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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O NATURALISMO: ALUÍSIO DE AZEVEDO E SUAS OBRAS

“O MULATO” – ANÁLISE DE OBRA
  Por Gabriel Diniz
     O Mulato, eis o nome do romance que, segundo alguns críticos, inaugurou o naturalismo em nosso país. O advento dessa escola, no Brasil, ainda é controverso, haja vista que outros estudiosos consideram a obra O Coronel Sangrado, de Inglês de Sousa, a primeira desse estilo literário. Os que defendem essa ideia dizem que a obra de Azevedo ainda contava com muitos cacoetes românticos. O romance de Sousa, por sua vez, lançado quatro anos antes de O Mulato, possuía mais elementos da escola criada pelo francês Émile Zola.
     Controvérsias à parte, ater-nos-emos agora ao romance de Azevedo.
    O escritor, nascido na Província do Maranhão, debutou na cena literária oitocentista com a obra Uma lagrima de mulher, esta totalmente calcada nos preceitos românticos. Todavia, uma transformação ocorreu em seu segundo romance, O Mulato. Conta-se que o autor teve vários problemas com a Igreja no Maranhão, justamente por ter publicado diversos artigos, nos jornais, atacando o clero. Dum certo modo, isso acabou refletindo-se em O Mulato. Como? Vejamos!
     O enredo centra-se na história dos protagonistas, Ana Rosa e Raimundo. Os dois primos apaixonam-se, porém encontram enormes dificuldades para concretizar o amor. O rapaz, filho de José da Silva, é fruto dum caso de seu pai com a escrava Domingas. A jovem, por sua vez, é filha de Manuel Pedro da Silva, o Manuel Pescada, comerciante na cidade de São Luís. O encontro do casal se dá quando José da Silva se casa com Quitéria, a mesma não aceita a ideia do marido ter tido um filho com uma escrava. Sendo assim, o menino vai morar com o tio Manuel. Lá recebe o carinho de Mariana, esposa de Pescada. Nesse mesmo tempo, Quitéria é pega  por José da Silva com o cônego Diogo. Enfurecido com a traição, Silva esgana a esposa.  O clérigo, espertamente, faz um trato com o marido traído, que consiste em não delatá-lo. Porém, José da Silva não poderia também falar nada sobre o adultério da esposa. Desse modo, a morte de Quitéria é atribuída a um problema natural e também à feitiçaria.
      O padre Diogo, entretanto, não decide correr nenhum risco, temendo que Silva dê com a língua nos dentes, mata-o numa estrada que é conhecida pelo comentimento  de vários crimes atribuídos a escravos fugidos. Devido a isso, o clérigo fica isento de ter cometido quaisquer delitos.
     O tempo passa, e Raimundo viaja para a Corte e depois para Europa. No velho continente, torna-se doutor em Direito e conhece vários países e depois retorna para o Brasil. Fica alguns tempos no Rio de Janeiro, e decide ir para o Maranhão para resolver seus negócios.
    Na província, o rapaz é recebido com grande alegria e hospeda-se na casa do tia. Porém, aos poucos ele vai despertando a inveja da população. As coisas pioram, quando  demonstra, devido aos seus estudos, grande fé na ciência em detrimento dos dogmas católicos. A  sociedade maranhense o acusa de ser um ateu.
     E a situação fica mais complicada quando Raimundo decide pedir a Manuel a mão de Ana Rosa em casamento. O tio nega o pedido veementemente. O moço insiste em saber o porquê. Manuel reluta em dizê-lo, porém cede às pressões do sobrinho e diz que não permite o casamento, pois ele é um mulato. Desse modo, revela quem a mãe do jovem.
    Raimundo, entristecido, decide partir o mais rápido possível para à Corte. Entretanto, o amor por Ana Rosa é maior. A jovem engravida, o casal decide, então, fugir. Porém, o plano é frustrado, dado que o cônego Diogo juntamente com Dias — um português caixeiro que trabalha para Manuel e anseia em casar com Ana Rosa — conseguem impedir a fuga.
    Raimundo desesperado com a falha do plano, começa a deambular pela cidade e decide lançar mão da justiça para casar-se com a amada. Porém, o clérigo incita Dias a dar cabo na vida do rapaz.
    Os anos se passam, e, no final, o leitor é supreendido com Ana Rosa e Dias casados, os dois muito felizes e com três filhos. Um desfecho no mínimo desapontador para aqueles que almejam um final típico das novelas românticas.
