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domingo, 12 de agosto de 2012

O NATURALISMO: ADOLFO CAMINHA

   Adolfo Ferreira Caminha (Aracati, 29 de maio de 1867 — Rio de Janeiro, 1 de janeiro de 1897) foi um escritor brasileiro, um dos principais autores do Naturalismo no Brasil.
Era filho de Raymundo Ferreira dos Santos e Maria Firmina Caminha. Mudou-se para o Rio de Janeiro, ainda na infância. Em 1883, Adolfo entra para a Marinha de Guerra, chegando ao posto de segundo-tenente. Cinco anos mais tarde, transfere-se para Fortaleza (1888). Apaixona-se por Isabel de Paula Barros, a esposa de um alferes, que abandona o marido para viver com Caminha. O casal teve duas filhas: Belkiss e Aglaís. Na sequência do escândalo, vê-se obrigado a deixar a Marinha e passa a trabalhar como funcionário público.
Obras
   A sua primeira obra publicada foi Voos Incertos (1886), um livro de poesia. Em 1893, Adolfo publica A Normalista, romance em que traça um quadro pessimista da vida urbana. Usa as suas experiências e observações de uma viagem que havia feito aos Estados Unidos em 1886, para escrever No País dos Ianques (1894). No ano seguinte provoca escândalo, mas firma sua reputação literária ao escrever Bom Crioulo, abordando a questão da homossexualidade. Colabora também com a imprensa carioca, em jornais como Gazeta de Notícias e Jornal do Commercio, e funda o semanário, Nova Revista. Já tuberculoso, lança o último romance, Tentação, em 1896. Morre prematuramente no Rio de Janeiro, no dia 1º de janeiro de 1897, aos 29 anos.
   Sua obra densa, trágica e pouco apreciada na época, é repleta de descrições de perversões e crimes.
Lista de obras
Voos Incertos (1886), poesia
Judite (1887), contos
Lágrimas de um Crente (1887), contos
A Normalista (1893), romance,[1]
No País dos Ianques (1894), romance (eBook)
Bom Crioulo (1895), romance
Cartas Literárias (1895), romance
Tentação (1896),[2]
Ângelo, romance inacabado
O Emigrado, romance inacabado


A NORMALISTA
   A Normalista, de Adolfo Caminha, foi publicado há mais de 110 anos, em 1893. É um dos romances mais naturalistas da nossa literatura e aborda questões polêmicas consideradas interditas pela ordem social e política reinante: o incesto e o adultério, sexo, traição, família, libido e desnuda seus personagens de toda e qualquer roupagem de pudor ou outra virtude que mereça algum louvor.
   Na obra existe o regionalismo. O local em que se desenrola o romance é Fortaleza, no Ceará. A maioria das ações acontecem em ambiente fechado, caracterizado sempre como um lugar simples, sem luxo e povoado de sentimentos pequenos.
   Segundo o professor e pesquisador literário, M. Cavalcanti Proença, Adolfo Caminha teve a preocupação de se não tornar pomposo ou oratório, o que abriu lugar para muito material de linguagem regional de estilização do coloquial. Assim, recolhemos os exemplos “bichinha”, “rapariga de família”, “o peru era uma excelente bebida”, e mesmo ditos populares como: “pela cara se conhece quem tem lombrigas”, “sem tugir nem mugir”, e muitos outros. Na verdade, Adolfo Caminha não insiste em demasiado nas palavras de cunho regional, o que fazem outros escritores, para dar uma “cor local” a histórias ambientadas em lugares de fala bem característica. Há, em contraste, utilização de palavras eruditas, pouco usadas na comunicação quotidiana das conversas, do jornal, da televisão. Por exemplo: “seródia”, “rótula”, “tabernáculo”, “estiolando”, “almiscarado”.
   Adolfo Caminha descreve com minúcia realista a atmosfera regional do passado. Josué Montello, em seu ensaio A ficção naturalista, afirma que A normalista “sobressaía pela transplantação fiel e natural da vida da província e vigor na fixação dos temperamentos e dos caracteres”.
   O autor de assume uma postura inovadora visto que entende o processo da leitura como forma de conhecimento que prepara o leitor para a vida e é também fonte de prazer. Ele tem uma perspectiva de ruptura em relação ao seu tempo. Essa natureza emancipatória se revela principalmente em relação à mulher. Lídia, sendo instruída e tendo livros em casa, conseguiu um lugar social. Por outro lado, Maria do Carmo, criada por um professor que não possuía livros em casa, educada num colégio religioso foi seduzida pelo padrinho. Entretanto, o autor subverte a lógica patriarcal da sociedade novecentista cearense e resgata sua personagem no desenlace da narrativa.
    Maria do Carmo, leitora experimentada tanto de obras religiosas quanto de obras consideradas perniciosas, saberá como professora, avaliar melhor a questão da leitura na escola. Sua experiência no passado, servirá de embasamento empírico para seu posicionamento na sua futura profissão. Não foram as leituras proibidas, lidas pela personagem, que a levaram ao “desvio de conduta”, e sim a credulidade naquele que considerava como pai.
   A Normalista, considerada obra "libidinosa", quando de seu lançamento, ajusta-se perfeitamente às propostas do Determinismo. João da Mata desfruta sexualmente de sua afilhada. Maria da Mata, moça ingênua, de uma excepcional brandura de caráter, educada em uma casa de caridade e depois normalista. Pressionada pelo instinto sexual e por circunstâncias superiores à sua vontade, Maria do Carmo entrega-se ao padrinho, submetendo-se totalmente à lascivia de João da Mata.
   Neste romance, a normalista Maria do Carmo é o pretexto para Adolfo Caminha apresentar aos leitores sua visão da Fortaleza de final do século XIX. De um lado, o povo miúdo: o pequeno funcionário público, a mulher que vendia rendas, o barbeiro, o guarda-livros, o lenhador e o alferes. Na outra banda, o governador da província, o coronel Souza Nunes, seu filho Zuza - estudante de direito - o jornalista José Pereira, o diretor e os professores da escola normal. A fraqueza do nexo lógico sentimental ou de qualquer natureza entre as várias peripécias da vida de Maria do Carmo sugere que Adolfo Caminha não conta simplesmente a história dela para distrair seus leitores: é a propósito da vida da normalista que ele vai delineando quadros da vida da capital cearense: uma aula na escola normal, o footing no passeio público, uma festa de casamento, um serão familiar etc.
   Nesta espécie de painel de costumes, o autor parece querer demonstrar ao leitor toda a mesquinha sordidez da vida social na Fortaleza de seu tempo.
   O mau humor para com a cidade é transparente, e costuma ser apontado pelos críticos e biógrafos de Adolfo Caminha como uma espécie de vingança: o autor jamais teria perdoado seus conterrâneos por estes lhe terem criticado os amores adúlteros e escancarados com a mulher de um colega.
PERSONAGENS PRINCIPAIS
Maria do Carmo - protagonista, é aquela que seria a detentora de todas as virtudes físicas, psicológicas e espirituais. No Naturalismo entretanto, encontraremos uma heroína "desfigurada". Pode ser uma mulher bonita, mas não tem qualquer firmeza de caráter. E assim é a protagonista do romance de Adolfo Caminha: um ser belo mas de inteligência inferior, movido pelos instintos e incapaz de modificar a própria existência, deixando-se levar pelos acontecimentos.
Zuza - é o personagem de quem a escola romântica esperaria rompantes apaixonados, sacrifícios em favor da amada, a luta contra todos os obstáculos para viver seu grande amor, não é senão um rapazola entediado com a vida daquela província "atrasadinha". Apesar de inicialmente reconhecer que nutre algum sentimento pela normalista, não vê nesse fato razão suficiente para contrariar os desejos de seu pai, nem os próprios projetos de ascensão social. Lamenta apenas não ter 'usufruído" todas as delícias que poderia haver conquistado em seus namoricos com Maria do Carmo.
