou-se um escritor bastante forte para não sucumbir diante das injunções adversas da vida, das ingratidões, do sofrimento com a atividade burocrática, das dificuldades financeiras. Ele, porém, teve momentos de realização pessoal em sua curta vida (morreu aos 46 anos), creio, decorrentes exatamente de atividades literárias, de jornalismo militante, polêmicas e campanhas ligadas a princípios dignificantes e construtivos, como a defesa da liberdade, da fraternidade e da igualdade entre os homens, tríade que, ao longo da história, tornou-se apanágio e obsessão daqueles que miram utopicamente o horizonte e nunca o próprio umbigo.


Maria Jarina Silva Aguiar
    Sabe-se que,durante o século XVIII, alguns autores manifestaram o desejo de produzir uma Literatura nacional, essa que exaltasse as proezas da terra. Foi nesse contexto que surgiu João Franklin Silveira Távora, cearense, nascido em Baturité, no ano de1842.
Franklin, estudou em Fortaleza. Anos depois foi para Pernambuco, cursou advocacia, na cidade  de Recife. Além de ser advogado, foi contista, historiador, crítico e romancista. Como romancista , acreditava que, uma das formas de produzir uma literatura própria, do povo brasileiro, seria exaltando a cultura do norte do país, já que lá estavam o matuto, o sertanejo e a natureza, todos com as peculiaridades, uma vez que permaneciam pouco influenciados pela cultura européia, já que poderiam observar, que nos modos matutos tinham muito de original,na natureza tinha elementos diferentes.
      Agora, é interessante mencionar o lado crítico de Távora, que se manifestou devido o desejo de ter uma literatura brasileira. Acaba tecendo criticas graves ao escritor José de Alencar, já que defendia que as escrituras de tal autor, não eram devidamente nacional,uma vez que, estavam presentes nas obras, grandes características do povo estrangeiro. Sendo interessante ressaltar que os leitores podem perceber isso, quando lêem as  obras, que retratam  o índio,pois ficam muito observáveis, as influencias estrangeiras, na apresentação da personagem, que deveria representar a terra. È preciso dizer que não teceu as criticas sozinho, pois contou com a ajuda de outros autores, como o José Feliciano de Castilho, que unidos fizeram frente em campanha  contra as idéias de Alencar.
     As cartas escritas por Távora, com o objetivo de ofender Alencar, eram redigidas sob um pseudônimo de  Semprônio. Tais textos, na época, fizeram muito sucesso, afinal eram direcionadas a um renomado autor. No período aqui transcrito, nasce para o povo, Franklin Távora, antes desconhecido, mas que agora ganhava espaço, devido as cartas.
     Faz-se necessário mencionar que Távora foi visto, por alguns, como precursor da literatura nordestina, pois nas palavras de Pontara e Abaurre “Franklin é considerado o “fundador” do regionalismo do Nordeste, que no século XX, ressurgirá com força total na ficção Modernista”. Mediante este trecho, percebe-se que, por mais que na geração de 30, com os textos de Euclides, ou Raquel, tenham dado ênfase, aos problemas da seca, da fome ,das desventuras do povo sertanejo e, de tal forma ter voltado o mundo para as dificuldades no Nordeste, mesmo assim é preciso ressaltar a importância de Távora, na literatura regionalista, afinal foi com o ele que essa literatura deu os primeiros passos, já que em um dos seus livros  tenha falado de seca, fome, cangaço.
     Agora, faz-se necessário relatar um pouco a respeito do livro O Cabeleira, que é o romance mais conhecido de Távora. No enredo tem dados históricos e trechos românticos, ambientados em Pernambuco. Os fatos históricos são justificados, nos nomes de algumas autoridades pernambucanas, enquanto as idéias românticas revelam-se no amor, entre o protagonista José Gomes e a jovem Luisinha. Um sentimento capaz de purificar a alma do mau caráter da personagem central, assim comovendo o público leitor. Além de traços românticos, tem-se idéias naturalistas, já que o autor revela que o livro trata-se de um romance de tese, afinal o objetivo era a comprovação da influencia do meio social, na formação do caráter do protagonista, pois J. Gomes é mau, devido a influencia do próprio pai. É interessante mencionar que um outro fato discutido no livro é a pena de morte, no enredo conclui-se que não é uma boa forma de fazer justiça.
     É válido relatar que Távora, no fim da vida encontrava-se em situação lamentável, já que viveu em estado de miséria, além disso encontram-se relatos que, tão grande foi  a frustração vivida, que acabou rasgando alguns textos, além de vender o acervo bibliotecário.
    Mediante as idéias aqui colocadas, vê-se que, Franklin Távora, apesar das funções que exerceu, apesar do reconhecimento, em decorrência das cartas escritas, mesmo assim morreu esquecido e frustrado. Será uma atitude muito interessante, defender a importância de Távora para construção da literatura nacional.

jornalcorreiodasemana.com

O CABELEIRA
     O romance não se ocupa apenas de pura ficção, conta a vida de José Gomes, O Cabeleira, cujo pai, Joaquim Gomes, foi um temeroso bandido. Pai e filho, associados a outro delinquente, Teodósio, roubam e matam sem dó nem piedade. As populações paupérrimas, com o pouco que tinham, eram forçadas a lhes dar alimento, dinheiro e sangue. O grupo decide assaltar a vila de Recife e a população, sabendo que os bandidos se aproximam, trata de fugir para o mato. Os que não têm para onde ir, oferecem aos criminosos hospedagem.
     Cabeleira, nessa época, tinha vinte e dois anos. Seus comparsas vão armados de facas, bacamartes e pistolas em direção à vila de Recife. Mais experiente, Teodósio é o primeiro a entrar no lugarejo, marcando a ingazeira da ponte, como local de encontro. A vila era pouco desenvolvida, por isso os esparsos moradores trancam-se cedo em suas casas, temendo roubos e assassinatos tão comuns na região.
    Pai e filho chegam ao bairro da Boa Vista ao anoitecer. Como não sabiam que os habitantes, por ordem do governador, deviam colocar luminárias em suas casas, festejando a abolição dos jesuítas, ficam alarmados, pensando que serão descobertos. Mas logo se encontram com Teodósio, que rema uma canoa. Era 1º de dezembro de 1773. O povo festejava, passeando pela ponte iluminada de Recife, quando um deles reconhece o Cabeleira e se põe a gritar. A multidão começa a se dispersar desordenadamente, gritando, atropelando-se.