    Penso, que esse é sem dúvidas um dos melhores romances do século XIX. Mesmo com esse hibridismo, romantismo mais naturalismo — fato esse que muitos apontam como um fator negativo —,  Azevedo foi o primeiro escritor a tocar fortemente no assunto da escravidão brasileira. É importante lembrar que nesse período, teorias europeias condenavam fortemente a junção de diferentes etnias, que na época recebiam o nome de raças. Por isso, a ideia da miscigenação era vista negativamente pela ciência do século XIX. Essas ideias foram fortemente propagadas em nosso país. O próprio termo “mulato” já é pejorativo, uma vez que calca-se na ideia de mula.
    De mais a mais, o autor também desnuda como ninguém a hipocrísia da sociedade da provincia do Maranhão. E, além disso, O mulato  traz à tona o anticlericalismo — um dos preceitos básicos da escola naturalista — e a visão acerca da mulher, que era vista como uma simples procriadora, que, se não sujeitasse ao casamento e consequentemente ao sexo, estaria fadada a sofrer crises de nervo, o histerismo. Enfermidade essa que foi amplamente discutida em vários romances naturalistas brasileiros. Pode-se dizer que o tema perpassou, praticamente, por todas as obras de cunho zolista do escritor.
    É válido destacar também as outras personagens do romance. Há a figura duma velha mexiriqueira, do poeta fracassado, da viúva louca por se casar, da moças desprovidas de beleza que estão atrás dum marido, etc.
    A descrição das cenas é também bastante impactante. Logo no início da obra o leitor é levado pelo narrador a conhecer as ruas de São Luís. Assim, depara-se com um leilão de escravos que é descrito duma maneira bastante detalhista. Os diálogos também são ótimos, principalmente alguns acerca da política brasileira.
    O valor da obra de Azevedo é indiscutível, todavia muitos críticos consideram a produção do naturalista bastante inferior quando comparada a de Machado de Assis. A meu ver, um erro crasso, visto que as obras de ambos escritores podem ser colocadas no mesmo patamar.
     Por fim, faz-se necessário destacar que O Mulato possui duas versões. Na primeira, lançada na década de 1870, Raimundo não é o protagonista da obra, quem ganha esse papel é cônego Diogo. Os estudiosos também apontam que o autor, nessa segunda versão, inseriu mais elementos naturalistas no livro.
     A dica é: leiam O Mulato! A obra é com certeza um dos maiores clássicos de nossa literatura.

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O CORTIÇO - RESUMO E ANÁLISE DA OBRA 
    Tendo como cenário uma habitação coletiva, o romance difunde as teses naturalistas, que explicam o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico
   Ao ser lançado, em 1890, O Cortiço teve boa recepção da crítica, chegando a obscurecer escritores do nível de Machado de Assis. Isso se deve ao fato de Aluísio de Azevedo estar mais em sintonia com a doutrina naturalista, que gozava de grande prestígio na Europa. O livro é composto de 23 capítulos, que relatam a vida em uma habitação coletiva de pessoas pobres (cortiço) na cidade do Rio de Janeiro.
  O romance tornou-se peça-chave para o melhor entendimento do Brasil do século XIX. Evidentemente, como obra literária, ele não pode ser entendido como um documento histórico da época. Mas não há como ignorar que a ideologia e as relações sociais representadas de modo fictício em O Cortiço estavam muito presentes no país.
RIGOR CIENTÍFICO
    Essa criação de Aluísio de Azevedo tem como influência maior o romance L’Assommoir, do escritor francês Émile Zola, que prescreve um rigor científico na representação da realidade. A intenção do método naturalista era fazer uma crítica contundente e coerente de uma realidade corrompida. Zola e, neste caso, Aluísio combatem, como princípio teórico, a degradação causada pela mistura de raças.
    Por isso, os dois romances naturalistas são constituídos de espaços nos quais convivem desvalidos de várias etnias. Esses espaços se tornam personagens do romance.
     É o caso do cortiço, que se projeta na obra mais do que os próprios personagens que ali vivem. Um exemplo pode ser visto no seguinte trecho:
    “E durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo.”
     O narrador compara o cortiço a uma estrutura biológica (floresta), um organismo vivo que cresce e se desenvolve, aumentando as forças daninhas e determinando o caráter moral de quem habita seu interior.
NARRADOR
     A obra é narrada em terceira pessoa, com narrador onisciente (que tem conhecimento de tudo), como propunha o movimento naturalista. O narrador tem poder total na estrutura do romance: entra no pensamento dos personagens, faz julgamentos e tenta comprovar, como se fosse um cientista, as influências do meio, da raça e do momento histórico.
   O foco da narração, a princípio, mantém uma aparência de imparcialidade, como se o narrador se apartasse, à semelhança de um deus, do mundo por ele criado. No entanto, isso é ilusório, porque o procedimento de representar a realidade de forma objetiva já configura uma posição ideologicamente tendenciosa.