João da Mata - personagem que não merece que se lhe atribua qualquer adjetivo de valor positivo, nem mesmo tem a coragem que demonstravam os vilões românticos para suas atitudes vis, pois age sempre dissimuladamente. Horrendo fisicamente, asqueroso, é um perfeito canalha, sem escrúpulos, sem dignidade, sem qualquer característica que o absolva. Sedutor de menores, caluniador, manipulador na política, usurpador dos bens públicos, reúne em si todos os dotes necessários para protagonizar a história naturalista que se desenrola a nossos olhos.
ENREDO
   A normalista conta a história de João da Mata, um amanuense de Fortaleza que recebe a incumbência de criar a sua afilhada, Maria do Carmo.
   Maria do Carmo é uma menina do interior que foge da seca com sua família e, por conta da morte da mãe e da migração do pai, passa a viver na casa de seu padrinho, o Sr. João da Mata, amigado com Dona Terezinha. educada em colégio de orientação religiosa até tornar-se aluna da Escola Normal, ocasião em que se revela, aos olhos sedentos do padrinho, uma mulher já madura em seus atributos de feminilidade e extremamente atraente.
   Inicia, contra a vontade de João da Mata que se mortifica de ciúmes, um namoro com Zuza, jovem estudante de Direito, filho de um dos coronéis da cidade. A relação, que a princípio tem a possibilidade de levar a um compromisso mais sério, é comentada maliciosamente em toda a cidade, e provoca a desaprovação do pai do rapaz, que exige o seu imediato retorno a Recife para concluir seus estudos.
    Enquanto isso, João da Mata, que planeja um meio de conseguir seduzir a afilhada, rompe as relações com dona Terezinha, pois esta desconfiava de suas intenções, e hostiliza cada vez mais o Zuza. Uma noite, entra sorrateiramente no quarto de Maria do Carmo e, fazer do uso de argumentos enganosos e valendo-se da situação propícia em que se encontravam, consegue o que queria.
   Maria engravida, e tem que se afastar da cidade para evitar um escândalo maior, esperando o nascimento do bebê em uma casa isolada de uns amigos de João da Mata. O seu filho, em decorrência de um acidente durante o parto, morre. Apesar comentários de toda a sociedade de Fortaleza, a normalista; retoma sua vida de sempre e é redimida pela mesma sociedade ao preparar-se para o casamento com o alferes Coutinho.

A normalista, de Adolfo Caminha - Passeiweb
www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/.../a/a_normalista

BOM-CRIOULO
Análise da obra
   O romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, faz parte do Realismo e do Naturalismo. A história de paixão e tragédia não é produto de fantasia romântica, mas baseada num fato real que escandalizou o Rio de Janeiro no século XIX.
   Caminha constrói a partir de um fato verídico, uma ficção forte, ousada, muito atual até os dias de hoje. Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava.
   Bom-Crioulo, publicado em 1895, é dividido em 12 capítulos, onde a ação se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro. Destacam-se o espaço aberto, normalmente dias claros e quentes, o mar aberto, e o espaço fechado do quartinho de Amaro.
   Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio. Assim, o enredo central se desdobra em alusões a muitas outras histórias; e o dia-a-dia do século XIX brasileiro se insinua a cada passo, fazendo ecoar as falas e as ações das personagens centrais.
    A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.
Foco narrativo
   Narrado em 3ª pessoa, por narrador onisciente, percebe-se que as inúmeras descrições que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia a observação meticulosa dos fatos, buscam não se confundir com a história, nem com as personagens.
   Preso aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo, utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das personagens.
   A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.
Temática
   O tema principal é a dificuldade do amor homossexual, centrado na relação entre o negro Amaro e o jovem e bonito Aleixo. Faz presente também o tema da mulher madura que deseja um amante jovem. A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance.
   Este tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido.
   O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, conseqüentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário.
   Outro tema é a problemática da vida dos marinheiros, que ficam a maior parte do tempo longe da terra e de mulheres, o sofrimento dos castigos corporais impiedosos e rigorosos. Este é a temática que se entrelaça com o tema central.
Tempo e espaço
   O romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem.
   A abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local inicial da ação.
   Por meio de uma descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o ambiente externo, percebe-se como o autor naturalista se debruça sobre o meio que terá um papel decisivo no comportamento das personagens.
   O ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade, o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões. O ajuntamento de homens favorecia a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel - a vida na Marinha:
   Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! Vida, vida!... Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte... E chamava-se a isso servir á Pátria!
   Por esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.
   Num segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento.
   Ao retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços, sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D. Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.
   Desse modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.
PERSONAGENS
   Em Bom-Crioulo, Caminha constrói com segurança e coerência o personagem Amaro, mulato dominado pela paixão homossexual, que o leva para caminhos sadomasoquistas à perversão e finalmente ao crime. O autor soube manejar as cenas e personagens com naturalidade.
   As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmam as poucas características que as definem.
  Amaro: protagonista, ex-escravo convocado para a marinha.Trata-se de um homem muito forte, com trinta anos de idade e que não conseguiu realizar-se sexualmente com as mulheres. Duas tentativas deram-lhe grande decepção e o deixaram frustrado. Só conseguiu consumar o ato com o jovem Aleixo. Apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive. Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão. Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso. A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata: — Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!...
Aleixo: grumete, belo rapaz de olhos azuis, que embarca no sul. Tem quinze anos e mexe sexualmente com Amaro. Cede às investidas e caprichos do crioulo, mas quando aparece ocasião troca-o por uma mulher. Isso o leva ser assassinado por Amaro, por causa do ciúme. Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte — será assim com Amaro e com Carolina. O ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção.
D. Carolina: amiga e rival de Amaro. É amiga de Amaro por tê-lo salvo em um assalto e inimiga por depois conquistar o namorado do crioulo. D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. D. Carolina revela-se, desde o inicio, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só.
Herculano: marinheiro dotado de certa melancolia. Relaxado, tinha as unhas sujas. Evitava a companhia dos outros. Foi preso e castigado por ter sido apanhado se masturbando.
Agostinho: o guardião. Homem de grande estatura, reforçado, especialista em dar chibatadas. Ama sua profissão, por isso permanecia a maior parte do tempo a bordo.
Santana: marinheiro que sofreu castigo por ter brigado com Herculano. Era gago, chorava com facilidade e era manhoso.
ENREDO
   A obra BOM-CRIOULO não padece das inverosimilhanças de A Normalista, do mesmo autor. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de estudante.
   O romance realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros - Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre... com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um belo marinheiro de olhos azuis” - brutalizados e solitários pela vida a bordo de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa, ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é interrompido pelo dever de voltar ao mar:
    Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o Outro: completavam-se /.../ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio.


ADOLFO CAMINHA E O NATURALISMO
Sânzio de Azevedo | UFC
Resumo: Este artigo pretende demonstrar que, embora defendendofervorosamente o Naturalismo de seus romances A normalista e Bomcrioulo, ao escrever Tentação, seu último trabalho ficcional, AdolfoCaminha de certa forma cedeu à crítica e abandonou a escola de Zola.
Palavras-chave: romance, Naturalismo, crítica.
