SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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quarta-feira, 26 de abril de 2017

A CRÔNICA CONTEMPORÂNEA: PAULO MENDES CAMPOS

2.PAULO MENDES
CAMPOS

Biografia
    Filho do médico e escritor Mário Mendes Campos , de Maria José Lima Campos, Paulo Mendes Campos herda de sua mãe, amante da literatura, o hábito da boa leitura. Era o terceiro de oito irmãos :quais sejam: Carmen , Marino, SIlvio, Marilia, Eunice, Aluizio,e Mauricio. A sua mãe tinha por hábito ler poesias para os filhos reunidos, inclusive em frances. Reprovado nos primeiros anos de estudo, foi internado no Colégio Dom Bosco, na cidade de Cachoeira do Campo, onde surgiu o interesse pelas letras (1933). Conclui o curso secundário em 1939, em São João del-Rei e ingressa, sucessivamente, nos cursos de odontologia, veterinária e direito, mas não concluiu nenhum deles. Nessa época (1940), de volta a Belo Horizonte, participa da vida literário como integrante da geração mineira a que pertencem Fernando SabinoOtto Lara ResendeHélio PellegrinoJoão Etienne Filho e Murilo Rubião e publica no suplemento literário da Folha de Minas que chegou a dirigir durante algum tempo.[2] Seu sonho de ser aviador também não se concretizou.     
    Diploma mesmo, ele gostava de brincar, só teve o de datilógrafo.
Em 1945, vai para o Rio de Janeiro a fim de conhecer o poeta Pablo Neruda. Permanece no Rio, onde já estava morando o amigo mineiro Fernando Sabino e para onde depois também se mudarão Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino. Colabora nos principais jornais cariocas, mais assiduamente em O JornalCorreio da Manhã – do qual foi redator durante dois anos e meio – e Diário Carioca – onde manteve uma coluna diária intitulada "Primeiro Plano". Foi, durante muitos anos, um dos três cronistas efetivos da revista Manchete [2][3] e Diretor de Obras Raras da Biblioteca Nacional (In: Dicionário Enciclopédico Koogan - Larousse).
    Em 1947, é admitido como fiscal de obras e chega a redator, no extinto Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado - Ipase
    Em 1949, vai pela primeira vez à Europa; em 1951, casa-se com Joan Abercrombie, de origem inglesa[2] e lança seu primeiro livro, A palavra escrita.
    Muitas das traduções em prosa foram adaptações para o público infanto-juvenil, boa parte delas publicadas pela primeira vez na década de 1970 pela Ediouro/Tecnoprint. Atualmente também há traduções-adaptações suas editadas pela Scipione e pela Martins Fontes. Quanto à poesia, a maior parte das traduções pode ser encontrada nos livros Trinca de copas e Diário da Tarde. De Neruda, traduziu os livros Canto GeralResidência na Terra I e Residência na Terra II.
Características
. Linguagem fortemente lírica (imagens e metáforas);
. Busca da essência da vida que há por detrás das aparências;
. Resgate da infância: o puro, o lúdico, o mágico, o prazeroso;
. A boa vontade para compreender o que há de bom em cada um.

Obras

Poesias
·         A Palavra Escrita – 1951
·         Forma e Expressão do Soneto, antologia, 1952
·         Infância
·         O Domingo azul do mar - 1958
·         Testamento do Brasil e Domingo azul do mar - 1966
·         Transumanas - 1977
·         Poemas - 1979
·         Diário da tarde (poesia e prosa) - 1981
·         Trinca de copas (poesia e prosa) - 1984

Crônicas
·         O Cego de Ipanema – 1960
·         Homenzinho na ventania – 1962
·         O Colunista do morro – 1965
·         Antologia brasileira de humorismo – 1965
·         Hora do recreio - 1967
·         O Anjo Bêbado - 1969
·         Rir é o único jeito: supermercado – 1976 (reedição de Hora do Recreio)
·         Os bares morrem numa quarta-feira – 1980
·         O Amor acaba - Crônicas líricas e existenciais — 1999
·         Brasil brasileiro — Crônicas do país, das cidades e do povo – 2000
·         Alhos e bugalhos — 2000
·         Cisne de feltro — Crônicas- 2000
·         Murais de Vinícius e outros perfis — 2000
·         O gol é necessário — Crônicas esportivas — 2000
·         Artigo indefinido — 2000
·         De um caderno cinzento — Apanhadas no chão — 2000
·         Balé do pato e outras crônicas — 2003
·         Quatro histórias de ladrão — 2005

Infantojuvenil
·         A arte de ser neta – 1985

Prêmios
1959 - Ganha, com seu livro O domingo azul do mar, o Prêmio Alphonsus de Guimaraens do Instituto Nacional do Livro - Ministério da Educação e Cultura (melhor livro de poesia de 1958). O prêmio foi dividido com o poeta Homero Homem (Calendário Marinheiro)




Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a… 


Filhos – diz o poeta – melhor não tê-los. Já o Professor Aníbal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los. A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a… 


Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda. Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda. Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho. Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho. Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao…

Que já se faça a partilha. Só de quem nada possui nada de nada terei. Que seja aberto na praia, não na sala do notário, o testamento de todos. Quero de Belo Horizonte esse píncaro mais áspero, onde fiquei sem consolo, mas onde floriu por milagre no recôncavo da brenha a campânula azulada. De São…