     Os dois malfeitores apanham suas facas, o Cabeleira grita que chegou e vem acompanhado do pai que, sem pestanejar, dá com o facão sobre a cabeça de um passante, espirrando sangue no rosto do matador. O filho não entende porque o pai fez aquilo, mas o degenerado e infeliz lhe diz que ali são mal-queridos e, portanto, é preciso fazer o trabalho bem feito. Incentivado, Cabeleira sai ferindo a torto e a direito.
    Os soldados da infantaria chegam e o povo preso na ponte, não tendo para onde fugir, lança-se às águas e logo os malfeitores, também, encurralados, fazem o mesmo. Um dos soldados é atingido pela vara de um canoeiro e desce correnteza abaixo. Teodósio foi quem o assassinou, enquanto buscava os comparsas. Em breve, estão todos na canoa com as armas na mão. Joaquim e o filho se encontravam na ponte para dar cobertura a Teodósio, que estava assaltando um armazém. Com a confusão, o velho assaltante teve tempo de praticar o furto desejado e, ainda, salvar os dois amigos, lançados à escuridão do Rio Capibaribe.
     A violência do Cabeleira é incentivada pelo pai desde tenra idade. Aos 16 anos o menino demonstra extrema crueldade. Nessa época, mata de forma violenta Chica, uma mameluca, companheira de Timóteo, dono de uma venda de artigos roubados.
     Chica, enfurecida, porque o cavalo do rapaz estava comendo sua horta, dá uma forte pancada no animal que sai correndo desabaladamente. Não contente, a mulher passa a dirigir insultos ao bandido, e este de raiva lhe dá uma surra tão grande que ela acaba falecendo. Sua valentia fica sendo conhecida por todos, pois nesse mesmo dia, tinha feito um roubo, assassinado um comerciante e deixado, quase mortos, dois soldados.
     Timóteo jamais brigou com o malfeitor, pois o temia. Seu estabelecimento passa a ponto de encontro e venda dos produtos de roubo do trio. Nessa taberna, na ponte dos Alagados, escondem-se os três, após a confusão na vila de Recife. Mas, logo são sobressaltados pelo semblante desfigurado de Teodósio, que descobre ter deixado o dinheiro roubado no camarote da canoa que tinha desaparecido. Notam que dois meninos retornam com ela. Gritam para eles, mas os garotos, amedrontados, abandonam o barco, carregado pela correnteza, e se põem a correr. Cabeleira, pensa no dinheiro e atira certeiramente nas costas de um deles, mata o segundo a tiros, enquanto, sorrateiramente, Teodósio oculta de seus comparsas o fruto do roubo.
     Segundo a tradição, o Cabeleira tinha boa índole, herdada da mãe, a fraca Joana. Na infância, Joaquim ensina ao filho a matar os animaizinhos, entregando-lhe uma pequena faca para ser usada contra todos aqueles que o provocassem: fosse velho, moço, mulher ou criança. A mãe se esforça para colocar o menino no caminho do bem e amor ao próximo. O marido decide partir levando a criança. Cabeleira fica abatido com a notícia, mas despede-se da querida amiga de infância, Luisinha, prometendo-lhe, quando voltar, não fazer mal a mais ninguém.
   Luisinha era uma órfã, criada pela viúva Florinda. A menina vai crescendo, ao mesmo tempo em que a fama do Cabeleira e do pai se fortalece. A cada novo terror, ela sente-se triste e angustiada, recordando a imagem do antigo amigo. Até que, ao fim de uma tarde, quando vai buscar água, se encontra com o Cabeleira, que mata Florinda, quando esta vem em defesa de Luisinha. O bandido, não reconhecendo a moça, pretende levá-la consigo. Ela se apresenta e ele a liberta, dizendo que logo retornará para uma conversa.
   Liberato, um proprietário de terras, arrasadas pelos bandidos, reúne-se com outros moradores queixosos e propõe atacarem o bando do Cabeleira, mas os homens se negam. Liberato não desiste e acompanhado de seus dois filhos, Ricardo e Sebastião, mais o genro, Vicente, parte à caça dos malfeitores. Um de seus vizinhos conta o plano ao bando. Ao chegarem à clareira dos malfeitores, estes já os esperam e os liquidam.
     Dias mais tarde, quando o velho índio, Matias, conhecedor das matas, vai em busca do grupo, encontra seus corpos. Retorna à casa do morto acompanhado pelo pai do Cabeleira que, a qualquer custo, deseja entrar onde se encontram as mulheres, esperando por seus familiares. Luísa, também, aí está, assistindo Florinda a expirar, após tê-la encontrado ainda com vida. Matias é morto avisando às mulheres sobre o ocorrido e sobre a presença dos bandidos.
    As cinco mulheres entram em pânico, enquanto Joaquim esmurra a porta, gritando para que elas saíssem. Percebendo que vão atear fogo a casa, elas decidem ficar.
      Morrem no incêndio, mas Luísa sai, carregando às costas a morta Florinda. Joaquim quer a moça para si, mas o filho enfrenta ferozmente o pai que decide perdoar seu desafio, enquanto o bando evita os policiais. Cabeleira abraça e beija ternamente Luisinha, fugindo com ela para a mata.
    Timóteo, forçado pelos policiais, leva-os até o esconderijo do bando, deixando o Cabeleira e Luísa nas matas. As milícias volantes cercam a região da província de Alagoas até a Paraíba, prendendo todos os ladrões, malfeitores e aterrorizadores das populações há anos, inclusive Joaquim e Teodósio. Entretanto, o povo ainda se sente ameaçado, porque o Cabeleira está livre.
     O bandido busca água e comida para a amada que o impede de matar as pessoas que cruzam seu caminho. O malfeitor deseja agradá-la , por isso joga fora o bacamarte e a faca como prova de que jamais fará mal a ninguém, reza e se arrepende de todo o mal causado. Uma manhã, ao despertar, encontra a companheira morta, vítima de queimaduras no peito, por tentar salvar Florinda, de febre e da longa caminhada.
     Estupefato, o malfeitor descobre a ferida oculta com um lencinho, doido de dor, chora amargamente.
     Cabeleira ouve uma corneta e percebendo que a milícia está em seu encalço, embrenha-se mata a dentro, largando o corpo de Luísa para trás. Marcolino, um dos moradores, leva os soldados para o mato, mas não consegue localizar o bandido.
     Desapontado, resolve agir por conta própria; decidido a caçar o delinquente a qualquer custo. Vai na direção de Pau D' alho, quando avista o malfeitor penetrando no canavial. Este já sabe que está cercado e a saída controlada. O cerco dura quase três dias, quando, finalmente, se entrega ao chefe, o capitão-mor Cristóvão de Holanda Cavalcanti, que lhe dando voz de prisão, leva-o para sua casa, antes de encaminhá-lo à prisão mais segura, em Recife.