TEMPO
     Em O Cortiço, o tempo é trabalhado de maneira linear, com princípio, meio e desfecho da narrativa. A história se desenrola no Brasil do século XIX, sem precisão de datas. Há, no entanto, que ressaltar a relação do tempo com o desenvolvimento do cortiço e com o enriquecimento de João Romão.
ESPAÇO
     São dois os espaços explorados na obra. O primeiro é o cortiço, amontoado de casebres mal-arranjados, onde os pobres vivem. Esse espaço representa a mistura de raças e a promiscuidade das classes baixas. Funciona como um organismo vivo. Junto ao cortiço estão a pedreira e a taverna do português João Romão.
   O segundo espaço, que fica ao lado do cortiço, é o sobrado aristocratizante do comerciante Miranda e de sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do século XIX. Esses espaços fictícios são enquadrados no cenário do bairro de Botafogo, explorando a exuberante natureza local como meio determinante. Dessa maneira, o sol abrasador do litoral americano funciona como elemento corruptor do homem local.
ENREDO
     O livro narra inicialmente a saga de João Romão rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora os empregados e se utiliza até do furto para conseguir atingir seus objetivos. João Romão é o dono do cortiço, da taverna e da pedreira. Sua amante, Bertoleza, o ajuda de domingo a domingo, trabalhando sem descanso.
    Em oposição a João Romão, surge a figura de Miranda, o comerciante bem estabelecido que cria uma disputa acirrada com o taverneiro por uma braça de terra que deseja comprar para aumentar seu quintal. Não havendo consenso, há o rompimento provisório de relações entre os dois.
    Com inveja de Miranda, que possui condição social mais elevada, João Romão trabalha ardorosamente e passa por privações para enriquecer mais que seu oponente. Um fato, no entanto, muda a perspectiva do dono do cortiço. Quando Miranda recebe o título de barão, João Romão entende que não basta ganhar dinheiro, é necessário também ostentar uma posição social reconhecida, freqüentar ambientes requintados, adquirir roupas finas, ir ao teatro, ler romances, ou seja, participar ativamente da vida burguesa.
    No cortiço, paralelamente, estão os moradores de menor ambição financeira. Destacam-se Rita Baiana e Capoeira Firmo, Jerônimo e Piedade. Um exemplo de como o romance procura demonstrar a má influência do meio sobre o homem é o caso do português Jerônimo, que tem uma vida exemplar até cair nas graças da mulata Rita Baiana. Opera-se uma transformação no português trabalhador, que muda todos os seus hábitos.
     A relação entre Miranda e João Romão melhora quando o comerciante recebe o título de barão e passa a ter superioridade garantida sobre o oponente. Para imitar as conquistas do rival, João Romão promove várias mudanças na estalagem, que agora ostenta ares aristocráticos.
O cortiço todo também muda, perdendo o caráter desorganizado e miserável para se transformar na Vila João Romão.
    O dono do cortiço aproxima-se da família de Miranda e pede a mão da filha do comerciante em casamento. Há, no entanto, o empecilho representado por Bertoleza, que, percebendo as manobras de Romão para se livrar dela, exige usufruir os bens acumulados a seu lado.
Para se ver livre da amante, que atrapalha seus planos de ascensão social, Romão a denuncia a seus donos como escrava fugida. Em um gesto de desespero, prestes a ser capturada, Bertoleza comete o suicídio, deixando o caminho livre para o casamento de Romão.
ALEGORIA DO BRASIL
    Mais do que empregar os preceitos do naturalismo, a obra mostra práticas recorrentes no Brasil do século XIX. Na situação de capitalismo incipiente, o explorador vivia muito próximo ao explorado, daí a estalagem de João Romão estar junto aos pobres moradores do cortiço. Ao lado, o burguês Miranda, de projeção social mais elevada que João Romão, vive em seu palacete com ares aristocráticos e teme o crescimento do cortiço. Por isso pode-se dizer que O Cortiço não é somente um romance naturalista, mas uma alegoria do Brasil.
   O autor naturalista tinha uma tese a sustentar sua história. A intenção era provar, por meio da obra literária, como o meio, a raça e a história determinam o homem e o levam à degenerescência.
A obra está a serviço de um argumento. Aluísio se propõe a mostrar que a mistura de raças em um mesmo meio desemboca na promiscuidade sexual, moral e na completa degradação humana. Mas, para além disso, o livro apresenta outras questões pertinentes para pensar o Brasil, que ainda são atuais, como a imensa desigualdade social.

guiadoestudante.abril.com.br/estude/literatura/materia_415646.shtml

CASA DE PENSÃO
Análise da obra
    A obra foi baseada num fato real: a Questão Capistrano, crime que sensibilizou o Rio de Janeiro em 1876/77, envolvendo dois estudantes, em situação muito próxima à da narração de Aluísio Azevedo. Neste livro, o autor estuda as influências da sociedade sobre o indivíduo sem qualquer idealização romântica, retratando rigorosamente a realidade social trazendo para a literatura um Brasil até então ignorada.