   Era tão grande o entusiasmo de Adolfo Caminha (1867-1897) pelaobra de Émile Zola que o capítulo de suas Cartas literárias (1895) dedicado ao mestre do Naturalismo francês abre com estas palavras: Quanto mais o leio maior é a minha admiração, maior o meu entusiasmo por essa obra colossal que vem, desde a Fortune des Rougon, estuando como um rio caudaloso e límpido, até ao Docteur Pascal, até Lourdes…
    E, referindo-se aos que por acaso quisessem negar o valor do escritor:“eu, por mim, dar-lhe-ia um lugar distinto à mão direita de Shakespeare e Balzac”.
   Cada um dos três romances de Adolfo Caminha, escritor nascido no Ceará e falecido no Rio de Janeiro antes de completar trinta anos de idade, representa uma resposta: A normalista (1893), mostrando uma jovem seduzida pelo padrinho,atacava a sociedade hipócrita da Fortaleza dos anos 80 de século XIX, que condenou a união do escritor com uma mulher que, por ele, abandonara o marido; Bom crioulo (1895), falando do relacionamento homossexual entre os marinheiros Amaro e Aleixo, expunha alguns problemas da Marinha Imperial, da qual Caminha foi praticamente obrigado a se demitir, em virtude do citado escândalo; e Tentação(1896), relatando a decepção de um casal de provincianos em contacto com as falsidades da vida na Corte, pinta, de maneira ácida, o ambiente vivido pela Capital no declínio do Segundo Reinado. Adolfo Caminha nunca se adaptou ao Rio deJ aneiro, vivendo sempre à margem dos grupos de intelectuais e tendo seus livros atacados pela crítica dita oficial.
  Abraçando o Naturalismo, encontrou o escritor cearense a estética ideal para seu temperamento combativo. É, aliás, conhecido o episódio no qual, ainda aluno da Escola de Marinha, em 1885, numa homenagem póstuma a Victor Hugo, Caminha fez um discurso republicano na presença do Imperador.
   Se observarmos com isenção as críticas que, em 1891, na sua Revista Moderna, ele fez em Fortaleza aos Versos diversos, de Antônio Sales, e ao romance A fome, de Rodolfo Teófilo (críticas que incluiria quatro anos depois no seu único livro no gênero), concluiremos que sua intenção foi a de ser uma voz discordante em meio a um coro de elogios.
   Imagine-se então um homem desses lendo censuras a trabalhos seus. Num artigo que fez estampar na Gazeta de Notícias do Rio, em novembro de 1893, assinando-se C. A. e se apresentando como leitor, defendia o “Sr. Caminha” de ataques ao romance A normalista, por parte da crítica. Parece- nos que, num meio que lhe parecia hostil, sem ninguém que saísse em sua defesa, o escritor apelou para esse artifício, supondo que seria suspeito para falar em causa própria.
   Posteriormente, perfilharia o artigo, que intitulou “Em defesa própria”, incluindo-o em suas Cartas literárias. Como a crítica havia censurado em A normalista a presença de “cenas libidinosas”, defendeu-se assim o escritor: Sou contra a libidinagem literária e não perdoaria nunca o escritor que me viesse, por amor do escândalo, descrever cenas imorais, episódios eróticos a título de naturalismo.
   Quando publicou Bom-crioulo, a crítica foi mais violenta (V. M., certamente Valentim Magalhães, em A notícia, insinuava ter sido Caminha um embarcadiço como Aleixo), e por isso mais forte foi a defesa que Adolfo Caminha fez de seu trabalho, desta vez na última revista que dirigiu, em artigo intitulado “Um livro condenado”. Após afirmar que “não saiu dos prelos obra naturalista que não fosse tachada de imoral”, e de explicar que seu romance focalizava nada mais que “um caso de inversão sexual estudado em Krafft-Ebing, em Moll, em Tardieu, e nos livros de medicina legal”, desabafa o ficcionista:
   A julgar como certos imbecis, – que os personagens de um romance devem refletir o caráter do autor do romance, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz praticaram incestos e adultérios monstruosos.
    Pela veemência como o romancista se defendia dos ataques recebidos, e pela convicção com que justificava os processos narrativos empregados pelos seguidores do Naturalismo, dir-se-ia que Adolfo Caminha seria sempre um adepto da escola de Zola, e era de se esperar até que, devido a sua índole combativa, carregasse cada vez mais nas tintas com que fosse pintar as mazelas da sociedade de seu tempo.
   Entretanto, mesmo com sua independência e sua indignação diante das censuras que recebeu, principalmente de Valentim Magalhães, a quem irá caricaturar um tanto impiedosamente, o escritor não chegou a pôr nas páginas de Tentação, seu derradeiro romance, talvez um décimo da crueza com que tingiu algumas cenas d’A normalista e do Bom-crioulo.
   Sabóia Ribeiro já assinalou esse abrandamento do estilo do autor, nesse livro que circulou após seu falecimento:
   Cheia de aspectos suaves a narrativa decorre até quase o fim, sem nada daquelas costumeiras complicações psicológicas e dramas da patologia do sexo que são o pábulo do Naturalismo original.
   Com efeito, não há nesse romance tipos repugnantes como o João da Mata, d’A normalista, ou aberrantes, do ponto de vista da moral então vigente, como o Amaro, o Bom-crioulo, o que representa um nítido desvio do modelo seguido por essas obras.
   Um casal deixa sua casa em Coqueiros, na Província, a fim de tentar a vida na Corte, ao tempo do Império. Evaristo de Holanda, jovem bacharel em Direito, conta à sua esposa Adelaide haver recebido telegrama de seu conterrâneo e amigo Luís Furtado, garantindo-lhe emprego no Banco Industrial.
   Furtado e sua esposa, D. Branca, são bem relacionados com desembargadores, barões e viscondes, sendo portanto monarquistas. Homem de meia-idade, robusto e com “olhos negros e comunicativos”, o amigo de Evaristo é dado a conquistas amorosas, com o que não parece se importar D. Branca, habituada à vida no Rio de Janeiro. Para ela, uma senhora casada devia se esforçar para parecer honesta, apenas. Assim, os dois se entendem. A verdade é que, enquanto
Furtado anda à procura de divertimentos com outras, D. Branca é cortejada pelo Visconde de Santa Quitéria, solteirão que faz sucesso com as mulheres.
    Hospedados provisoriamente na casa de Furtado e D. Branca, aos poucos Evaristo e Adelaide se vão enojando com a falsidade da vida na Corte, e sobretudo com a bajulação que cerca o Imperador e seu séquito. Furtado cada vez mais se encanta com a beleza simples de Adelaide que, a contragosto, não é inteiramente indiferente aos olhares do conquistador, daí o título do livro.
   Há um trecho bem interessante do romance, em que, numa conversa entre Adelaide, Furtado e Evaristo, este diz: “– Mas, então, que querem vocês que eu diga?”. Comenta então o narrador onisciente, penetrando no pensamento e no sentimento da mulher do bacharel:
      Aquele – que querem vocês que eu diga? – referia-se exclusivamente ao marido de D. Branca e a Adelaide. Esta notou o carinhoso plural e como que sentiu no fundo d’alma um prazerzinho em se achar na companhia de homem tão educado e nobre.
   Tal como já fizera n’A normalista, o escritor expõe ao ridículo pelo menos um desafeto: entre os personagens secundários há um chamado Valdevino Manhães. Vê-se que a intenção do autor, com esse falso nome, foi claramente fazer com que o leitor reconhecesse no personagem a caricatura do escritor Valentim Magalhães. Além da semelhança dos nomes, a figura presente na narrativa é:
O Valdevino Manhães, diretor da  Revista Literária e autor de muitos livros, de muitíssimas obras, entre as quais o poema herói-cômico Juca Pirão, paródia ao “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias.
