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domingo, 8 de julho de 2012

ARCADISMO: "CARTAS CHILENAS" E "VILA RICA"

CARTAS CHILENAS, de Tomás Antônio Gonzaga

   Cartas Chilenas é um conjunto de poemas, escritos em versos decassílabos e brancos, com uma metrificação parecida com a da epopeia, e circularam anonimamente em Vila Rica, entre 1787 e 1788, seus versos assumem um tom satírico. 
  É uma obra satírica, constituindo poema truncado e inacabado (13 cartas), na qual um morador de Vila Rica ataca a corrupção do Governador Luís da Cunha Menezes. Aponta as irregularidades de seu governo, configurando o ambiente de Vila Rica ao tempo da preparação política da Inconfidência Mineira. Em julho deste ano de 1878, Cunha Menezes deixaria o governo de Minas, em favor do Visconde de Barbacena. 
Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago. Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados, como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a igreja do Pilar. O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.
   A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.
  Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.
    Para Critilo, o arbitrário Governador constituía, de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade.
  Entretanto, não se nota nas Cartas nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do governador Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.
   Sendo anônimo o poema e tendo permanecido inédito até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria, embora a tradição mais antiga apontasse Gonzaga sem hesitação. Falou-se depois em Cláudio, em Alvarenga Peixoto, em colaboração etc. Estudos empreendidos neste século, culminando pelos de Rodrigues Lapa, vieram dar praticamente a certeza da atribuição a Gonzaga.
   É tida como uma das mais curiosas sátiras de todos os tempos em Literatura Brasileira (junto com Antônio Chimango). Quem assina essas cartas é um certo Critilo, que escreve a um amigo, Doroteu. O contexto também era diverso, já que o clima de opressão e a tensão política deveriam se asilar no apócrifo.
   As Cartas têm em Cunha Menezes (no texto, batizado com o singelo nome de Fanfarrão Minésio) o seu protagonista. Além do viés satírico, a obra constitui um interessante quadro dos costumes daquela época e um registro precioso do que era a corrupção no Brasil já desde os tempos da Colônia. Critilo, por sua vez, escreve do Chile.
Carta 1ª (fragmentos)
Não cuides, Doroteu, que vou contar-te 
por verdadeira história uma novela 
da classe das patranhas, que nos contam 
verbosos navegantes, que já deram 
ao globo deste mundo volta inteira. 
Uma velha madrasta me persiga, 
uma mulher zelosa me atormente 
e tenha um bando de gatunos filhos, 
que um chavo não me deixem, se este chefe 
não fez ainda mais do que eu refiro.
................................................................................ 
Tem pesado semblante, a cor é baça, 
o corpo de estatura um tanto esbelta, 
feições compridas e olhadura feia; 
tem grossas sobrancelhas, testa curta, 
nariz direito e grande, fala pouco 
em rouco, baixo som de mau falsete; 
sem ser velho, já tem cabelo ruço, 
e cobre este defeito e fria calva 
à força de polvilho que lhe deita. 
Ainda me parece que o estou vendo 
no gordo rocinante escarranchado, 
as longas calças pelo embigo atadas, 
amarelo colete, e sobre tudo 
vestida uma vermelha e justa farda.

VILA RICA, de Cláudio Manuel da Costa

Análise da obra
    Epopeia escrita por Cláudio Manuel da Costa em 1773, inspirado pelo poema O Uraguai, de Basílio da Gama. Poemeto épico-clássico, à maneira de Os Lusíadas, de Camões.
Atente aos comentários de Hélio Lopes, sobre o poema Vila Rica:
   A estrutura labiríntica do Vila Rica se realiza quando Albuquerque inicia sua viagem pelo interior de Minas, o herói está diante do desconhecido e tudo parece se opor à conclusão da sua jornada, mas a medida que ele vai conhecendo os segredos da terra, que em suas ações diante dos conflitos demonstra justiça e inteligência, o desconhecido vai se revelando e o herói acaba por encontra o lugar ideal para fundar sua cidade. 