    Autor fiel à tendência naturalista difundida pelo realismo, Aluísio Azevedo focaliza, nesta obra, problemas como preconceitos de classe, de raças, a miséria e as injustiças sociais. Descreve a vida nas pensões chamadas familiares, onde se hospedavam jovens que vinham do interior para estudar na capital. Diferente do romantismo, o naturalismo enfatiza o lado patológico do ser humano, as perversões dos desejos e o comporta-mento das pessoas influenciado pelo meio em que vivem.
   Casa de Pensão é uma espécie de narrativa intermediária entre o romance de personagem (O Mulato) e o romance de espaço (O Cortiço). Como em O Mulato, todas as ações ainda estão vinculadas à trajetória do herói, nesse caso, Amâncio de Vasconcelos. Mas, como em O Cortiço, a conquista, ordenação e manutenção de um espaço é que impulsiona, motiva e ordena a ação. Espaço e personagem lutam, lado a lado, para evitar a degradação.
    As teses naturalistas, especialmente o Determinismo, alicerçam a construção das personagens e das tramas.
     Romance naturalista de 1884, em que o autor, de carreira diplomática bastante acidentada, move personagens que se coadunam perfeitamente com a análise dos críticos de que seus tipos são, via de regra, grosseiros, não se distinguem pela sutileza da compreensão, nem pela frescura dos sentimentos. São eixos de relações da estrutura da presente narrativa a Província - Maranhão, a Corte - Rio de Janeiro, a casa paterna e a casa de pensão.
ESTILO
    O naturalismo está plenamente representado em Casa de Pensão desde a abertura do romance, quando Amâncio aparece marcado fatalisticamente pela escola e pela família: uma e outra o encheram de revolta. Por causa de um castigo justo ou injusto, "todo o sentimento de justiça e da honra que Amâncio possuía, transformou-se em ódio sistemático pelos seus semelhantes...". O leite que o menino mamou na ama negra também está contagiado e irá marcá-lo. O médico dizia: "Esta mulher tem reuma no sangue e o menino pode vir a sofrer para o futuro."  Amâncio é uma cobaia, um campo de experimentação nas mãos do romancista. Nele o fisiológico é muito mais forte do que o psicológico. É o determinismo que vai acompanhar toda a carreira do personagem.
   Está presente também na obra o sentido documental e experimental do romance naturalista, renunciando ao sentimentalismo e à evasão, procura construir tudo sobre a realidade. Como já mencionado, a estória do romance se baseia num caso real.
LINGUAGEM
     Uma técnica comum ao escritor naturalista é o abuso dos pormenores descritivo-narrativos de tal modo que a estória caminha devagar, lerda e até monótona. É a necessidade de ajuntar detalhes para se dar ao leitor uma impressão segura de que tudo é pura realidade. Essas minúcias se estendem a episódios, a personagens e a ambientes. Num episódio, por exemplo, há minúcias de tempo, local e personagens. E móveis de uma sala até os objetos mais miúdos.
    Não se pode dizer que a linguagem do romance é regionalista; pelo contrário, o padrão da língua usada é geral e o torneio frasal, a estrutura morfo-sintática é completamente fiel aos padrões da velha gramática portuguesa.
    Como Machado de Assis, Aluísio Azevedo também usa alguns recursos desconhecidos da língua portuguesa do Brasil, principalmente na língua oral. Assim, por exemplo, o caso da apossínclise (é uma posição especial do pronome oblíquo que não escutamos no Brasil, mas é comum até na língua popular de Portugal). São exemplos de apossínclise: "Há anos que me não encontro com o amigo." (Há anos que não me...) "Se me não engano, você está certo." Em Casa de Pensão essa posição pronominal é um hábito comum.
FOCO NARRATIVO
    O autor escolheu o seu ponto-de-vista narrativo: a terceira pessoa do singular, um narrador onisciente e onipotente, fora do elenco dos personagens. Como um observador atento e minucioso dentro das próprias fórmulas apertadas do naturalismo. No caso deste romance, Aluísio Azevedo trabalhou muito servilmente sobre os fatos absolutamente reais.