     A esposa do capitão-mor fica comovida com a dor e a música que saem da viola do Cabeleira e implora ao marido para deixar escapar a vítima da violência paterna. Mas Cristóvão de Holanda cumpre seu dever. Decorrido um mês, O Largo das Cinco Pontas, em Recife, ostenta a forca que fará justiça. Joana, a mãe do Cabeleira, implora para vê-lo, mas não lhe permitem. Vai para a praça aguardar o filho e chorar sua dor. Ele aparece pálido e diz arrepender-se do que fez, despede-se, dando adeus à mãe, que morre do coração entre as mulheres da praça.
     A morte dos bandidos não inibe a manifestação de outros malfeitores. O narrador pergunta: 'De que serviu pois a provisão régia?'. E, acrescenta: ' a pena de morte, que as idades e as luzes têm demonstrado não ser mais que um crime jurídico, de feito não corrige, nem moraliza'. Atribui aos crimes cometidos por Cabeleira à pobreza e ignorância, reclamando da sociedade o dever de dar a educação a todos e de organizar o trabalho. Aproveita, também, para defender os escravos que, levados pelos açoites e condição servil, matam seu senhor por serem vítimas da pobreza e degradação social.


O Cabeleira | Resumos Literarios

VISCONDE  DE TAUNAY
    Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, primeiro e único visconde de Taunay, (Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1843 — Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1899) foi um nobre, escritor, músico, artista plástico, professor, engenheiro militar, político, historiador e sociólogo brasileiro.
    Alfredo Taunay nasceu em uma família aristocrática de origem francesa no Rio de Janeiro. Seu pai, Félix Émile Taunay, era pintor, professor e diretor da Academia Imperial de Belas Artes e seu avô paterno foi o conceituado Nicolas-Antoine Taunay. Sua mãe, Gabriela Hermínia Robert d'Escragnolle Taunay, fora uma dama da alta sociedade brasileira e era irmã do barão d'Escragnolle e filha do conde d'Escragnolle.
     Após obter seu bacharelado em literatura no Colégio Pedro II em 1858, aos quinze anos de idade, Taunay estudou Física e Matemática no Colégio Militar do Rio de Janeiro, tornando-se bacharel em Matemática e Ciências Naturais em 1863.
     Casou-se com Cristina Teixeira Leite, filha do barão de Vassouras, neta do primeiro barão de Itambé e sobrinha-neta do barão de Aiuruoca. Seu filho foi o historiador Afonso d'Escragnolle Taunay, membro-fundador da Academia Brasileira de Letras.
Guerra do Paraguai e carreira política
     Taunay lutou na Guerra do Paraguai como engenheiro militar, de 1864 a 1870. Desta experiência surgiu seu livro A Retirada da Laguna, de 1869. Após seu retorno ao Rio de Janeiro, Taunay lecionou no Colégio Militar e iniciou simultaneamente sua carreira como político do Segundo Império. Atingiu o posto de major em 1875. Foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Goiás em 1872, cargo para o qual seria reeleito três anos mais tarde.
     O Conde d'Eu (com a mão na cintura no centro a direita) e à sua esquerda, José Paranhos, futuro visconde do Rio Branco, e entre ambos, o visconde de Taunay, cercados por oficiais brasileiros durante a Guerra do Paraguai.
     No dia 26 de abril de 1876, foi nomeado presidente da província de Santa Catarina. Assumiu o cargo de 7 de junho de 1876 a 2 de janeiro de 1877, quando o passou ao vice-presidente Hermínio Francisco do Espírito Santo, que presidiu a província por apenas um dia. Em 1 de janeiro de 1877, durante seu mandato como presidente, ele havia inaugurado, no Largo do Palácio, atual Praça Quinze de Novembro, o monumento aos heróis catarinenses da Guerra do Paraguai.
     Inconformado com a queda do Partido Conservador, Taunay retirou-se da vida política em 1878, deixando o país para estudar, durante dois anos, na Europa. Em 1881 é eleito deputado pela província de Santa Catarina e, em 1885, nomeado presidente da província do Paraná. Em Curitiba, foi um dos responsáveis pela criação do primeiro parque da cidade, o Passeio Público, inaugurado em 2 de maio de 1886 (véspera do dia da entrega do cargo).[1]. Exerceu tal cargo até 3 de maio de 1886. Neste ano, torna-se senador por Santa Catarina, tendo sido escolhido de uma lista tríplice pelo Imperador em 6 de setembro de 1886, sucedendo Jesuíno Lamego da Costa.
     Recebeu o título nobiliárquico de visconde de Taunay de D. Pedro II em 6 de setembro de 1889. Com a proclamação da República naquele mesmo ano, Taunay deixou a política para sempre.
Carreira literária e artística
     Crítico das influências da literatura francesa, Taunay buscava promover a arte brasileira no exterior. No dia 21 de agosto de 1883 propõe à câmara dos deputados a autorização de uma soma para a realização de uma sinfonia por Leopoldo Miguez em Paris, nos Concerts-Collone. Anteriormente fora responsável pela promoção de Carlos Gomes no exterior.
    Taunay foi um autor prolífico, produzindo ficção, sociologia, música (compondo e tocando) e história. Na ficção, a obra Inocência é considerada pelos críticos como seu melhor livro. Faleceu diabético no dia 25 de janeiro de 1899.
    Foi oficial da Imperial Ordem da Rosa e cavaleiro das imperiais ordens de São Bento de Avis e de Cristo.
     Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira n.° 13, que tem como patrono Francisco Otaviano.
Obras
 Scenas de viagem: Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto: de Miranda : memoria descriptiva, 1868 (eBook)
A Campanha da Cordilheira, 1869
La Retraite de Laguna, 1871 (em francês, traduzido como "A retirada da Laguna")
Inocência, romance, 1872
Lágrimas do Coração. Manuscrito de uma Mulher, romance, 1873
Ouro sobre Azul, romance, 1875
Estudos críticos, 2 vols., 1881 e 1883
Amélia Smith, drama, 1886
No Declínio, romance, 1889
O Encilhamento, romance, 1894
Reminiscências, memórias, 1908 (póstumo)

nocência, de Visconde de Taunay

INOCÊNCIA
Análise da obra
    Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil. Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras.
    Na época em que o autor se inspirava para escrever Inocência, publicado em 1872, acontecia no país a aprovação da Lei do Ventre Livre, onde todos os filhos de negros que nascessem à partir daquela data seria livre da escravidão brasileira.
   É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa.
    O autor conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de Inocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.
    Foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas.
     Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então.
    São trinta capítulos e um epílogo, em que poucos personagens se movem. Esses personagens podem ser agrupados de acordo com a posição que lhes caberá no desenrolar da obra.