    Vimos a Terra, a Natureza e os Mitos criando o labirinto. O mesmo poema, no entanto, assim construído, vem a desnortear também o leitor pela construção de várias narrativas que de súbito se interrompem, depois mais adiante retomam o fio ou tomam outro aspecto como o do amor de Garcia e Aurora para, encontrado o 'centro', desembocar no Canto, onde apenas se acaba vendo o Itamonte, o Gênio da Terra e Albuquerque irmanados na alegria de conquistado o alvo. Esta confusa estrutura, essencial, no entanto, à obra, foi e continua o motivo para considerar o Vila Rica defeituoso, ininteligível e mal composto.
    O poema tem um enredo que foge aos padrões clássicos exatamente por ter uma estrutura de rapsódia, onde três principais focos narrativos se cruzam. Primeiro, o drama de Garcia, em segundo, a missão pacificadora e organizadora de Albuquerque e o terceiro foco narrativo, a luta dos revoltosos. Esse cruzamento de focos narrativos é que compõe o labirinto do poema. Observa Hélio Lopes como a estrutura do poema parece confusa a uma leitura menos atenta do poema: 
   A construção literária de Vila Rica desnorteia. Os cortes violentos dos episódios, justificados no desenrolar da ação, depois as retomadas do fio partido ocasionam natural perplexidade e causam no leitor a imagem de um texto caótico. Os acontecimentos caminham entre paradas súbitas e recuperam a linearidade sem aparente justificativa. Cria-se o desequilíbrio. A visível instabilidade do texto deixa, evidentemente, o leitor por sua vez jogado de um a outro ponto.
    A Associação entre mitologia helênica e aspectos da selva brasileira dá um tom de tentativa de colocação da terra bárbara na esfera da tradição clássica, uma tentativa de valorização da terra, só que segundo os padrões clássicos vigentes: 
"Quando Cláudio exila para as serranias mineiras sanguinolentos filhos da terra, sacraliza helenicamente o território onde os indígenas haviam já descoberto, nas pedras, a origem mítica daquela parte do mundo: o menino de pedra junto à mãe, mas não iam além do que os olhos pareciam mostrar." (LOPES, Hélio. Introdução ao Poema Vila Rica. p.78- 79) 
    Outra figura criada por Cláudio Manuel da Costa é o Gênio da Terra, que a certa altura é nomeado como Filiponte, Philos, do grego: amigo, Pons-tis, do latim: ponte. Seu nome é assim composto só por elementos linguísticos greco-romanos. Não havendo no seu nome partícula de origem tupi, não apresentará esse personagem nenhum aspecto dúbio quanto à sua posição no poema, é um ser que trabalha pelo sucesso da expedição de Albuquerque. Efetivamente, é a figura que terá como função unir os desbravadores com a terra selvagem. Gênio da concórdia que auxilia decisivamente o herói Albuquerque na tarefa de conciliar os revoltosos e de encontrar o caminho procurado.
   Outra figura mitológica e híbrida criada pelo autor é a ninfa Eulina, que primeiramente comparecera no poema Fábula do Ribeirão do Carmo. Um aspecto identificador de sua hibridez é sua aparência, ninfa, abandonada por Apolo, tem semelhança com o mito indígena da Mãe D'água, pois encanta Garcia e o leva para o fundo dos rios onde esconde seus tesouros. É a sereia indígena Ipupiara, nome aportuguesado depois para Iara. 