TEMÁTICA
     Como em O Cortiço, Aluísio de Azevedo se torna excepcionalmente rico na criação de personagens coletivos: a casa de pensão, tão comum ainda hoje, no Brasil inteiro, tem vida, uma vida estudante, nas páginas do romance. Aluísio conhecia, de experiência própria, esse ambiente feito de tantos quartos e tantos inquilinos, tão numerosos e tão diferentes, nivelados pela mediocridade e em fácil decadência moral. O autor faz alguns retratos com evidentes traços caricaturais (a sua velha mania ou vocação para a caricatura...), mas fiéis e verdadeiros. Tudo se movimenta diante do leitor: a casa de pensão é um mundo diferente, gente e coisas tomam aspectos novos, as pessoas adquirem outros hábitos, informadas ou deformadas por essa vida comunitária tão promíscua. Aí se encontram e se desencontram, se amontoam e se separam tantos indivíduos transformados em tipos, conhecidos, às vezes, apenas pelo número do quarto. Em O Cortiço o meio social é mais baixo; na Casa de Pensão é médio.
     Às doenças morais (promiscuidades, hipocrisia, desonestidades, sensualismos excitados e excitantes, ódios, baixos interesses, dinheiro...) se misturam também doenças físicas (o tuberculoso do quarto 7 que morre na casa de pensão, a loucura e histerismo de Nini...). Foi o que encontrou Amâncio na Casa de Pensão de Mme. Brizard. Fora para o Rio de Janeiro, para estudar. E, num ambiente como esse, quem seria capaz de estudar? É verdade que o rapaz já trazia a sua mentalidade burguesa do tempo: o que ele buscava não era uma profissão, mas apenas um diploma e um título de doutor. Ele, sendo rico, não precisaria da profissão, mas, por vaidade, de um status, de um anel no dedo e de um diploma na parede. Essa mania de doutor, doença que pegou no Brasil, já foi magistralmente caricaturada em deliciosa carta de Eça de Queirós ao nosso Eduardo Prado: "A nação inteira se doutorou. Do norte ao sul do Brasil, não há, não encontrei senão doutores! Doutores com toda a sorte de insígnias, em toda a sorte de funções!! Doutores com uma espada, comandando soldados; doutores com uma carteira, fundando bancos: doutores com uma sonda, capitaneando navios; doutores com uma apito, comandando a polícia; doutores com uma lira, soltando carnes; doutores com um prumo, construindo edifícios; doutores com balanças, ministrando drogas; doutores sem coisa alguma, governando o Estado! Todos doutores..." O próprio Aluísio de Azevedo abandonou a Província para buscar sucessos na Corte (Rio de Janeiro) e, certamente também, um título de doutor...
PERSONAGENS
     Os personagens, sob nomes fictícios, escondem pessoas reais:
Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos - (João Capistrano da Silva) estudante, acusado de sedução. Foi absolvido.
Amélia ou Amelita - (Júlia Pereira) a moça seduzida, pivô da tragédia.
Mme. Brizard - (D. Júlia Clara Pereira, mãe da moça e do rapaz, assassino) é uma viúva, dona da casa de pensão: 
João Coqueiro - Janjão - (Antônio Alexandre Pereira, irmão da moça Júlia Pereira e assassino de João Capistrano. Foi também absolvido).
Dr. Teles de Moura - (Dr. Jansen de Castro Júnior) advogado da família da moça.
ENREDO
    Amâncio (Da Silva Bastos e Vasconcelos), rapaz rico e provinciano, abandona o Maranhão e segue de navio para o Rio de Janeiro (a Corte) a fim de se encaminhar nos estudos e na vida. É um provinciano que sonha com os deslumbramentos da Corte. Chega cheio de ilusões e vazio de propósitos de estudar... A mãe fica chorosa e o pai, indiferente, como sempre fora no trato meio distante com o filho. O rapaz tinha que se tornar um homem.
     Amâncio começa morando em casa do sr. Campos, amigo do Pai, e, forçado, se matricula na Escola de Medicina. Ia começar agora uma vida livre para compensar o tempo em que viveu escravizado às imposições do pai e do professor, o implacável Pires.
    Por convite de João Coqueiro, co-proprietário de uma casa de pensão, junto com a sua velhusca mulher Mme. Brizard, muda-se para lá. É tratado com as maiores preferências: os donos da pensão queriam aproveitar o máximo de seu dinheiro e ainda arranjar o seu casamento com Amélia, irmã de Coqueiro. Um sujo jogo de baixo interesses, sobretudo de dinheiro. Naquele ambiente, tudo concorreria para fazer explodir a super-sensualidade do maranhense.
    "Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde e traiçoeiro: Na ramificação de seu caráter e sensualidade era o galho único desenvolvido e enfolhado, porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores."
     A casa de pensão era um amontoado de gente, em promiscuidade generalizada, apesar da hipócrita moralidade pregada pelo seu dono: havia miséria física e moral, clara e oculta. Com a chegada de Amâncio, a pensão passou a arapuca para prender nos seus laços o jovem, inesperto e rico estudante: pegar o seu dinheiro e casá-lo com a irmã do Coqueiro. Para alcançar o fim, todos os meios eram absolutamente lícitos. Amélia, principalmente quando da doença do rapaz, se desdobrou nos mais íntimos cuidados. Até que se tornou, disfarçadamente, sua amante. Sempre mantendo as aparências do maior respeito exigido dentro da pensão pelo João Coqueiro...