     Inocência pode ser considerada a obra-prima do romance regionalista (Sertão do Mato Grosso) do nosso Romantismo. Seu autor, Visconde de Taunay, soube unir ao seu conhecimento prático do país, adquirindo em inúmeras viagens na condição de militar, o seu agudo senso de observação da natureza e da vida social do Sertão brasileiro.
     A qualidade de Inocência resulta do equilíbrio alcançado entre os aspectos ligados ao conceito de verossimilhança – que muitas vezes chegava a comprometer a qualidade de obras regionalistas –, como a tensão entre ficção e realidade, a linguagem culta e a linguagem regional e a adequação dos valores românticos à realidade bruta do nosso Sertão.
     Ao lado dos acontecimentos, que constituem a trama amorosa, há também o choque de valores entre Pereira e Meyer, um naturalista alemão que se hospedara na casa de Pereira à procura de borboletas, evidenciando as contradições entre o meio rural brasileiro e o meio urbano europeu.
     A atração pelo pitoresco e o desejo de explorar e investigar o Brasil do interior fizeram o autor romântico se interessar pela vida e hábitos das populações que viviam destante das cidades. Abria-se assim, para o Romantismo, o campo fecundo do romance sertanejo, que até hoje continua a fornecer matéria à nossa literatura.
ASPECTOS TEMÁTICOS
Sofrimento – A caminhada do sertanejo em busca de seus objetivos através de longas distâncias, sendo que no percurso, existe a dificuldade do abrigo.
Simplicidade – É claramente observada através do comportamento e diálogos entre as personagens típicas.
Contradições – Comprava-se entre o jeito de ser do sertão e a forma avançada da Europa (Pereira e Meyer).
Amor impossível – Um amor tão puro e verdadeiro que por falta de condições de existência preferiu a morte, ou pelo menos, foram levados a ela.
Honra – Pereira para manter a honra familiar, sacrificava sua própria filha, já que sua palavra estava acima de tudo.
Beleza – É retratada através da paisagem do sertão e da jovem Inocência.
Escravidão – é representada por Maria Conga e outros.
      O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.
FOCO NARRATIVO
     O ponto de vista externo define o narrador de Inocência como um narrador onisciente, que é tendência dominante na narrativa romanesca do século XIX. É o modelo clássico, que confere plenos poderes a uma só focalização: tudo é apresentado a partir de um único ponto, com onisciência e onipresença. Esse é, sem dúvida, um modelo narrativo que atende às necessidades do romance regionalista, que focaliza a vida, os costumes, os valores sociais a partir de um único ponto de vista.
PERSONAGENS
Inocência: Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história. Inocência tem cabelos longos e pretos, nariz fino, olhos matadores, beleza deslumbrante e incomparável, faces mimosas, cílios sedosos, boca pequena e queixo admiravelmente torneado. Enfim, uma jovem de beleza deslumbrante e incomparável. Simples, humilde, meiga, carinhosa, indefesa e eternamente apaixonada.
Cirino Ferreira de Campos: prático de farmácia, autopromovido a médico ambulante. Tinha mais ou menos 25 anos, presença agradável, olhos negros e bem rasgados, barbas e cabelos cortados quase à escovinha. Era tão inteligente quanto decidido. "Doutor" Cirino era caridoso, bom doava a própria vida em defesa do amor.
Manecão: Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza. Alto, forte, pançudo e usava bigode. Enfim, vaqueiro bruto do sertão. Pessoa fria que matava, se fosse preciso, em defesa de sua honra.
Martinho dos Santos Pereira (Pereira): Homem de mais ou menos 45 anos, gordo, bem disposto, cabelos brancos, rosto expressivo e franco. Pessoa honesta, hospitaleiro, severo e não trocava a sua palavra nem pela vida. Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador.
Tico: Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar lnocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma. Guardião de Inocência. Mudo, raquítico, esperto e fez por um momento, o papel de fofoqueiro.
Meyer: Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito.
Maria Conga: Escrava de Pereira que cuidava dos afazeres domésticos. Escura, idosa e malvestida. Usava na cabeça um pano branco de algodão.
Major Martinho de Melo Taques: Homem que merecia influência na vila de Santana do Parnaíba: Juiz de paz e servia de juiz municipal. Participou da Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Era comerciante e gostava de contar casos, ou seja, "prosear".
Antônio Cesário: Padrinho de Inocência. Homem respeitado, de palavra, honesto e justo. Fazendeiro do sertão.
Guilherme Tembel Meyer: Alto, rosto redondo, juvenil, olhos claros, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louros. Pessoa de boa índole, esperto em sua função e simples ao pronunciar as sua palavras. Admirador da natureza e da beleza de Inocência.
José Pinho (Juque): Ajudante de Meyer. Era muito intrometido em conversas alheias. Pessoa boa e de confiança de seu patrão.
ENREDO
O acaso no meio do caminho
    Cirino não tinha um destino certo quando enveredou pela estrada que ligava a vila de Santana do Parnaíba aos campos de Camapuã, sul da província de Mato Grosso, fronteira de Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Sua única certeza é que devia seguir “curando maleitas e feridas brabas”(p.22), em lugares esquecidos, no sertão. Era igualmente levado pelo desejo de conhecer terras novas, lugares perdidos nos mais diversos pontos do interior da província. Por isso, não hesitou em acompanhar o falante Sr. Pereira, que, seguindo o mesmo caminho, voltava para casa depois da frustrada tentativa de conseguir remédio para a filha doente. O encontro casual com Cirino lhe trouxe não apenas um parceiro de prosa, mas também o remédio que procurava.
     Apesar da gravidade da doença, o Sr. Pereira demorou-se em conduzir o médico até o quarto da filha. Hospitaleiro, ofereceu a Cirino comida farta e pouso. Depois, com muita hesitação, dirigiu-se ao médico em sinal de alerta:
    - Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, muito amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto...
    - Por certo, concordou o outro.
   - Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e... deve portar-se como... (p.35)
     Martinho dos Santos Pereira vivia só, com a filha, no mais calado sertão. Guardava a jovem dos olhos dos viajantes, pois já havia dado sua palavra que Inocência seria mulher do tropeiro Manecão, que viajava negociando gado e cuidado dos papéis para o casamento. Era grande a responsabilidade de Pereira, já que, no seu entender, as mulheres eram frágeis, inconstantes e incapazes de seguir leis da razão. Para ele, todos os homens representavam um grande risco à sua doce e bela Nocência. Seus cuidados faziam-se ainda maiores porque Inocência era dotada de beleza incomum. Por isso, Pereira dividia com Tico, um anão mudo, a tarefa de guardar a filha. - Orgulhava-se o homúnculo de ser “uma espécie de cachorro de Nocência” (p.41).