    Lembre-se que o escritor fluminense era diretor da revista A Semana e autor de vasta bibliografia, incluindo romance, crítica e poesia, e na qual figura A vida de seu Juca, poema escrito em parceria com o irmão, Antônio Henrique Magalhães, e que é uma paródia d’A morte de D. João, de Guerra Junqueiro.
    No tocante à presença ou não de traços naturalistas em Tentação, basta que se diga que, no capítulo I, o que há de mais forte, e que certamente não apareceria numa narrativa romântica, é este trecho:
   Da janela do quarto via-se luz no segundo andar, e não poucas vezes ecoava embaixo, no fundo escuro da área, o som de uma cusparada.
   A cena mais violenta, digna mesmo de um romance naturalista, está no capítulo VIII. É quando D. Branca ouve gritos no andar de cima e reconhece a voz de Adelaide:
   O fâmulo do secretário não esperou pela patroa: galgou os degraus dois a dois, três a três, numa elasticidade felina de músculos, e, sem guardar conveniências, enveredou pelos aposentos do bacharel. D. Branca foi encontrá-lo sobrepujando Adelaide que se debatia no leito numa agitação de todo o corpo, os olhos desvairados, a face muito pálida, em convulsões histéricas.
   Uma cena como essa, que pode causar algum impacto ao ser lida assim isolada, termina por quase se diluir no enredo do romance, onde não há mais nenhuma dessa natureza.
   Durante uma das passagens mais bem elaboradas do livro, a descrição de um piquenique no Jardim Botânico, Luís Furtado, conseguindo ficar a sós com Adelaide, beija-lhe ousadamente a mão. Depois, chega a pedir-lhe perdão, mas a esposa de Evaristo passa a sofrer com mais força a tentação de ceder ao conquistador, o que não chega a acontecer.
     Sabendo-se, como se sabe, que Furtado é dado a conquistas amorosas, e que sua mulher, D. Branca, é cortejada pelo Visconde de Santa Quitéria, era de se esperar que houvesse no romance cenas de alcova, quase obrigatórias nas obras naturalistas. Entretanto, tal não ocorre.
   Baste-nos informar que o momento mais marcante no que toca a episódios amorosos está no já citado capítulo VIII: indo o Visconde à casa de D. Branca, constata ele que Furtado está ausente, o que leva o narrador a afirmar que ele “não podia encontrar melhor ocasião para um rendez-vous amoroso”.
   Esse rendez-vous, porém, tem seu clímax apenas subentendido; ao se referirem os dois ao seu último encontro, há este trecho:
   Ela achava “um bocadinho” prosaico o escritório da Rua da Alfândega, “um bocadinho exposto”.
Já se tratavam por você.
– Você não imagina – dizia ela – o sacrifício que me custou!… E os homens ainda falam mal das mulheres…
   Ele, então, fazia-se meigo, derreava a cabeça, sem prejudicar a linha  correta do porte, dando palmadinhas na mão dela, numa intimidade de casal. Tirou da botoeira a rosa que trazia e ofereceu-lha com uma graça muitíssimo gentil.
    Não cremos seja exagerada a afirmação de que essa cena poderia perfeitamente figurar nas páginas de um romance romântico, tão distante está dos trechos apimentados presentes n’A normalista e principalmente no Bom-crioulo.
   Interessante é o contraste entre a opinião de Lúcia Miguel-Pereira, que considera Tentação um romance “fraquíssimo […], mera ilustração do ódio do autor, republicano, pela gente do Império”,
e a de Sabóia Ribeiro, para quem o livro é “uma obra-prima, que se alça num plano do mais alto nível”.
    Não evidentemente por ser a situação mais cômoda, mas por nos parecer a mais justa, preferimos ficar no meio-termo: se comparado a Bom-crioulo, ou mesmo a A normalista, o último romance de Caminha não faz grande figura; visto porém como livro autônomo, é obra que não desmerece o nome do autor, sobretudo por algumas descrições e pela verdade com que são pintados alguns caracteres e alguns fatos.
   Concordamos com Lúcia Miguel-Pereira quanto ao caráter antimonarquista do livro. Já Sabóia Ribeiro, baseado não sabemos em que trecho do romance, vai ao ponto de ver simpatia do ficcionista com relação ao Imperador:
    Dir-se-ia que o ex-aluno da Escola de Marinha que, anos antes, se portara com irreverência, numa festa, procurava agora se retratar num arrependimento tardio embora justo.
   Nem é preciso relembrar a biografia de Adolfo Caminha para ver que ele se identifica muito mais com Evaristo do que com Furtado e seus amigos.
   Além disso, é clara a ironia presente nos trechos do livro em que o narrador alude à preocupação dos monarquistas com a doença do Imperador. Leia-se, por exemplo, este diálogo do capítulo III, que nos parece de um ridículo atroz:
– E ninguém sabe, afinal, qual é a doença do Imperador! – disse o velho Lousada.
– Não é coração? – atalhou a dama de honor.
   O visconde, muito respeitosamente, pediu licença à nobre senhora para dizer que não, que o Sr. D. Pedro II estava com uma glicosúria…
– Glicosúria? Que é glicosúria?
– Diabetes…
– Creia o senhor que ainda não compreendi…
–Diabetes… glicosúria… – fez o visconde atrapalhado, esfregando-se os dedos.
–Enfraquecimento cerebral, minha mulher – explicou Lousada convictamente.
   Pior ainda nos parece uma passagem do capítulo V, no qual se fala da viagem que o Imperador deverá fazer à Europa, em busca de melhoras para sua saúde debilitada. É um longo trecho, mas apenas a parte que se vai ler dará uma idéia do engano de Sabóia Ribeiro:
    E reduzido às míseras proporções de inválido, o segundo Alcântara,bisneto da Sra. D. Maria I, universalmente conhecido pelos seus versos ao bom povo ituano e pelo seu amor às letras, que na Europa dava-lhe foros de primeiro poeta do Brasil – o celebrado amigo de V. Hugo e das canjas do Teatro Lírico ia sulcar o Atlântico para bem do povo e felicidade da nação, desse povo que tanto o amava e dessa nação que ele governava há meio século…
   Não conseguimos ver nenhuma retratação, nenhuma demonstração de simpatia ao Imperador. Por sinal, é justamente a crueldade da sátira o lado frágil de Tentação, a nosso ver, ainda mais se lembrarmos que ela vinha com atraso de uns pares de anos. Seja como for, o escritor, em seu último romance, estava muito distante do Naturalismo dos outros dois.
   Para se ter uma idéia da diferença entre A normalista e Bom-crioulo, de um lado, e Tentação, de outro, temos ainda a própria fabulação: no primeiro romance, João da Mata aproveita-se da condição de padrinho de Maria do Carmo para deflorá-la e põe a culpa da sedução no namorado da moça, que já a havia abandonado; nada sofre, e ela termina se casando com um homem obscuro, como se nada houvesse acontecido. No Bom-crioulo, Amaro e Aleixo mantêm um relacionamento homossexual até que o primeiro é hospitalizado depois de receber um castigo após se envolver em uma briga; Aleixo, sem o companheiro, aceita as investidas amorosas de uma portuguesa mais velha que ele; Amaro, sabendo da traição, foge do hospital e termina assassinando o ex-amante.
    Já em Tentação, Furtado, apesar de amigo de Evaristo, quer conquistar sua mulher, Adelaide. Quase ela cede, tentada pela sua beleza, mas, enojada com as falsidades da vida na Corte e justamente temerosa de não resistir, pede a Evaristo que a leve de volta à Província. Interessante o fato de em momento algum o narrador dizer o nome dessa Província, mas mais de um autor já imaginou ser a terra natal de Caminha, tão atacada em seu primeiro romance…
   Frota Pessoa, amigo do escritor, naquela que talvez haja sido a primeira apreciação póstuma de seus romances, classifica Tentação como “obra ligeira”, e acrescenta:
   Este livro revela uma reação do espírito do autor para o seu primitivo processo, sem preocupação de escola. É ingênuo e cristalino na sua concepção e no seu estilo. Como etapa literária, parece-me curioso, porque marca um novo modo de ser na mentalidade do artista, que, por mais que ele julgasse transitório, deveria ser definitivo.