"Ouve Garcia o canto, e não atina 
De onde tanto prodígio, mas de Eulina 
A delicada face está patente: 
Fita os olhos, e vê desde a corrente 
Lançar a mão à praia a Ninfa bela, ,
Toma uma areia de ouro, e já com ela 
Pulveriza os cabelos: neste instante, 
O sonho de Albuquerque o faz avante 
Passar, os braços abre, a Ninfa chama; 
Ela o vê, e não teme, e já se inflama 
De amor por ele: aos braços o convida, 
E abrindo o seio o rio, uma luzida 
Urna de fino mármore os sepulta 
Recebendo-os em si: ficou oculta 
A maravilha a quantos o acompanham. 
Em busca de Garcia já se entranham 
Pelo matos mais densos; mas perdida 
A esperança de achá-lo, e recolhida 
Volta ao herói a esquadra aventureira." 
                                     (Vila Rica. Canto VII) 
   Essas criações mitológicas de Cláudio Manuel da Costa conferem ao poema algum brilhantismo que tem passado despercebido à crítica. Se por um lado seus mitos são uma transposição do ideal clássico sobre a terra bárbara, o que permite acusá-lo de submissão cultural aos modelos da metrópole, ao colonizador, por outro também representam uma tentativa de colocação de nossa literatura dentro do panorama da tradição épica através da criação de mitologia própria, mas aparentada com a grega e com um enredo original e de caráter moderno, associado à figura de um herói que não se destaca pelo poder bélico mas por sua capacidade administrativa. 
    Ora, para a época, só com essa hibridez mitológica poderia o autor aproximar do gosto árcade do leitor europeu seu poema com sabor de "espremido licor nos fundos cobres"(Canto X)[4] , enobrecendo a terra brasileira com uma relação fraternal e cosmopolita com a mitologia greco-romana. Não foi Lisboa fundada por Ulisses, nem é Adamastor um gigante de origem helênica? Sendo nossas terras colonizadas e dominadas por Portugal seria justo que sua mitologia fosse híbrida, fruto da associação dos povos que formaram nosso povo. As figuras mitológicas do autor são personagens da selva, de estirpe nobre e que auxiliam, de um modo ou de outro, o herói na sua tarefa, tendo este como principal obstáculo não o Itamonte, mas sim a desunião entre seus compatriotas. 
"Estamos, disse, em uns países novos, 
Onde a polícia não tem ainda entrado, 
Pode o rigor deixar desconcertado 
O bom prelúdio desta grande empresa. 
Convém que antes que os meios da aspereza 
Se tente todo o esforço de brandura. 
Não é destro cultor, o que procura 
Decepar aquela árvore, que pode 
Sanar, cortando um ramo, si lhe acode 
Com sábia mão a reparar o dano; 
Para se radicar do soberano 
O conceito, que pede a autoridade, 
Necessária se faz uma igualdade 
De razão e discurso; quem duvida, 
Que de um cego furor corre impelida 
A fanática idéia desta gente? 
Que a todos falta um condutor prudente 
Que os dirija ao acerto? Quem ignora 
Que um monstruoso corpo se devora 
A si mesmo, e converte em seu estrago 
O que pensa e medita? Ao brando afago 
Talvez venha ceder: e quando abuse 
Da brandura, e obstinados se recuse 
A render ao meu Rei toda a obediência, 
Então porei em prática a violência; 
Farei que as armas e o valor contestem 
O bárbaro atentado; e que detestem 
A preço do seu sangue a torpe idéia. Disse; e deixando a todos a alma cheia 
De uma nobre esperança, já passava 
A saber de Garcia, nem lhe dava 
Notícia dele algum dos três Pereiras." 
                             (Vila Rica, Canto VII) 
A terra a ser desbravada guarda segredos que somente os mais venturosos têm condições de revelar, de conhecer. No Vila Rica, o motivo histórico, a fundação da cidade, parece um mero pretexto para o conhecimento da nova terra. Nesse sentido soam proféticas os versos finais do poema: 
"Enfim serás cantada, Vila Rica, 
Teu nome impresso nas memórias fica. 
Terás a glória de ter dado o berço 
A quem te faz girar pelo universo." 