      Contudo, quando Cirino entra no quarto escuro para examinar Inocência e, com a ajuda de uma vela, vê a moça, fica profundamente desconcertado. Mesmo doente, a jovem demonstrava uma beleza impressionante.
     Na mesma noite da chegada de Cirino, um naturalista alemão, Meyer, e seu camarada, pedem abrigo na fazenda de Pereira. O entomologista trazia uma coleção de insetos e muitas cartas de recomendação. Entre elas, uma, assinada por Francisco dos Santos Pereira, irmão esquecido do Sr. Pereira. Esse feliz acaso foi suficiente para o bom matuto perder a cabeça de alegria e se colocar totalmente à disposição do alemão. “Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brasil” (p.59), diz, emocionado, o matuto. Como prova de sua satisfação, promete apresentar-lhe a filha Inocência assim que ela se recupere.
      Os remédios de Cirino logo trazem a saúde de volta ao corpo de Inocência e, com ela, os traços vitais de sua beleza.
     Um dia, após o almoço na casa de Pereira, Inocência é apresentada a Meyer. Diferentemente de Cirino, Meyer não consegue se controlar e faz muitos elogios a Inocência. Enquanto o alemão fala, enrolando a língua, Pereira e Cirino não conseguem disfarçar o mal-estar causado pelo discurso de Meyer. Um momento patético, que abala a todos.
    Tornou-se Pereira pálido [...]; Inocência enrubesceu quem nem uma romã; Cirino sentiu um movimento impetuoso, misturado de estranheza e desespero, e, lá da sua pele de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão. (p.65)
    Sem poder voltar atrás com sua palavra, Pereira enfiou na cabeça que Meyer queria se aproveitar de Inocência. Passa a vigiar e a controlar os mínimos gestos e palavras de Meyer, deixando a filha aos cuidados de Tico e do doutor.
 Doutor enfeitiçado sem remédio para seu mal
     Cirino percebe rapidamente que, à medida que cura Inocência, torna-se ele enfermo, acometido pelo mal grave e incurável da paixão. Resolve retomar seu caminho, mas o bom Pereira protesta. É que, quanto mais Pereira suspeitava de Meyer, mais confiava em Cirino. Em nenhum momento percebe que o doutor está perdidamente apaixonado por sua filha, embora o ache meio abatido às vezes. Para evitar que Cirino vá embora, Pereira arranja-lhe muitos doentes. Quanto mais Cirino cura os males alheios, mais se conscientiza de seu triste destino. Pereira jamais voltará atrás com a palavra dada a Manecão e, para isso, gasta todo o seu tempo embrenhado na mata com o naturalista, que vai aumentando, a cada dia, sua coleção de espécies raras de insetos.
     Num desses dias, como fosse sair muito cedo com Meyer e Juca para a mata, Pereira encarrega Cirino de medicar Inocência na hora certa. O doutor passa a manhã contando todos os segundo até a hora de poder ver a moça.
      Enquanto Tico vai chamar a criada para preparar café, Cirino conversa apaixonadamente com Inocência. Ainda que não se declare abertamente, dá mostras mais que evidentes de seu sentimento. Inocência demonstra igualmente um certo envolvimento. Depois disso, torna-se cada vez mais difícil para Cirino encontrar-se com ela.
     Apesar do cerco fechado em que vive a moça, Cirino, tomado pelo desespero, bate a sua janela numa noite de luar e dá voz a sua paixão. Conversam os dois quase num sussurro e, sem muito esforço, descobre que é amado por Inocência. A paixão já não é mais segredo para eles.
O perigo está muito perto
     A ira de Pereira atinge o grau máximo no dia em que Meyer, vasculhando a mata perto de seu roçado, cai em grande euforia ao descobrir uma borboleta de uma espécie totalmente desconhecida. Pulando “como um cabrito” (p.103), anuncia que dará o nome de Inocência a seu achado. Pereira recebe a notícia como uma grande ofensa: “Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!... Até parece mangação...” (p.104).
      Depois do grande achado, Meyer, exultante e vitorioso, decide partir, deixando Pereira duvidoso quanto ao excesso de suas desconfianças:
   - [...] Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola? [...] Hoje estou convencido que o tal alamão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a bonitinha... e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou... (p.111-2).
     E a vida de Pereira retoma seu curso.
     Sem nenhuma esperança, Inocência e Cirino se encontram mais uma vez às escondidas. No laranjal, numa noite de luar, pensam numa solução para suas vidas. Cirino propõe-lhe fuga. Inocência recusa com medo de tornar uma mulher perdida, amaldiçoada pelo pai. Diante do pranto de Cirino, Inocência lembra de seu padrinho Antônio Cesário. Seu pai lhe devia dinheiro e respeitava sua vontade; se Cirino conseguisse convencê-lo a falar com Pereira, talvez eles estivessem salvos. Enquanto se abraçavam felizes e esperançosos, ouvem um assobio seguido de uma gargalhada. Cirino pega Inocência nos braços e a leva para casa. Ao voltar ao laranjal, sente algo cair sobre seus pés, pensa ser assombração. Aterrorizado, ouve um tiro disparado por ordem de Pereira, que vistoriava o pomar junto com um escravo. Cirino corre de volta para seu alojamento, aonde consegue chegar antes de Pereira. Finge não saber de nada. Nesse mesmo dia, parte em busca da ajuda de Antônio Cesário. Manecão retorna com os documentos prontos para o casamento. Inocência se assusta quando o encontra. Enfrenta o pai e noivo, desafia a palavra que tinha força de lei.
    - Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não quero... Nunca... Nunca...
    Manecão bambaleou.
    Pereira quis pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.
    - Está doida, balbuciou, está doida.
     E segurando-se à mesa, ergueu-se terrível - Então, você não quer? Perguntou com os queixos a bater de raiva.
     - Não, disse a moça com desespero, quero antes...
     - Não pode terminar. (p.138)
    Com a ajuda de Tico, que tudo sabia, o grande equívoco de Pereira é desfeito. Fulminado, mas não liquidado. Pereira autoriza Manecão a lavar a honra de sua casa. O tropeiro parte imediatamente.
Desfecho
    Cirino, por sua vez, encontra Cesário e, com muita dificuldade, expõe a ele sua situação. Cesário, desconfiado, lhe faz muitas perguntas e, por fim, pede-lhe que faça um juramento. Cirino aceita imediatamente, e Cesário, impressionado com o caráter e os sentimentos nobres do moço, que jurara sem saber o quê, promete-lhe pensar durante oito dias. Se resolvesse ajudá-los, apareceria até o final desse período; caso contrário, valeria o juramento: Cirino deveria desaparecer de suas terras e da vida de Inocência.