    O certo é que, apesar da caricatura de Valentim Magalhães e das alfinetadas no Imperador e em seus áulicos, o romance é infinitamente mais leve do que os dois anteriores, não merecendo portanto ser classificado entre as obras do Naturalismo brasileiro, prova de que, mesmo tendo reagido violentamente à crítica feita às suas obras, Adolfo Caminha decidiu abandonar as tintas fortes que o haviam incluído na escola de Zola.

Adolfo Caminha e o Naturalismo - www.letras.ufmg.br

SUBLITERATURA E VINGANÇA  - Rodrigo Gurgel
Adolfo Caminha por Robson Vilalba
   A obra do cearense Adolfo Caminha só confirma minhas conclusões de que os frutos do naturalismo brasileiro — essa “planta exótica”, segundo o sugestivo enunciado de Lúcia Miguel-Pereira — são, em sua maior parte, excêntricos quanto aos temas e medíocres no que se refere à forma. No caso específico de Caminha, contudo, há um desonroso complemento: seus principais livros, A normalista e Bom Crioulo, nasceram, principalmente, do rancor.
   Órfão de mãe aos dez anos, Caminha, doente depois de sofrer as agruras de uma terrível seca, é enviado a Fortaleza pelo pai. Dali, parte para o Rio de Janeiro, onde um tio o inscreve na Escola Naval. Republicano servindo na Marinha, a mais monarquista das instituições militares, o escritor não se adapta à Corte e solicita o retorno ao Ceará. Aos 22 anos, apaixona-se pela esposa de um alferes; esta, para escândalo dos fortalezenses, abandona o marido e passa a viver com Caminha. As pressões obrigam-no a abandonar sua carreira nas forças armadas e, apesar do novo emprego — de insignificante escriturário na Tesouraria da Fazenda —, a se transferir, em 1893, para o Rio de Janeiro, quando publica A normalista, livro no qual pretendeu ajustar contas com a sociedade que praticamente o expulsara de Fortaleza. Dois anos mais tarde, surge Bom Crioulo — e desta vez a vingança terá como alvo a Marinha.
   Certos críticos modernos pretendem minimizar essa característica — a do romance enquanto desforra — e, também, isentar Caminha de suas responsabilidades, colocando nos ombros das “instituições conservadoras” a culpa pelo destino do escritor. Esquecem-se, no entanto, de que, em 1884, quando ele discursa na Escola Naval, diante do próprio imperador, e critica a monarquia, isso não o impede de ser promovido a guarda-marinha (1885) e segundo-tenente (1888). Na verdade, livrar Adolfo Caminha de culpa é uma solução deveras fácil para quem preferiu agir como se atos não produzissem conseqüências. O arroubo imaturo cobrou seu preço — e o autor, considerando-se perseguido e injustiçado, decidiu revidar com a arma que tinha à mão.
Ressentimento
   A escritora e editora Louise DeSalvo estudou, em Concebido com maldade, alguns casos semelhantes ao de Caminha, de autores que escreveram movidos pelo desejo de vingança. Ainda que suas reflexões sejam superficiais e discutíveis, o livro permite a abertura de um debate sobre os motivos éticos da produção literária. DeSalvo enaltece as obras que nascem do ressentimento, legitimando seu raciocínio por meio de um freudismo superficial, muito disseminado nos estudos acadêmicos, ou servindo-se de citações genéricas, exemplos daquele beletrismo que serve para justificar qualquer coisa. Por exemplo, a retórica da frase “Nenhuma motivação é demasiado vil para a arte”, de John Gardner (a pesquisadora certamente se refere ao romancista e crítico norte-americano e não ao escritor inglês), esconde um juízo que pretende abarcar todos os comportamentos, inclusive os mais levianos. Ora, se nada é “demasiado vil para a arte”, o homicídio praticado pelo escritor cujo objetivo último é apenas descrever com perfeição um assassinato seria uma motivação aceitável?
   A escritora Anaïs Nin também se mostra condescendente, o que, para quem conhece sua biografia, não é nenhuma surpresa:
   O escritor é o duelista que jamais luta na hora marcada, que guarda um insulto como qualquer outro objeto curioso, um item de colecionador, despeja-o mais tarde sobre sua mesa e empenha-se verbalmente num duelo com ele. Algumas pessoas chamam isso de fraqueza. Eu chamo de adiamento… Pois ele preserva, coleciona o que depois vai explodir em sua obra.
   De minha parte, não considero tal atitude “fraqueza” ou “adiamento”, mas apenas covardia. E os gestos que nascem da pusilanimidade, não só no que se refere à arte, costumam ser desprezíveis.
Se, como afirma DeSalvo, “a obra de arte substitui uma inadequação” e é somente um “meio infantil, regressivo e escapista de lidar com um fracasso”, então os gênios da literatura são, necessariamente, monstros morais ou, numa hipótese mais amena, adultos que não amadureceram. Tais generalizações servem ao intuito da autora, com certeza, mas fecham os olhos à complexidade não só dos escritores, mas de todos os seres humanos. Como classificar, por exemplo, Tolstói, a quem Isaiah Berlin — em seu magnífico ensaio O porco-espinho e a raposa — se refere como “o mais trágico entre os grandes escritores”, que se debateu, por toda a vida, entre “o orgulho e o ódio por si mesmo, onisciente e duvidando de tudo, frio e violentamente apaixonado, desdenhoso e pronto a se humilhar, atormentado e desapegado, rodeado por uma família que o adorava, por seguidores dedicados, pela admiração de todo o mundo civilizado e, ainda assim, quase totalmente isolado”?
   Outro exemplo de DeSalvo, Henry Miller dizia que sua escrita talvez parecesse “monstruosa (para alguns) pois era uma violação, porém eu me tornei um indivíduo mais humano depois dela. Eu retirava o veneno do meu sistema sanguíneo”. Não sabemos o que significou para ele tornar-se “mais humano” — e desconhecemos se sua afirmação é sincera —, mas escrever movido por um desejo maléfico e distribuir o seu “veneno” a milhares de leitores é, no mínimo, uma forma discutível de purificar a própria consciência. De qualquer forma, se Caminha teve oportunidade semelhante, pôde desfrutar dela por pouco tempo, pois morreu dois anos depois de publicar Bom Crioulo. Suas tentativas patológicas de retaliação, contudo, ficaram. Em A normalista, segundo Alfredo Bosi, “o ressentimento do autor, apoucado pela vida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, leva-o a nivelar todas as personagens no sentido das pequenas vilezas que a hipocrisia do meio se esforça em vão por encobrir”. Como veremos, não será diferente no caso de Bom Crioulo.
Linguagem
   Se fosse possível sintetizar, numa única expressão, esse livro que uma parcela da crítica endeusa pelo fato de ser o primeiro “romance homossexual” da literatura brasileira, eu diria que se trata de uma cascata de adjetivos e lugares-comuns. Há adjetivos às pencas. Nem José de Alencar conseguiu usar tantos. O leitor abre o Capítulo I e lá encontra esta fórmula de gosto duvidoso: “(…) o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia”. O protagonista, marujo a quem se apelidou de Bom Crioulo, é  um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada.
