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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A 3ª GERAÇÃO MODERNISTA - GERAÇÃO DE 1945: CLARICE LISPECTOR

2.CLARICE  LISPECTOR



(1925-1977) Nascida na Ucrânia, veio ara o Brasil com dois meses de idade, vivendo até os 12 anos no Nordeste. Desde pequena lia muito, interessando-se por autores nacionais e estrangeiro. Formou-se em Direito e trabalhou como jornalista. Casou-se com um colega e morou em diversos países estrangeiros, devido à profissão do marido, do qual se separou em 1950, voltando pra o Brasil. Continuou a escrever sempre, além de fazer traduções e crônicas para jornais e revistas, a fim de sobreviver.
É considerada uma das maiores cronistas do Brasil e, estilisticamente, está no primeiro plano dos escritores Brasileiros. Ela mesma nunca soube explicar seu processo de criação. Dizia-se mais uma “sentidora” do que uma escritora.De feto, as histórias de Clarice raramente têm um enredo (começo meio e fim). Por isso, seus livros, mais do que histórias, contêm impressões.
Seus romances são introspectivos (voltam-se para o íntimo de seus personagens), sem se preocupar com o enredo, mas com o seu EU. A linguagem contém como que uma armadilha enganosa. Como sua narrativa segue o fluxo da consciência, importa é contar a vivencia interior dos personagens e a complexidade de seu aspecto psicológico. Cria figuras insólitas e altamente poéticas, pelas observações em linguagem dissertativa pelo narrador , que se intromete e julga comportamentos das personagens ou justifica seus atos.
Obras:
ESCRITOS NO EXTERIOR: O LUSTRE, A CIDADE SITIADA, A MAÇÃ, NO ESCURO, LAÇOS DE FAMÍLIA. INFANTIS: O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE, A MULHER QUE MATOU OS PEIXES, A VIIDA ÍNTIMA DE LAURA, QUASE VERDADE.
NO BRASIL: A HORA DA ESTRELA, A LEGIÃ ESTRANGEIRA, A PAIXÃO SEGUNDO G.H., UM SOPRO DE VIDA, FELICIDADE CLANDESTINA, UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES, ÁGUA VIVA, IMITAÇÃO DA ROSA, A VIA-CRUCIS DO CORPO, ONDE ESTIVESTE DE NOITE, O OVO E A GALINHA. 

                                    A  HORA  DA  ESTRELA
    É um dos romances mais conhecidos de Clarice Lispector. Trata-se de uma narrativa que vai se construindo pelo entrelaçamento de 3 histórias:
    • A história de Rodrigo S. M. - um escritor' em crise que se questiona sobre sua profis-são, seu estilo, e se propõe a mudar seu modo de escrever. Resolve escrever uma história tendo por personagem uma pobre moça nordestina, MACABÉA, que vai para o Rio de Janei-ro. RodrIgo , será, portanto, o escritor-narrador da história de Macabéa.
A história da narração: O escritor Rodrigo vai dialogando com o futuro leitor para expor o seu processo criador, mostrando, passo a passo, como está costruindo a sua história sobre Macabéa. Portanto, é a história de como está escrevendo uma história.
A história de MACABÉA - É a história de uma pobre moça alagoana que, sem ter nin-guém na vida, muda-se para o Rio de Janeiro, onde trabalha corno datilógrafa num escritório do qual está sendo mandada embora, por incompetência. Mora num quarto compartilhado por mais quatro moças, leva uma vida sem expressão, incolor, sem objetivos e horizontes. Seu primeiro e único namorado, Olímpico de Jesus, troca-a por uma colega de escritório. Macabéa vai consultar uma cartomante que, com pena dela, prediz-lhe um futuro melhor: namorado, emprego e muito dinheiro. Macabéa sai de lá feliz, esperançosa e, quando vai atravessar a rua, é mortalmente atropelada. É essa a sua “ hora da estrela”, seus 15 minutos de fama numa notícia de jornal ou canal de televisão.

MODERNISMO - A OBRA DE CLARICE LISPECTOR
    Em 1942, Clarice Lispector começou a escrever seu primeiro romance, Perto do coração selvagem e o publicou em 1943.