    No último dia do prazo combinado, Cirino espera ansiosamente ver Cesário quando depara com Manecão. Este lhe dirige algumas palavras desaforadas e, em seguida, pega sua arma e atira impiedosamente no rival. Cesário aparece. Cirino ainda tem tempo de perdoar seu algoz e de agradecer Cesário. Morre murmurando o nome de Inocência.
    O destino de Inocência é revelado no último momento da história, quando Meyer apresenta sua coleção com a espécie rara de borboleta à sociedade científica de seu país. Enquanto o naturalista alemão fala euforicamente da jovem que dera o nome a seu achado, o narrador comenta ironicamente que, havia dois anos, Inocência não existia mais.
O que se pode observar na obra
    É o romance sertanista onde mais se percebe a divisão entre o enredo central - folhetinesco e ultra-romântico - e as histórias secundárias, quase todas realistas.
     Este mesmo descompasso é visível entre o tom trágico da intriga amorosa e as passagens hilariantes das tramas paralelas.
     Apesar do excesso melodramático final, os caracteres de Cirino e Inocência nos são mostrados de forma muito mais verossímil que os personagens de outros romances românticos da época.
     Há uma forte crítica de Taunay em relação ao implacável patriarcalismo do mundo rural. O curioso é que durante quase toda a narrativa, o autor ironiza a visão machista, como nesta cômica exposição de Pereira sobre o comportamento das mulheres: Eu repito, isto de mulheres, não há que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo pau. (...) Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas também é preciso não dar asas às formigas...
     No final do relato, contudo, esta crítica amena e humorística transforma-se quase em um panfleto contra o domínio absoluto que, dentro do código patriarcalista, os pais tinham sobre os filhos.
    Importante ressaltar que o simplório Pereira, além de possuir boa índole, ama desesperadamente a filha. Portanto, também ele nos é mostrado como vítima dos costumes patriarcais.
    Meyer, o naturalista alemão, sábio das coisas da ciência, porém incapaz de perceber a estreiteza moral do mundo em que está metido, é um dos protagonistas mais engraçados da ficção brasileira do século XIX. Suas trapalhadas são impagáveis.
    O romance apresenta uma curiosa mescla de linguagem culta urbana e termos regionais (arcaísmos, corruptelas, provérbios, expressões típicas). Estes "regionalismos", na sua maioria, são explicados pelo próprio autor, em notas ao pé das páginas. O resultado dessa junção é uma prosa bastante viva, colorida e com acentos humorísticos na sua formulação.


 O REGIONALISMO DE VISCONDE DE TAUNAY
         Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras. Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil.
         Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube conjugar as ca-racterísticas fundamentais da estética romântica com grande acuidade na construção de tipos e na descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas.
         É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa.
O REGIONALISMO EM INOCÊNCIA:
         1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de Inocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.
         2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas.
         3. Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então.
         4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no quarto", "é bom não se canhar as-sim", "sestiando", "Nhor-sim", "quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta.
         5. Reforça-se uma das principais características do Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado amor, cuja impossibilidade de realização leva os protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência definitiva do amado.
         6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão mato-grossensse, que são identificados desde elementos do vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem.
         7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os sertanejos têm sobre as mulheres.
         8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o homem por quem Inocência morre.

         9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e infalível característica o homem é produto do meio ou seja, as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam.
         10. Predomina a emoção sobre a razão, além da supervalorização do amor.
ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS
· INOCÊNCIA:   Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história.
· MANECÃO:     Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza.
· PEREIRA:        Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador.
· TICO:         Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar Inocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma.
· MEYER:         Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito.
· PADRINHO:      Aparece no romance com a desculpa de ajudar, mas não chega a tempo de sal-var Cirino, era a única pessoa que poderia ter feito algo para ajudar o casal de apaixonados.
RESUMO
         O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Órfã de mãe desde o nascimento, Inocência é criada pelo pai, Pereira, um mineiro afetuoso, um sujeito conservador, durão, para quem os valores da palavra, da honra estão acima de tudo, até da felicidade da filha que ele ama.
         Pereira decide casar Inocência com Manecão Doca, homem honrado, trabalha-dor, rude e que acumulou fortuna.
         A história conta sobre Cirino, um prático de enfermagem que se apresentava como médico (curandeiro) que errava pelo sertão e acaba na casa de Pereira. Ele cura Inocência, filha deste, de malária e apaixona-se. Cirino foi o primeiro homem a despertar realmente as emoções do amor, criando nela uma grande perturbação íntima, pois estava prometida a Manecão. Aparece depois Meyer, um naturalista alemão, que viajava em busca de insetos, que após inocentemente elogiar a beleza de Inocência, passa a ser vigiado incessantemente por Pereira, dando oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com a moça.
         Meyer fica por lá por que trazia uma carta de recomendação de Francisco (Chico) irmão de Pereira e sai mais tarde de volta a Saxônia para apresentar uma nova espécie de rara beleza que encontrou, à qual dá o nome de Papilio Innocentia (uma borboleta). Tinha também o anão Tico, espécie de cão de guarda de Inocência.
         Com a partida de Meyer, as coisas se complicam, aumentando o medo de Inocência, que teme uma reação violenta do pai caso venha a saber do romance. A jovem instrui Cirino a procurar seu padrinho para que ele convença Pereira a concordar com o rompimento do compromisso com Manecão.
         Inocência herdeira da teimosia do pai, não abre mão de seu amor, então comunica ao pai a intenção de não se casar, inventa que sonhou com a mãe e esta lhe disse que o casamento não deveria se realizar. A jovem quase consegue atingir seus objetivos, quando derruba sua história. Ela, não conheceu a mãe, portanto não sabia que ela tinha um sinal no rosto, então ela pede desculpas ao pai, que declara que prefere vê-la morta a vê-la desonrada.
         Na ausência de Cirino, porém, o romance é descoberto através de Tico.
         Enquanto Cirino está fora Inocência e Manecão, se encontram e ela se recusa a viver com ele. A suposta desonra leva Manecão a perseguir e matar Cirino, que morrendo encontra o padrinho de Inocência que vinha lhe ajudar. Inocência também morre, só que de tristeza em face da ausência definitiva do amado.