Desde garotinho que não sou Flamengo, mas tenho pelo clube da Gávea um dívida séria, que torno pública neste escrito. Em 1956, passei uma semana em Estocolmo, hospedado em um hotel chamado Aston. Era primavera, pelo menos teoricamente, havia um congresso internacional na cidade, os hotéis estavam lotados, criando contratempos para turistas do interior ou… 

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia;… 

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o… 

Sinto nojo e medo de lagartixas domésticas, acabei odiando o pobre bicho. Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores, por sinal, e estremeci como se a criança estivesse a cutucar um violento jacaré. Meu apartamento vinha sendo a residência de três enormes lagartixinhas. Noites mal dormidas. Pensei: preciso matá-las para livrar-me do…

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Veja os 10 Melhores Poemas de Paulo Mendes Campos:

1.Poema: O Tempo – Paulo Mendes Campos
O TEMPO
Só no passado a solidão é inexplicável.
Tufo de plantas misteriosas o presente
Mas o passado é como a noite escura
Sobre o mar escuro
Embora irreal o abutre
É incômodo meu sonho de ser real
Ou somos nós aparições fantasiosas
E forte e verdadeiro o abutre do rochedo
Os que se lembram trazem no rosto
A melancolia do defunto
Ontem o mundo existe
O agora é a hora da nossa morte

2.   Poema: Neste Soneto – Paulo Mendes Campos
NESTE SONETO
Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa do deserto,
Minha emoção é muita, a forma, pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

3.   Poema: Tempo-Eternidade – Paulo Mendes Campos
TEMPO-ETERNIDADE
O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.
Pobre de tempo fico transparente
à luza desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.
Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.
Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória, e o susto de minha alma sem razões.

4.  Poema: Catinga para Djanira – Paulo Mendes Campos
CANTIGA PARA DJANIRA
O vento é o aprendiz das horas lentas,
traz suas invisíveis ferramentas,
suas lixas, seus pentes finos,
cinzela seus cabelos pequeninos,
onde não cabem gigantes contrafeitos,
e, sem emendar jamais os seus defeitos,
já rosna descontente e guaia
de aflição e dispara à outra praia,
onde talvez enfim possa assentar
seu momento de areia — e descansar.
Capa do livro “Carta a Otto ou um coração em agosto”, de Paulo Mendes Campos,
publicado pelo Instituto Moreira Salles.

5.  Poema: O Morto – Paulo Mendes Campos
O MORTO
Por que celeste transtorno
tarda-me o cosmo do sangue
o óleo grosso do morto?
Por que ver pelo meu olho?
Por que usar o meu corpo?
Se eu sou vivo e ele morto?
Por que pacto inconsentido
(ou miserável acordo)
Aninhou-se em mim o morto?
Que prazer mais decomposto
faz do meu peito intermédio
do peito ausente do morto?
Por que a tara do morto
é inserir sua pele
entre o meu e o outro corpo.
Se for do gosto do morto
o que como com desgosto
come o morto em minha boca.
Que secreto desacordo!
ser apenas o entreposto
de um corpo vivo e outro morto!
Ele é que é cheio, eu sou oco.

6.  Poema: Sentimento do Tempo – Paulo Mendes Campos
SENTIMENTO DO TEMPO
Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce

7.  Poema: Três Coisas – Paulo Mendes Campos
Três Coisas
Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido
Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo, quando é que cessa?
,A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?
Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar
O tempo levanta o muro.
A morte será o escuro?
Em teu olhar me procuro

8.  Poema: As mãos que se Procuram – Paulo Mendes Campos
As Mãos que se Procuram
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida
As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas
A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto o outro rosto desafia
A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.
Amor Condusse Noi Ad Una Morte

9. Poema: Despede Teu Pudor – Paulo Mendes Campos
Despede Teu Pudor
Despede teu pudor com a camisa
E deixa alada louca sem memória
Uma nudez nascida para a glória
Sofrer de meu olhar que te heroíza
Tudo teu corpo tem, não te humaniza
Uma cegueira fácil de vitória
E como a perfeição não tem história
São leves teus enredos como a brisa
Constante vagaroso combinado
Um anjo em ti se opõe à luta e luto
E tombo como um sol abandonado
Enquanto amor se esvai a paz se eleva
Teus pés roçando nos meus pés escuto
O respirar da noite que te leva.

10. Poema: A uma Bailarina – Paulo Mendes Campos
A uma Bailarina
Quero escrever meu verso no momento
Em que o limite extremo da ribalta
Silencia teus pés, e um deus se exalta
Como se o corpo fosse um pensamento.
Além do palco, existe o pavimento
Que nunca imaginamos em voz alta,
Onde teu passo puro sobressalta
Os pássaros sutis do movimento.
Amo-te de um amor que tudo pede
No sensual momento em que se explica
O desejo infinito da tristeza,
Sem que jamais se explique ou desenrede,
Mariposa que pousa mas não fica,
A tentação alegre da pureza.

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Crônica “ O amor acaba”– Paulo Mendes Campos

   O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


                                                                                                          Paulo Mendes Campos

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