O romance introspectivo

     Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam.
    Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine Mansfield e Virginia Woolf: o romance introspectivo, cujo enredo (a história) importa bem menos que o "mergulho" do narrador no fluxo de pensamento do personagem.
Esse mergulho é tão abrupto que o leitor depara-se com ele sem aviso do narrador. Joana, sua primeira protagonista, aparece no romance já capturada em meio a seus pensamentos. Veja os dois parágrafos iniciais de Perto do coração selvagem:
    A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.
    Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.

Um modo diferente de narrar

    Percebe-se que o narrador captura o pensamento da personagem (que não se sabe ainda chamar-se Joana) e mostra isso através do discurso indireto livre. Tal estratégia de criar não foi inventada por Clarice Lispector, mas ela a usou como aspecto central de seu estilo em todas as suas obras.
Nota-se também que a máquina de escrever é "do papai", portanto, logo de início, é a filha que tem seus pensamentos revelados - em total intimidade, pois ela está pensando apenas. Essa menina vai olhar com piedade para as galinhas "que não sabiam que iam morrer" e pensa nas minhocas que essas galinhas iam comer. Ou seja, nada é dito por Joana, para ninguém. É o narrador que a captura, e por isso cria um monólogo interior.
    E nota-se as onomatopéias usadas (tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz). Não era habitual na literatura vigente usar esses recursos.
Além disso a escritora cria suas metáforas: "uma orelha grande, cor-de-rosa e morta". O que será isso? O que ela quer dizer? Não se sabe ao certo, mas a essas construções esquisitas Antonio Candido deu o nome de "metáforas insólitas", ou seja, metáforas muito inesperadas e bastante originais.
Toda a obra posterior de Clarice (contos e romances) "persegue" esse modo de narrar. A partir de 1960, depois de escrever mais alguns romances, Clarice volta ao Rio de Janeiro e consolida sua grande carreira de contista.
  Quando mudou-se para Nápoles, começou a escrever outro romance, O Lustre, publicado em 1946.
  Em 1949, foi publicado outro romance, A Cidade Sitiada, cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que suspeitos, o mal aparece e se faz presente. Depois, foi publicado, um livro de contos chamado Alguns Contos, no ano de 1952.
 No ano de 1960, foi publicado Laços de Família, livro de literatura brasileira absolutamente renovado, que também atingiu o mais alto patamar da arte da escrita ficcional.
  Em 1961, foi publicado A maçã no escuro, um romance.
 Em 1964 foi publicado o livro de contos A Legião estrangeira e o romance A paixão segundo G. H..
 No ano de 1967 recebeu o prêmio Calunga, da Campanha Nacional de Criança, pela publicação de O Mistério do Coelho Pensante, publicado no mesmo ano.
 Em 1969, foi publicado Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um romance, e A mulher que matou os peixes, um livro infantil.
 Foram publicados também Água Viva, em 1973, onde Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Ainda em 73, teve publicação A vida íntima da Laura, um livro infantil.
 Entre 1974 e 1977, foram publicados A via-crucis do corpoOnde estiveste de noiteDe corpo inteiro, um livro de entrevistas, Visão do Esplendor e o seu último livro publicado no ano de sua morte A hora da estrela, uma novela.
 Clarice Lispector tem um estilo literário inconfundível, presente em toda sua obra. A renovação da linguagem se encontra constante num grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos, apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e a força expressiva típicas da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice é a visão do mundo que surge de suas histórias.
Mesmo tendo se iniciado como escritura numa época em que os romancistas brasileiros estavam voltados para a literatura regionalista ou de denúncia social, Clarice enfocou em seus textos o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais. Em suas narrativas, o enredo, bem como as personagens, as referências de tempo e espaço ganham novos significados: o enredo é quase sempre psicológico. O tempo e o espaço, por sua vez tem pouca influência sobre o comportamento das personagens; o tempo é psicológico e espaço é quase acidental.
  A indiscutível originalidade e a perturbadora percepção da validade presentes na obra de Lispector a tornam única dentro da literatura brasileira. É impossível ficar-se indiferente diante do texto de Clarice, pois a força da sua linguagem, a intensidade das emoções das suas personagens atingem em cheio o leitor, provocando no mínimo um incômodo estranhamento. É como se o texto convidasse o leitor à desvendá-lo e, desvendando-o, descobrisse um pouco mais do ser humano.

Autores: 2. Modernismo - A obra de Clarice Lispector - Passeiweb
www.passeiweb.com/estudos/sala_de_aula/portugues/clarice_lispector

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