                   (Canto X, v.199-202) 
  Comparece ainda no poema um personagem mitológico legitimamente indígena, o Curupira, que tem os pés virados pra trás. Apresentado pelo poeta como "deus destes tesouros", conforme nota 58 do poema. Este personagem falava aos desbravadores da expedição de Albuquerque que Itamonte era figura monstruosa e horrível, buscava assim dissuadi-los de sua empreitada. Com a conquista do Itamonte desfaz-se o encanto do Curupira. O personagem da mitologia indígena é um personagem a tentar impedir o domínio e o conhecimento da terra por parte do herói. 
"Já desde quando no projeto vinhas 
De encontrar as preciosas esmeraldas, 
Eu te esperava deste monte às faldas. 
O Deus destes tesouros impedia 
Até aqui descobrí-los, e fingia 
Meu rosto aso homens tão escuro e feio 
Por que infundisse em todos o receio." 
                         (Vila Rica. Canto VIII, v.189-195) 
    O poema épico de Cláudio Manuel da Costa parece que apresenta uma matéria mítica que suplanta à matéria da narrativa histórica e, de tal modo, que se não atentarmos para ela e ficarmos somente avaliando esse poema em função de características como distância histórica do fato narrado, importância do fato narrado, características do herói, ou ainda, se ficarmos a comparar a linguagem da epopéia no autor com os seus versos da lírica, teremos que compactuar com a posição daqueles críticos que consideram tal obra menor, de importância apenas documental. 
    Podemos também dizer que o poeta perdeu uma boa oportunidade de construir um poema épico sobre os bandeirantes ao transformar o episódio de Borba Gato, p.ex.,em algo menor dentro da estrutura do poema.
   Vejamos os versos do episódio no Canto VI em que o poeta exalta os bandeirantes paulistas. Notemos como o poeta, após enumerar os nomes dos bandeirantes, diz que se as ninfas do Tejo exaltam a viagem de Vasco da Gama (referência indireta aos Lusíadas), o poeta diz que dos paulistas honrará a fama, embora o Vila Rica não tenha se efetivado como um poema sobre as Bandeiras. Parece que em algum momento da composição do poema o autor pensou em torná-lo obra representativa, na literatura, das expedições bandeirantes, porém o poema apresenta como herói Albuquerque, enviado da corte portuguesa, e não um aventureiro paulista em busca de riquezas. Não é a corrida do ouro o seu mote, mas a fundação da cidade natal do poeta. Os bandeirantes, no poema, preenchem o episódio de Borba Gato e participam auxiliando Albuquerque na conquista das Minas. 
"Levados de fervor, que o peito encerra 
Vê os Paulistas, animosa gente, 
Que ao Rei procuram o metal luzente 
Co'as próprias mãos enriquecer o erário. 
Arzão é este, é este, o temerário, 
Que da Casca os sertões tentou primeiro: 
Vê qual despreza o nobre aventureiro, 
Os laços e as traições, que lhe prepara 
Do cruento gentio a fome avara. 
A exemplo de um contempla iguais a todos, 
E distintos ao rei por vários modos 
Vê os Pires, Camargos e Pedrosos, 
Alvarengas, Godóis, Cabrais, Cardosos, 
Lemos, Toledos, Paes, Guerras, Furtados, 
E os outros, que primeiro assinalados 
Se fizeram no arrojo das conquistas, 
Ó grandes sempre, ó imortais Paulistas! 
Embora vós, ninfas do Tejo, embora 
Cante do Lusitano a voz sonora 
Os claros feitos do seu grande Gama; 
Dos meus Paulistas honrarei a fama. 
Eles a fome e sede vão sofrendo, 
Rotos e nus os corpos vem trazendo, 
Na enfermidade a cura lhes falece, 
E a miséria por tudo se conhece." 