   Tal maçante retórica irá perseguir o leitor até a última linha desse conto à força estendido. E virá acompanhada de “horizontes cor-de-rosa”, “coragem espartana”, o espírito que se debate “como um pássaro agonizante”, o “azul inconsútil” do céu, a ventania que tem “a força extraordinária de titãs”, “desejos de touro”, “frenesi de gozo”, o céu “alto e imenso na eterna glória da luz”, o “silêncio infinito da noite clara”, o som da viola que “embriaga a alma” e mais quantos lugares-comuns se possa desejar.
   O exagero das descrições é evidente desde a primeira linha. O ódio não permitiu ao escritor filtrar um pouco os seus ímpetos qualificativos. A corveta que servirá de palco à cena inicial do livro é “velha e gloriosa”, tem o “casco negro” e as “velas encardidas de mofo”, assemelha-se à “sombra fantástica de um barco aventureiro”, mas não passa de uma “velha carcaça flutuante”, “esquife agourento (…) quase lúgubre na sua marcha vagarosa” — “um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o imenso mar”. E estes são apenas trechos selecionados dos três breves parágrafos que abrem o Capítulo I… Logo, logo veremos o vento “açoitando os cabos, fustigando a superfície da água” e, pasmem, “gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico”.
   Apaixonado por Aleixo, um grumete de 15 anos, Bom Crioulo sofre o “forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega”, seja lá o que isso for. Sempre a acompanhar o casal de namorados, lá está, “no alto do grande hemisfério que a luz do meio-dia incendiava”, nada mais que “o azul, sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso”. E à noite, é claro, não falta a lua, eterna protetora dos apaixonados, que necessariamente surge, primeiro, “cor de fogo”, para depois se tornar “fria e opalescente, misto de névoa e luz, alma da solidão”, “derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do marinheiro” e atormenta os leitores que conservaram um mínimo de bom senso.
   Bom Crioulo não se excita, apenas, mas sente “uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta” — por um momento, o leitor tem a clara impressão de que ele se jogará pela amurada. Já em terra, no aconchego de uma “triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia”, o negro venera as “formas roliças de calipígio” do seu amante. Os dois vivem numa suja água-furtada, “espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico”, mas que apresenta “sombra voluptuosa”, “penumbra acariciadora” e, graças aos rabiscos do escritor, se transforma num “ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis”. E se não estamos satisfeitos com o palavrório, ainda podemos saber que Aleixo é um “belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estátuas duma escultura sensual e pujante”. Convenhamos, nem o pior dos românticos produziria uma frase tão afetada.
Mas vamos em frente. Bom Crioulo, levado ao hospital da Marinha depois de receber chibatadas — punição habitual à época —, chega aos estertores da saudade:
   Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom Crioulo.
    Como vemos, o hiperbolismo causa efeito oposto àquele que o autor busca. Depois de algumas páginas abarrotadas de adjetivos que pretendem, repetidamente, construir a mesma ênfase expressiva, o recurso começa a produzir incredibilidade e, logo depois, aversão. No caso acima, não basta que o “desespero” seja “surdo” e “incrível” — ele também precisa ser “fantástico”, além de vir acompanhado de indescritíveis “acidentes patológicos” e de “uma espécie de lepra contagiosa”. Não é só a cena que desmorona diante do olhar saturado do leitor, mas a própria verossimilhança da história fica comprometida, principalmente quando sabemos que, poucos parágrafos à frente, o personagem — que há dias sangra no seu leito — agirá como um super-herói: saltará janela e muros, fugirá da ilha em que o hospital está instalado e, chegando ao continente, caminhará longos quarteirões em busca de sua paixão.
    Ao dedicar-se com tal empenho à sua vingança, Adolfo Caminha seguiu os passos de Aluísio Azevedo, e aprendeu com seu mestre a importância de coalhar o texto de imagens mórbidas. Assim, lá estão os “ímpetos vorazes de novilho solto” — ou, se preferirem, o “grande ímpeto selvagem de novilho insaciável” —, as “incongruências de macho em cio”, as “nostalgias de libertino fogoso”, a mulher masculinizada, de “pernas gordas e penugentas”, que se transforma numa “vaca do campo extraordinariamente excitada” e, “segurando os seios moles”, traz “um estranho fulgor no olhar de basilisco”. Tudo se animaliza, tudo se degrada, a fim de corroborar, à força, as teorias deterministas. Do “bodum africano”, passando pelo “hermafroditismo agudo”, chega-se às “sucções violentas”. E quando Bom Crioulo, fugido do hospital, percorre as ruas em busca de Aleixo, “pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração”. É pena que, no final, quando o negro salta de navalha em punho sobre o amante, apresente, além do ciúme, o raríssimo sintoma de “estrabismo nervoso de alucinado”… Esse problema não poderia tê-lo impedido de acertar o alvo?
    Toda a conhecida ladainha biologista do naturalismo polui a obra: como vimos, Bom Crioulo é o melhor contraponto à suposta “morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada”; certo personagem traz “no rosto imberbe de adolescente (…) uma precoce morbidez sintomática”; o grumete tem uma “vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro”; a natureza não só “impõe castigos”, mas “pode mais que a vontade humana”. Não estamos diante de afetos passíveis de serem controlados pela razão ou, ao menos, capazes de provocar dúvidas de ordem existencial ou moral, mas de uma “obsessão doentia” que “redobra com uma força prodigiosa”, “acorda zelos que pareciam estagnados” e “comove fibras que já tinham perdido antigas energias”. A luta de Bom Crioulo contra os seus instintos, anunciada com fanfarras no Capítulo III, não dura poucos parágrafos, de maneira que a homossexualidade se apresenta como um “ideal genésico” cuja força obriga o “selvagem de Zanzibar” a “cair em êxtase (…) diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano”.
Composição
    Mas os defeitos de Bom Crioulo não se restringem à linguagem. O livro é composto sobre esquematismos e obviedades. Logo no início, à calmaria enfrentada pela corveta corresponde, evidentemente, a preguiça dos marujos. O oficial que preza a obediência da marujada precisa ser um disciplinador arrogante. Agostinho, um guardião também responsável por aplicar as chibatadas, não pode desaprovar o que é obrigado a fazer por ordens superiores, mas deve, necessariamente, ter a personalidade de um sádico. O feliz casal de homossexuais carece de um antagonista — e, claro, nada melhor do que o elemento feminino, a portuguesa Carolina, para assumir o posto, formando o trio de personagens a partir do qual se construirá a trama corriqueira: encontro — sedução — posse do objeto amoroso — separação momentânea — sedução do antagonista — ciúme descontrolado — tragédia/morte.
    A história é tão previsível, que se cortássemos, além dos trechos de retórica vazia, as digressões que só reiteram as qualidades físicas dos marinheiros enamorados e seus repetitivos sentimentos, recíprocos ou não, o livro poderia perder dois terços de gordura e se transformar num conto de vinte ou trinta páginas.
   Há também sérios problemas de passagem do tempo. Em menos de um mês, enquanto Bom Crioulo se encontra no hospital, Aleixo se torna “gordo, forte, sadio (…), músculos desenvolvidos como os de um acrobata (…), expressão admirável de robustez física” — e a única razão apresentada para essa mudança são os cuidados de Carolina. Antes, sem que se cumpra sequer um ano de convivência, Bom Crioulo consegue ver “crescer a seu lado Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade”. Próximo do fim do livro, passadas as poucas semanas em que permaneceu no hospital, o protagonista já não sabe ao certo onde é a residência de Carolina, lugar no qual vivia muito antes de conhecer Aleixo — e age como se sua última noite ali tivesse ocorrido há décadas. Finalmente, parado defronte à casa, conversa com o funcionário da padaria e este lhe diz que o grumete e a portuguesa acordam tarde; o dia mal amanheceu, mas, surpresa!, Aleixo sai para a rua.