     O pai de Amâncio morre no Maranhão. A mãe chama o filho. Ele pretendo voltar, logo que terminarem os seus exames de medicina. Era preciso que o filho voltasse para vê-la e ver os negócios que o pai deixara. Mas o rapaz está preso à casa de pensão e a Amélia: este o ameaça e só permite sua ida ao Maranhão, depois do casamento. Amâncio prepara sua viagem às escondidas. Mas, no dia do embarque, um oficial e justiça acompanhado de policiais o prende para apresentação à delegacia e prestação de depoimentos. Amâncio é acusado de sedutor da moça. João Coqueiro prepara tudo: o caso foi entregue ao famigerado e chicanista Dr. Teles de Moura. Aparecem duas testemunhas contra o rapaz. Começa o enredado processo: uma confusão de mentiras, de fingimentos, de maucaratismo contra o jovem rico e desfrutável para os interesses pecuniários de Mme. Brizard e marido. Há uma ressonância geral na imprensa e, na maioria, os estudantes se colocam ao lado de Amâncio. O senhor Campos prepara-se para ajudar o seu protegido, mas Coqueiro lhe faz chegar às mãos uma carta comprometedora que Amâncio escrevera à sua senhora, D. Hortênsia. E se coloca contra quem não soube respeitar nem a sua casa...
   Três meses depois de iniciado o processo, Amâncio é absolvido. O rapaz é levado em triunfo para um almoço, no Hotel Paris.
   "Amâncio passava de braço a braço, afagado, beijado, querido, como uma mulher famosa." Todo mundo olhava com curiosidade e admiração o estudante absolvido. E lhe atiravam flores, Ouviam-se vivas ao estudante e à Liberdade. Os músicos alemães tocaram a Marselhesa. Parecia um carnaval carioca.
     Em outro plano, Coqueiro, sozinho, vendo e ouvindo tudo. A alma envenenada de raiva. Em casa o destampatório da mulher que o acusava de todo o fracasso. As testemunhas reclamavam o pagamento do seu depoimento. Um inferno dentro e fora dele. Chegaram cartas anônimas com as maiores ofensas. Um homem acuado...
    Pegou, na gaveta, o revólver do pai. E pensou em se matar. Carregou a arma. Acertou o cano no ouvido. Não teve coragem. Debaixo da sua janela, gritavam injúrias pela sua covardia e mau caráter... No dia seguinte, de manhã, saiu sinistro. Foi ao Hotel Paris. Bateu no quarto II, onde se encontrava o estudante com a rapariga Jeanete. Esta abriu a porta. Amâncio dormia, depois da festa e da bebedeira, de barriga para cima. Coqueiro atirou a queima-roupa. Amâncio passa a mão no peito, abre os olhos, não vê mais ninguém. Ainda diz uma palavra: "mamãe" ... e morre.
     Coqueiro foi agarrado por um policial, ao fugir. A cidade se enche de comentários. Muitos visitam o necrotério para ver o cadáver de Amâncio. Vendem-se retratos do morto. Um funeral grandioso com a presença de políticos, notícias e necrológicos nos jornais, a cidade toda abalada. A tragédia tomou conta de todos.
    A opinião pública começa a flutuar, a mudar de posição: afinal, João Coqueiro tinha lavado a honra da irmã...
    Quando D. Ângela, envelhecida e enlutada, chega ao Rio de Janeiro, se viu no meio da confusão, procurando o filho. Numa vitrine, ela descobriu o retrato do filho "na mesa do necrotério, com o tronco nu, o corpo em sangue. Uma legenda: "Amâncio de Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro, no Hotel Paris...

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RESUMO DE OUTRAS OBRAS
 A Mortalha de Alzira
    A mortalha de Alzira é o oitavo romance de Aluísio Azevedo, já conhecido do público leitor por obras como O mulato, de 1881. Publica A mortalha de Alzira sob o pseudônimo de Vítor Leal, em forma de folhetim, no jornal Gazeta de Notícias, de 13 de fevereiro a 23 de março de 1891. Em 1892 A mortalha de Alzira será publicado em volume, alcançando muito sucesso: foram vendidos 10.000 exemplares em três anos, o que, na época, foi considerado um recorde. A mortalha de Alzira é o único livro do autor que se passa na sua íntegra fora do país, na França, no período do reino de Luís XV, século XVIII, nos arredores de Paris. 