Resumo de Jussara Flores de Oliveira


O REGIONALISMO ROMÂNTICO E NATURALISTA NA PROSA DE FICÇÃO:
IMPORTÂNCIA PARA A HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA
Márcia Edlene Mauriz Viana
     Para se entender a História da Literatura Brasileira sob o foco do regionalismo na prosa de ficção brasileira, é essencial considerar dois períodos  literários: o Romantismo e o Naturalismo, tendo em vista que foram esses os períodos literários que legitimaram o surgimento da literatura regionalista no Brasil. Com o objetivo de construir o texto historiográfico, recorreu-se aos historiadores Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Nelson Werneck Sodré  e Alfredo Bosi. A escolha desse  corpus  teve como critério o fato de esses autores serem  alusivos à importância do regionalismo romântico e naturalista no processo de discussão da questão nacional.
    Ao propor-se um estudo sobre o regionalismo, como vertente literária, faz-se necessário a delimitação desse termo, visto que  se encontra eivado de vários significados. Afrânio Coutinho, em  A literatura no Brasil (1986), em consonância com Georg  Stewart, define regionalismo de duas maneiras. Em sentido amplo, “toda obra de arte é regional quando tem por pano de fundo alguma região em particular ou parece germinar intimamente desse fundo [...].
     Mais estritamente, para ser regional, uma obra de arte não somente tem que ser localizada numa região, senão também  deve retirar sua substância real
desse local”
      Os românticos, ao revelarem o Brasil, assim como o sertanejo, buscavam uma identidade nacional que se encontrava atrelada à literatura portuguesa, cuja “dependência” a literatura brasileira necessitava libertar-se.
     A História do Regionalismo, na visão do historiador, continuou no Realismo-Naturalismo com a mesma  concepção do Romantismo, fugindo, apenas, do saudosismo e dos escapismos românticos, para considerar a existência verossímil do homem em sua região. O regionalismo, na prosa de ficção brasileira, diz Coutinho, “nasceu, sem dúvida, sob o signo do Romantismo para, depois,misturar-se às receitas naturalistas e realistas, sob a influência de Zola e Eça de Queiroz”
      Logo, o Romantismo proporcionou a valorização dos elementos locais,  análise e interpretação da realidade brasileira.
     Nesse contexto, o historiador defende o estudo do regionalismo baseado nas regiões culturais e na importância da produção literária e não na divisão geográfica do país. Para tanto, ele estabelece seis regiões: grupo nortista, grupo nordestino, grupo baiano, grupo central, grupo paulista e grupo
gaúcho.
    No Romantismo estão alguns pioneiros dessas regiões. No grupo central, Bernardo Guimarães representa o cerrado mato-grossense em  O ermitão de Muquém (1865), O garimpeiro (1872) e A escrava Isaura (1875). Visconde de Taunay, a região centro-leste em  Inocência (1872). No grupo
nordestino, o cearense Franklin Távora em  O Cabeleira (1876),  O matuto(1878) e Lourenço (1881). José de Alencar, o pai fundador de nossa prosa de ficção, em O gaúcho (1870), Til (1872) e O sertanejo (1875).
    No período do Realismo-Naturalismo, o regionalismo apresenta-se de forma mais documental sobre as diversidades regionais, revelando novos dados da realidade nacional. Alguns autores se destacam em suas respectivas regiões como, por exemplo: no grupo  nortista, Inglês de Sousa,  com  Omissionário (1888) e Contos amazônicos (1893). No ciclo nordestino, Afonso Arinos escolheu o sertão nos contos de Pelo Sertão (1898) e, no romance, Os jagunços, do mesmo ano, sobre a Guerra de Canudos. No Ceará, formaram-se vários grupos de escritores ideologicamente ligados ao naturalismo e às causas da Abolição e da República. A seca do Nordeste é um tema constante, através de vários intérpretes, como Domingos Olímpio em  Luzia-homem(1903), narrando a história de uma retirante da seca de 1877; Rodolfo Teófilo, em  A fome (1890), abordando o drama da seca e da migração; Manuel de Oliveira Paiva, em Dona Guidinha do poço (1952), que reúne a língua literária à riqueza da fala sertaneja como forma de apresentação da realidade entre o homem, o meio social e o sertão.
     Ademais, a proposição de regionalismo, pensada por Coutinho, é sustentada nas fontes documentais de dois grupos teóricos distintos. O primeiro é constituído pelos ingleses Georg Stewart, Howard W. Odum e outros, com suas obras gerais sobre regionalismo. O segundo é formado pelos textos dos seguintes brasileiros: Gilberto Freire, Machado  de Assis, José Veríssimo, Augusto Meyer, Franklin Távora, Sílvio Romero, Lúcia Miguel, dentre outros, e tem como fonte principal a obra Introdução ao estudo da literatura brasileira de Brito Broca e J. Galante de Sousa. Assim, a organização teórica da obra de Afrânio Coutinho sofre influência do pensamento europeu e do brasileiro acerca do tema regionalismo.
    É relevante dizer, então, que o estudo do regionalismo, apresentado pelo autor em foco, traz como contribuição os seguintes aspectos: o conceito de regionalismo, mesmo sendo este atrelado ao pensamento do inglês George Stewart; o levantamento dos autores e das obras regionais da ficção brasileira, divididos pelas regiões culturais.
    Antonio Candido, em  Formação da literatura  brasileira: momentos decisivos 2000, reconhece que um dos aspectos formadores do Romantismo foi o nacionalismo, já evidente em José de Alencar, que lança as bases do romance brasileiro com um dos seus filões, o regionalismo, proporcionando um caminho que leva ao Naturalismo e às obras de Franklin Távora e de Visconde
de Taunay.
     O historiador acentua que a literatura do Naturalismo busca, como  definiu Viana Moog, “um regional autônomo e diferente, caracterizado pelo seu  genius loci particular”que, na opinião de Antônio  Candido, encontra-se no Nordeste, ilustrado nos romances de Franklin Távora. Antônio Candido afirma,  ainda, que o regionalismo de Távora funda-se  em três elementos que se constituem, em proporções variáveis, na principal  argamassa do regionalismo do Nordeste:
      Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona tão  estreitamente a vida de toda a região, marcando o ritmo da sua história pela famosa “intercadência” de Euclides da Cunha. Em seguida, o que se poderia chamar patriotismo regional, orgulhoso das guerras holandesas, do velho patriarcado açucareiro, das rebeliões nativistas. Finalmente, a disposição polêmica de reivindicar a preeminência do Norte, reputado mais brasileiro [...]
    Conforme Antônio Candido, “Távora foi o primeiro ‘romancista do Nordeste’, no sentido em que hoje entendemos a expressão; e, deste modo, abriu caminho a uma linhagem ilustre, culminada pela geração de 1930, mais de meio século depois das suas tentativas, reforçadas a meio caminho pelo baiano fluminense d’ Os sertões”.