A vertigem do Mal
   Enquanto relia Bom Crioulo, lembrei-me do ensaio — elogioso e demoníaco — de Georges Bataille sobre Jules Michelet e seu La sorcière (A feiticeira). Do princípio ao fim, Caminha parece guiado pela mesma paixão que, segundo Bataille, comandava Michelet: “a vertigem do Mal”. Entregue ao seu desejo de vingança, enquanto escrevia Adolfo Caminha talvez repetisse o gesto de Michelet: “No decurso do seu trabalho, acontecia faltar-lhe a inspiração: descia então de sua casa, dirigia-se a um mictório cujo cheiro era sufocante. Aspirava profundamente e, tendo-se assim ‘aproximado, o mais perto que podia, do objeto do seu horror’, voltava ao trabalho”.
    Encontrar quem elogie tal subliteratura é uma evidência de quanto a nossa episteme se encontra deteriorada, submetida à mais ordinária doxa. Realmente, uma parcela da crítica literária abdicou do seu papel, preferindo destruir a autonomia da literatura e sujeitar a arte à deplorável ditadura do politicamente correto. Harold Bloom está certo quando diz que todos os padrões estéticos e a maioria dos padrões intelectuais estão sendo abandonados em nome de uma falsa e forçada harmonia social. E, completo, com um agravante: mente-se descaradamente aos jovens, levando-os a valorizar uma ficção medíocre. Tal obsessão significa, na prática, a renúncia à autonomia de pensamento — um desatino frente ao qual muitos se mostram indefesos.
RODRIGO GURGEL é escritor, editor e crítico literário. Vive em São Paulo (SP).

Subliteratura e vingança | Jornal Rascunho - rascunho.gazetadopovo.com.br

HOMOSSEXUALISMO PRETO & BRANCO NO ROMANCE ‘BOM CRIOULO’, DE ADOLFO CAMINHA -  Por Gilfrancisco Santos

   Este artigo tem o objetivo de mostrar através do ideário Naturalista, na literatura brasileira, as afirmações das idéias positivistas e cientificistas em voga no fim do século XIX, no romance de Afonso Caminha, intitulado "Bom-Crioulo" (1895). Baseando-se nestas teorias, o autor toma-lhe a precisão e a objetividade descrevendo com impessoalidade, exatidão e minúcia as referidas idéias através das relações processadas pelos personagens.
     Essas implicam numa posição de combate, de análise dos problemas evidenciados pela decadência social, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com intenção realista de reformar a sociedade. Justificando que o romance naturalista é marcado por forte análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo. O Naturalismo apresenta romances, experimentais como "Bom-Crioulo", segundo o qual o ser humano é um animal: antes de usar a razão deixa-se levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas - como sexo - pela moral da classe dominante. "Bom-Crioulo", romance de tese, cujo enredo é construí do com minúcias, onde o narrador (narração linear, gradativa) fornece um grande painel informativo da paisagem muito comum ao Realismo-Naturalismo.
     A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional. Adolfo Caminha trata nesse livro da historia de marinheiros homossexuais (talvez o primeiro da literatura brasileira) e cujo personagem central, Amaro é um escravo foragido, crioulo escolado, de bons sentimentos, como o título sugere, que mantém um conturbado relacionamento com um rapaz branco, meio bisonho. O que é interessante nesse romance, é que os estereótipos contra os negros não desempenham papel algum enquanto a paixão domina o herói do romance. A volúpia é tão forte que atira para o inconsciente, repelindo e como que fazendo desaparecer, os estereótipos do início do livro.
O Naturalismo fin-de-siècle
    No Brasil, o principal representante da estética naturalista foi Aluísio Azevedo (1857-1913), que em 1881, com a publicação de O Mulato tomou-se o introdutor do movimento entre nós. Pois as novas idéias que circulavam na Europa chegaram também até aqui, dando abertura a uma mudança de mentalidade, fervilhando idéias liberais, abolicionistas e republicanas. Menores e mais representativos do ideário naturalista - e dos excessos que o esgotam - foram Júlio Ribeiro, A Carne (1888); Inglês de Sousa, O Missionário (1888); Adolfo Caminha, A Normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895).
      Se, de um modo geral, o Naturalismo na literatura brasileira não passou de um momento episódico no âmbito da afirmação das idéias positivistas e cientificistas em voga no fim do século XIX, coube-lhe o papel de iniciar a tradição regionalista, que se prolongou até a instauração do romance moderno.
      Tanto o Naturalismo quanto o Realismo igualmente, fixou temas urbanos e regionais. No primeiro caso, interessaram-lhe, não só os casos típicos da burguesia, decadente por falta de bases morais em que assenta todo um sistema social, como também os problemas das classes mais humildes e marginais, precisamente aquelas que eram exploradas pela ganância burguesa do lucro.
      Em sua vertente regional, o Naturalismo brasileiro encontrou, nos autores cearenses preocupações com o declínio econômico do Nordeste (secas, migrações), têm representantes importantes como Rodolfo Teófilo (1853-1932) A Fome (1890); Manuel de Oliveira Paiva (1861-1892), D. Guidinha do Poço (1891); Domingos Oliveira (1850-1906), Luiza- Homem (1901).
      O Naturalismo amplia as características do Realismo, acentuando-as e acrescentando-lhe certos elementos que tornam inconfundível sua fisionomia. Mas sempre fácil de estabelecer, é mais de grau, de por menos ou de medida. Ambos se fundamentavam nas mesmas bases científicas e filosóficas.
      Para os Naturalistas, o determinismo do homem é apresentado como uma máquina guiada pela ação de leis físicas e químicas, pela hereditariedade, pelo meio físico e social. Os seres aparecem como produtos, como conseqüências de forças preexistentes que lhe roubam o livre-arbítrio, que limitam sua responsabilidade e os tomam, em casos extremos, verdadeiros joguetes nas mãos do destino.
 A preferência por temas de patologia social, baseando-se nos problemas da hereditariedade, os escritores naturalistas nem hesitaram em ressaltar o efeito das taras, das doenças e dos vícios na formação do caráter, justando-lhes ainda os efeitos complementares da formação familiar, da educação e do nível cultural.
      Das teorias científicas em voga, amplamente divulgadas na época, o Naturalismo torna-lhe a precisão e a objetividade, descrevendo com impessoalidade, exatidão e minúcia. A literatura engajada no movimento implica uma posição de combate, de decadência social, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com intenção realista de reformar a sociedade.
    Portanto, o romance naturalista é marcado por forte análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo. O Naturalismo apresenta romances, experimentais: a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalidade segundo a qual o homem é um animal. Antes de usar a razão, deixa-se levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas – como sexo – pela moral da classe dominante.
    A constante repressão leva às taras patológicas, tão ao gosto naturalista. Em conseqüência, esses romances de atos sexuais e tocantes, inclusive, em temas então proibidos, como o incesto, o homossexualismo, tanto masculino, quanto feminino.
Homossexualismo
    Considerado por alguns como um desvio do desejo, que se orienta para o mesmo sexo, tanto nas fantasias como na relação corporal, segundo a psicanálise e a psiquiatria, o homossexualismo “comum”, admitido e assumido pelo indivíduo, afirma-se com a idade de 11 ou 12 anos de idade. Pode ser exclusivo, e nesse caso o homem não se interessa pela mulher sem que, no entanto, sejam alterados os contatos amigáveis com o sexo feminino.
   Distingue-se o homossexualismo culpabilizado e compulsivo, o dos indivíduos que repudiam conscientemente este tipo de prática sexual, do homossexualismo misto, paralelo a uma atividade heterossexual satisfatória.