     Sua história é a eterna luta entre a fé e o erótico: o padre Angelo busca desesperadamente reprimir sua paixão pela cortesã Alzira. Mostra também Aluísio Azevedo a corrupção da Igreja, sua ligação com a aristocracia em processo de decadência. Aluísio Azevedo viveu num período em que a luta da fé contra o livre pensamento estava na ordem do dia: no Brasil, o comportamento do clero, devasso e corrupto, levava os escritores a uma posição anticlerical, e A mortalha de Alzira pode ser considerado um documento nesse sentido. Os romances-folhetins eram em geral romances românticos, mas, quando do início da escola naturalista, faziam muito sucesso os elementos naturalistas que, convivendo com a intriga romântica, passaram a aparecer nos folhetins. Neste momento, na França, havia uma forte onda anticlerical, com a campanha pela criação das escolas leigas. 
      Da França (Zola) e Portugal (Eça de Queirós) vieram as principais influências da escola naturalista, inaugurada por Aluísio Azevedo com O mulato. Em A mortalha de Alzira encontramos elementos românticos (sonhos, devaneios) e naturalistas. A corrente naturalista no Brasil seguiu o período de mudanças profundas por que passava a sociedade brasileira: decadência da estrutura agrária; fim da guerra do Paraguai; movimentos abolicionistas; luta da Igreja Católica contra a Maçonaria; a vida urbana e seus trabalhadores livres; revolução nas ciências. Em todo o mundo, houve avanços nas pesquisas científicas e na avaliação da importância do conhecimento científico. Falava-se do mundo racional, em oposição ao mundo fantasioso e cristão, de verdades absolutas, do período medieval. A literatura da era "materialista" no Brasil desdenhará o sentimento, e com ele o sentimentalismo romântico, indo buscar a "verdade" dos fatos precisamente observados e recolhidos documentalmente.
      É neste contexto que as questões individuais de anomalias de comportamento (como o sacerdote, de A mortalha de Alzira) tiveram um preponderante papel: ao investigar através da ciência que se desenvolvia à época o comportamento humano, os autores naturalistas queriam afirmar os condicionamentos do meio sobre o indivíduo; com isso, denunciavam a injustiça de certas instituições e mostravam alguns comportamentos perturbados ou doentios daí decorrentes. Em A mortalha de Alzira o crítico Moisés Massaud considera inovador o fato que o histérico seja um homem, no caso um padre; pois, até então, eram as mulheres as histéricas, e vários romances à época trataram do tema da histeria feminina. Também considera importante o fato de que Aluísio Azevedo denuncia a educação recebida pelo sacerdote como a razão de seu infortúnio, por não lhe ter permitido escolher um outro destino. A figura do médico, muito comum nos romances naturalistas, também está presente em A mortalha de Alzira (o dr. Cobalt), confundindo-se com o próprio romancista, pois é quem investiga o comportamento da personagem/paciente.

Filomena Borges
    É o quinto romance de Aluísio Azevedo, que escreveu também O Mulato, O Cortiço e Casa de Pensão considerados os romances mais importantes do autor. Por ser visto como o 'pai' do naturalismo no Brasil, influenciado pelos escritores Eça de Queirós e Émile Zola, fundadores do naturalismo na Europa, Aluísio Azevedo busca em seus romances uma representação mais ou menos fiel do observado, fugindo assim da tendência romântica de idealização da realidade. Em seus livros, o cotidiano da vida na cidade, com alguns de seus personagens mais típicos, é elemento constante. Neste romance encontramos o casal Borges e Filomena: esta, ambiciosa, busca através do casamento uma forma de ascender socialmente.
    Borges, no entanto, embora possua bens, é pacato, dócil cidadão sem muitas ambições. Assim, não corresponde ao ideal de marido que Filomena tem em mente. Esta buscará, então, modificá-lo a todo custo. Um incidente na primeira noite mostra para Borges como será difícil seu casamento: Filomena o expulsa do leito nupcial, obrigando-o a dormir fora do quarto. Durante muito tempo a situação permanece sem alteração, apesar dos agrados constantes de Borges à esposa do cumprimento de todas as exigências dela, as quais, finalmente, acabarão por modificar profundamente o pacato marido, além de levá-lo à ruína econômica. Borges faz tudo pelo sentimento que dedica à esposa, mas nunca chegará a desfrutar do que deseja acima de tudo: paz e tranqüilidade ao lado de sua Filomen
       Segundo o crítico Antônio Cândido, deve-se ler Filomena Borges "pelo viés do divertimento". De fato, o autor cria situações hilariantes com o casal Borges e Filomena. Ainda, diz Cândido, "este romance é importante para a compreensão da personalidade literária de Aluísio Azevedo, que se caracteriza por uma mistura de bom humor e melancolia". O grande número de palavras francesas de que se utiliza o autor, decorre da tendência vigente na época, quando a nossa literatura não só fazia uso abundante de termos franceses como tinha nela seu principal modelo.