                  (Vila Rica, Canto VI) 
   Notemos como o poeta usa os pronomes pessoais "meus" e "seu" ao contrapor os bandeirantes paulistas com Vasco da Gama. São versos como esses que confirmam explicitamente o sentimento nativista que já se fazia sentir no imaginário do poeta. 
   Parece que existe um jogo nessa obra entre o real e o imaginário, de modo que as principais ações são mediadas pelo mágico, haja visto entre tantos exemplos que podemos citar, como o momento em que os revoltosos são assombrados por terríveis figuras na noite, ou a revelação de Filiponte na gruta perante Albuquerque, ou ainda o episódio em que Eulina leva Garcia para o fundo das águas, mas pretendo destacar nesse sentido o episódio em que Argasso mata Aurora. Julgando ver no lugar de sua amada, que fora, aliás, motivo de disputa entre o índio e Garcia, uma fera, e estando em caçada, flechando o animal visto, descobre após, tratar-se de sua amada. Não podemos deixar de comparar esse episódio com o da morte de Lindóia em O Uraguai. 
"Terifea a ocasião julga oportuna, 
Põe os olhos no Céu, alta coluna 
Levanta, e firma em terra; já sobre ela 
se ergue e murmura e nota cada estrela 
Com o dedo, depois desce e riscando 
Muitas vezes em roda, vai tocando 
A coluna, que treme e que se move: 
Tolda-se em sombra o ar, troveja e chove: 
E o tronco de entre a nuvem que o cobrira, 
Sai figurando um tigre, que respira 
Fogo e veneno pelos olhos; passa 
Com ele ao monte, e o guia onde a caça 
Se tenta e busca; aqui dormia Aurora; 
Dormia; e junto aos pés branda e sonora 
Fontesinha o repouso convidava; 
O peito em grande parte debruçava 
Sobre uma penha, e ao gesto brando e lindo 
De encosto o mole braço está servindo, 
]Chega a Maga cruel, põe-lhe diante 
A fera, que conduz, e ao mesmo instante 
Se oculta em parte, onde o sucesso veja: 
O cuidado de a ver, ou fosse a inveja 
Aquele sítio encaminhava os passos 
Do destemido Argasso; entre embaraços 
De mal distintos ramos já descobre 
O mosqueado tigre, ao braço nobre 
O crê despojo, e de matá-lo espera, 
Firme o pé desde longe aponta a fera, 
E atrás puxando o braço a seta envia, 
Que vai cravar no monstro a ponta fria. 
Corre gritando, ó Césa, e vê passado 
De Aurora o peito; em vão busca assombrado 
O tigre, que não há: já desfalece 
A pouco e pouco a bela: a mágoa cresce 
No mísero homicida, clama e grita, 
Atroa aos Céus, e contra os Céus se irrita, 
Nem mais a vida, que estimara, preza; 
Arroja o arco, e à infeliz beleza 
Consagra de seu corpo o último resto." 
                                 (Vila Rica, Canto VI) 
    Nesse momento vemos como os segredos mágicos da terra são tais que apresentam mal fado até aos nativos, desde que imprudentes. Argasso fora enganado pelo sentido da visão. 
Tal engano de Argasso ocorre devido à magia da feiticeira Terifea, que assim procede atendendo ao pedido da também pretendente ao amor de Argasso, Eulinda, que oferece à feiticeira duas crianças para que a bruxa faça com estas um ritual de antropofagia que lhe apraz. Esse motivo parece ser de uma lenda indígena que, como aponta Hélio Lopes inclusive, aparece em Macunaíma, de Mário de Andrade. Nesse episódio vemos como a matéria mítica do poema fornece elementos que definem a estrutura do poema. E de tal modo há no enredo um conjunto de mitos criados pelo poeta ou de mitos retirados do fabulário nativo, que o poema parece mais uma épica em forma de rapsódia do que o poema que apenas canta a fundação de uma cidade. Propositadamente ou circunstancialmente, não vem muito ao caso, o poema de apresenta algumas características que transgridem o modelo.


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