    O historiador sublinha, entretanto, que:  a virtude maior de Távora foi sentir a importância literária de um levantamento regional; sentir  como a ficção é beneficiada pelo contacto de uma realidade, concretamente demarcada no espaço e no tempo, que serviria de limite e em certos casos, no Romantismo, de corretivo à fantasia.
     Em uma explanação densa e rápida, Antônio Candido gerou uma História  da Literatura Regional, pautada basicamente em obras e autores que considerava expressivos.  Mas, para construir o texto, foram utilizados como fontes, os escritos Viana Moog, João Ribeiro e José Veríssimo.
     Nelson Werneck Sodré, em  História da literatura brasileira: seus fundamentos econômicos  (1995), tece comentários  acerca do regionalismo romântico e do naturalista (intitulando o romântico de “sertanismo” e o realista de “regionalismo”) estabelecendo, em toda a sua obra, as diferenças entre ambos e defendendo a tese de que o “regionalismo, a rigor, começa a existir quando se aprofundam e se generalizam,  a ponto de surgirem em zonas as mais diversas manifestações, a que o romantismo não poderia fornecer os elementos característicos”
. Dentre as manifestações, cita-se a de conteúdo,  na visão do crítico, Augusto Meyer: “As paisagens, como os textos, só falam quando são interrogados. Tudo é mudo nas formas a que não sabemos insuflar um verbo”
     Uma outra diferença crucial, entre o regionalismo romântico e o realista, pontuada por Nelson Werneck, é a transplantação da cultura européia sobre a dos povos de formação colonial, como é o caso do Brasil. Esta transplantação, recebida no período romântico brasileiro, provocou um sentimento de exílio - o de sermos estrangeiros em nossa própria terra. Daí a deformação do regionalismo “sertanista” que, segundo Werneck,  se despoja, assim, de qualquer sentido local ou zonal. Porém, com o “regionalismo”, como assevera o autor, isso não acontece. Existem nele deformações e fraquezas, mas este já se aproxima do ambiente que o romancista pretende retratar.
     Diz o historiador que a prosa do Romantismo peca também por excesso, além de pecar por falta, pois coloca o ambiente acima da criatura. Todavia, o “regionalismo”, ao contrário, entende o indivíduo apenas como síntese do meio a que pertence. Peca, também, por excesso, ao conferir às exterioridades, ou seja, à conduta social, à linguagem, etc, uma importância exclusiva. Além disso, procura ostentação, o exótico e o estranho. Para o autor, esse pecado não inutiliza a sua contribuição, porque, em casos numerosos, a ficção regionalista se enriquece com os traços que o naturalismo acolheu, peculiares à vida coletiva, principalmente, o quadro físico.
       Segundo Nelson Werneck Sodré,  ‘o regionalismo’ revelou o Brasil aos brasileiros, apesar de seus quadros pejados de natureza ou dos entraves da erudição verbalista que proporcionou em muitos casos. Procurou dar à cor local um sentido mais profundo do que o trazido pelo sertanismo
    Assim, fica claro para o leitor a posição teórica de Nelson Werneck Sodré sobre o regionalismo romântico e naturalista no Brasil, ao construir a sua História da Literatura Brasileira. Por ser o primeiro historiador nacional a ter escrito uma História da Literatura na visão marxista, é natural que ele assuma uma postura comprometida com a busca de uma identidade nacional que, para
o teórico, encontra-se no período Naturalista.
     O historiador, ao elencar, em sua   História da Literatura, as obras e os autores regionalistas, a partir da produção naturalista, concede um espaço significativo ao grupo do Sul, especificamente ao Simões Lopes Neto – maior expressão do regionalismo do Sul.  Notadamente,  Nelson Werneck, ao encerrar o seu texto, reconhece que:
[...] o regionalismo correspondia, inequivocamente, a um grande avanço no sentido da criação de uma literatura nacional. Os primeiros traços desta encontram-se, sem dúvida alguma, nos melhores
regionalistas, naqueles que conseguiram superar as deficiências ligadas principalmente ao geografismo e ao linguajar. Eles nos deram, dentro do regional mais genuíno, o sentido universal que denuncia a presença da qualidade literária, quando esta é alguma coisa mais do que simples virtuosismo formal
            Enfim, Nelson Werneck, para elaborar a sua História da Literatura Brasileira, no capítulo Regionalismo, recolheu material nas fontes documentais de Augusto Meyer, de Afrânio Coutinho, de Sílvio Romero, de Lúcia Miguel Pereira e de Alcides Maia, procurando esboçar, ou melhor, capturar informações que se aproximassem do texto regionalista brasileiro.
    Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira (1989), ratifica que um dos aspectos formadores do Romantismo foi o nacionalismo, presente em José de Alencar.
        Todavia, o historiador acrescenta que “as várias formas de “sertanismo” (romântico, naturalista, acadêmico e  até modernista) que têm sulcado as nossas letras, desde os meados do século passado, nasceram do contato de uma cultura citadina e letrada com a matéria bruta do Brasil rural, provinciano e arcaico”
     Desta feita, segundo Bosi, o fazer “sertanismo” (romântico e naturalista), no século XIX, estava subjugado ao fato de o escritor “projetar os próprios  interesses ou frustrações na sua viagem literária à roda do campo”
      O resultado para o historiador é que o regionalismo está fadado a ser literatura de segundo plano.
     Contudo, Bosi ressalta  três nomes na prosa de ficção romântica e  realista, em condições de representar o regionalismo desses períodos literários: Bernardo Guimarães, Visconde de Taunay e Franklin Távora. 
    Portanto, a preocupação de Alfredo Bosi, ao escrever a sua História da Literatura Regional, é, acima de tudo, chamar a atenção para o fazer literário do texto romântico e realista, que, na sua concepção, aparece sem um modelo ideológico e estético, apresentando, igualmente, deformação mimética. Para concretizar o objetivo de sua escritura, Alfredo Bosi utilizou, como fontes, as teorias de Nelson Werneck Sodré, de José Aderaldo Castelo, de Hugo de Carvalho Ramos, entre outros.
     Em suma, diante da posição dos autores escolhidos, para compor o  corpus dessa História da Literatura de foco regionalista romântico e naturalista, chega-se à conclusão que, no sulco do Romantismo, nasceu o regionalismo que mostrou o Brasil, o homem do sertão  e as várias regiões culturais aos brasileiros. Em um formato de descoberta do próprio país, através da literatura, o Romantismo revelou as diferenças de cada região, presentes  no clima, na paisagem, na cultura, na sociedade  e na língua. Assim, o trabalho do Naturalismo foi manter os valores conquistados pelo Romantismo e acrescentar os seus que estão pautados no cientificismo e na descrição desapaixonada dos fatos. Uma contribuição que equilibra a caminhada do regionalismo  rumo ao Modernismo

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