     Segundo Freud, o homossexualismo é, antes, de mais nada, uma questão ligada à escolha do objeto, sendo que este último está relacionado à fase narcisista da evolução da criança. Na verdade, o homossexualismo é somente um sintoma e não uma causa. A causa reside no aspecto bissexual fundamental de todo ser. No entanto Freud recupera o homossexualismo e dele faz uma análise, sempre, considerando-o como um resultado.
      Este é o tema que envolve a narrativa do Bom-Crioulo, do cearense Adolfo Caminha, cuja originalidade da obra é evidente o impacto manifestado e sustentado pelo triângulo amoroso.
Bom-Crioulo
    Autores "malditos" não são privilégio do século XX. Há exatamente cento e quatro anos morria Adolfo Caminha, um dos principais representantes da escola naturalista, talvez o nosso maior "maldito", que ousou tratar de um tema proibido – o homossexualismo na marinha - dentro de uma escola literária considerada menor, talvez daí a conspiração de silêncio que o cerca e à sua obra.
      Por sua importância, pode ser colocada, ao lado do romancista Aluísio Azevedo, nosso "band leader" do movimento naturalista. Iniciou-se na literatura como poeta, com Vôos Incertos (1886). Seguiram-se os romances: Lágrimas de um crente; Judite, ambos de (1887); A Normalista (1893); No País dos Ianques (1894); Bom-Crioulo (1895) e Tentação (1896).
      É verdade que, na literatura apresenta vários perigos, para quem quer por meio dela, atingir os estereótipos. Segundo Roger Bastide em seus estudos afrodescendentes, diz que a poesia lírica só nos mostra uma alma que canta as experiências individuais, enquanto a poesia satírica exagera caricatura e, por conseguinte, ultrapassa o estereótipo banal. Mesmo limitando-nos aos romancistas seria necessário distinguir os estereótipos do autor dos estereótipos de seus personagens.(1)                                          
     Pode-se lhe censurar aquela mencionada ausência de poesia, e ao seu tempo muitos exploraram ao autor a exploração de tema tão escabroso. Ninguém lhe poderá negar, porém a admirável unidade instrumental, como o autor não se poderá negar a coragem com que abordou o problema e a mestria com que soube desenvolver a trama romanesca, a que seu grande talento emprestava cores ainda mais sombrias.
    Bom-Crioulo é um romance de tese, cujo enredo construído com minúcias, onde o narrador (narração linear, gradativa) fornece um grande painel informativo da paisagem, muito comum ao Realismo-Naturalismo. A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o espectador que registrasse a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma super valorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.
     Escrito por Adolfo Caminha, Bom-Crioulo é uma triste e sombria história de marinheiros, onde se conta um caso de homossexualismo (talvez o primeiro da literatura brasileira), cujo personagem central Amaro é um escravo foragido, crioulo escolado, de bons sentimentos, como o título sugere “Bom-Crioulo”, que mantém um conturbado relacionamento com Aleixo, rapaz branco, meio bisonho.
    A interferência de uma personagem feminina, em terra, atraindo à atuação do moço, faz com que o crioulo o mate sob o acicate (estímulo) do ciúme. A ação progride com força e tensa verossimilhança neste romance até o desfecho. O que é interessante neste romance, é que os estereótipos contra os negros não desempenham papel algum, enquanto a paixão domina o herói do romance. A volúpia é tão forte que atira para o inconsciente, repelindo, e como que fazendo desaparecer, os estereótipos do início do livro.
   Bom-Crioulo prefigura, em vários sentidos, problemas do mundo moderno - como o universo gay - que os cânones literários recusam, já que se firmaram numa sociedade regida pelo favor, de forte componente cultural escravista. Este é um romance de paixão e morte, maldito e insuportável para seu tempo.
      É no negro Amaro, antes submisso e inerte, agora apaixonado pelo grumete louro, o frágil Aleixo, que cresce o animal brutalizado pelo trabalho no eito da fazenda. É a paixão homossexual que o transforma em brioso, arrogante, brutal e o conduz ao crime, quando se vê traído (a reação do ciúme em tomo desse sentimento se faz o jogo amoroso). O branco Aleixo, desprotegido, se esconde atrás do crioulo homossexual; mais seguro, pensa arrumar um amante de mais poses; inexperiente, apaixona-se por uma mulher - e nessa traição encontra a morte.
      O romance nos leva a crer, tratar-se de uma vingança contra a instituição militar, com sua disciplina desmoralizante, deprimente e intimidadora, nos moldes do que Raul Pompéia (1863-1895) teria feito em O Ateneu - crônica de saudades -, subtítulo do romance que indica tratar-se de um livro de memórias, publicado em 1888. Com este livro Adolfo Caminha cria uma tensão moderna entre as instituições carcomidas e a vida privada; seja a sua vida sexual - pela qual optou, abandonando a Marinha -, seja a de seu personagem Amaro, ambos evidenciando que a sociedade saída da escravidão estava longe de perder a feição totalitária.
    Os escritores naturalistas como Adolfo Caminha, partem sempre das bases "científicas" para analisar uma sociedade em flagrante dissolução, da sociedade burguesa romântica do século XIX. Essas concepções roubam do homem todo o seu livre-arbítrio, toda a responsabilidade pelos seus atos, que ficam sendo apenas o resultado inescapável da força e das condições físicas além de seu controle. Ou seja, o protagonista de um romance naturalista está sempre à mercê das circunstâncias e não de si mesmo. Ele parece, muitas vezes, não ter entidade própria, agindo como se fosse teleguiado ou manejado.
       O enfoque do Naturalismo, responde a uma tendência de época. O narrador em relação às suas personagens responde à exigência do romancista como um observador dos acontecimentos, mero captador da realidade circundante. E nesse sentido, o romance Bom-Crioulo, demonstra que Adolfo Caminha soube interpretar perfeitamente o receituário naturalista.
      Filiado ao pensamento filosófico de Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893), que acreditava encontrar na raça, no meio geográfico e social e no momento da evolução histórica os fatores capazes de explicar a produção artística, o desenvolvimento das funções mentais e os fatos históricos; e de Emile Zola (1840-1902), que desejou ver a literatura adotar o rigor metodológico dos trabalhos científicos, a que considerava verdadeiro mestre.
     Adolfo Caminha foi um crítico imparcial, de grande poder de análise e percepção dos valores estéticos, que lhe permitiu reconhecer, a despeito das limitações da época, o talento de Cruz e Souza (1861-1898). Reuniu suas críticas literárias em Cartas Literárias, publicadas em 1895, recentemente reeditadas pelas Edições da Universidade Federal do Ceará na coleção Nordestina, 1999.
      Para escrever Bom-Crioulo, Caminha utiliza-se de uma linguagem bastante acessível, e o seu modo de narrar é extremamente peculiar, usando constantemente o diálogo indireto. Tendo como temática predominante o homossexualismo (não aprova nem condena), não foi colocado apenas em relação a Amaro e Aleixo, estende-se também a outros personagens, os quais são aludidos como homossexuais.
      Resistindo ao tempo, apesar do esquecimento editorial, tão menosprezado pela crítica do tempo e, passados mais de um século de sua primeira edição (Livraria Moderna, editor Domingos de Magalhães, Rio 1895), reeditado 3ª edição Organizações Simões 1956, em 1991 pela Editora Ática, São Paulo, (indevidamente considerada 2ª edição), em 1997, mais uma edição pela Editora Artium, Rio de Janeiro, e recentemente em 2002 pela Martin Claret. O romance Bom-Crioulo é na verdade um dos mais robustos frutos da literatura brasileira e o ponto mais alto do Naturalismo no Brasil.

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