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MULHERES NO CORTIÇO: A SEGREGAÇÃO FEMININA NA OBRA DE ALUÍSIO AZEVEDO
Aline Cristine Vieira Lima - UNIPAM
Orientação: Prof. Dr. Luís André Nepomuceno
Resumo: Este artigo se propõe a analisar o livro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que caracteriza, pela estética naturalista, a vida e a sociedade carioca em 1890. Embora a obra esteja destinada  a  uma  observação minuciosa de fatos e personagens no conjunto do romance naturalista, nossa ênfase maior será com relação às mulheres abordadas no livro: a mulher pobre, meretriz, lavadeira, inocente, perspicaz, amorosa, a dedicada ao marido, a mulher sensual, a que vivia em função dos filhos, mulheres independentes. O intuito de destacar estas mulheres é apresentar a verdade, as emoções de tais personagens e as impressões da realidade e simplicidade de muitas. Semelhanças no comportamento e no ponto de vida de alguns personagens fazem com que o leitor viva o ontem e o hoje envolvido no contexto histórico-social.
Palavras-chave: Romance Brasileiro – Naturalismo – Aluísio Azevedo – Literatura e Mulher
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
    Nasce em 14 de abril de 1857 em São Luís do Maranhão, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo, um jovem maranhense que desde cedo tinha forte inclinação artística para o desenho e a pintura. Devido a tal vocação, em 1876, embarca para o Rio de Janeiro a fim de matricular-se na Academia Imperial de Belas Artes. Ainda desponta-lhe um nítido interesse pela vocação literária, o que acaba o consagrando.
    Azevedo seria um narrador perfeitamente realizado e completamente exaurido, sendo considerado a principal figura do romance naturalista no Brasil, devido a sua arte controlada pela observação direta. Publica em 1890, O Cortiço, por meio do qual podemos perceber que sua obra literária apresenta dois aspectos bem distintos: de um lado, um romance com um propósito derealização artística e, de outro lado, que o narrador não teve o cuidado de urdidura e da forma como teve nos primeiros.
     Suas publicações lhe asseguram a sua presença na história da literatura brasileira, já que o autor segue de perto toda a técnica e o processo do naturalismo, deixando o melhor de seu espírito de observação e de análise, de harmonia e preocupação da obra-de-arte perfeitamente realizada.Substituindo o romantismo pelo naturalismo, Aluísio era o pintor que deixava de pintar ao sabor da inspiração, para pintar diante do modelo vivo. A realidade circundante, o cenário de sua observação direta, permite ao romancista copiar os tipos que estão ao alcance de seus olhos. E daíadvém a sua força e a sua originalidade. (MONTELLO, 1963, p.10)
     Aluísio Azevedo mostra a realidade urbana do Rio de Janeiro nos fins do século XIX. Destaca o problema da habitação, precisamente em Botafogo, onde se passa toda a narrativa de O Cortiço. É neste período que se tem o surgimento de cortiços, habitações coletivas. Há uma transposição da realidade objetiva para o romance guardando o máximo de fidelidade possível.
     Aluísio não deixava de ser o narrador instintivo, urdindo a trama do livro com o senso de interesse do leitor. Com trechos expressivos, revela os seus melhores dons de romancista e aglutina os indivíduos no romance da multidão, ressaltando o reflexo de preconceitos da época abordados em uma rica caracterização do ambiente, com variedades de tradições e condições semelhantes de vida. Faz um retrato e se espelha no Rio de Janeiro, mostrando assim alguns traços marcantes da fisionomia urbana.
     Só em O Cortiço Aluísio atinou de fato com a fórmula que se ajustava ao seu talento: desistindo de montar um enredo em função de pessoas, ateve-se à sequenciação de descrições muito precisas onde cenas coletivas de tipos psicologicamente primários fazem no conjunto do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.(BOSI, 1994, p. 190)
      Os realistas, pelos fatos e pela tendência que possuem de encarar as coisas como na realidade são, merecem destaque. Eles opõem-se habitualmente ao idealismo e ao Romantismo, em virtude de sua opção pela realidade tal como é e não como deve ser. Procuram representar a verdade, sempre que o homem prefere deliberadamente encarar os fatos edeixar que a verdade dite a forma e subordine os sonhos ao real.
     O Realismo logrou impor a pintura verdadeira da vida dos humildes e obscuros, os homens e mulheres comuns que estão habitualmente em torno de nós, vivendo uma vida compósita, feita de muitos opostos, bem e mal, beleza e feiúra, rudeza e requinte, sem receio do trivial e do monótono (COUTINHO, 1976, p. 185-186).
     O realismo, com seu verdadeiro material, busca utilizar-se da verossimilhança no arranjo dos fatos selecionados, apontando assim uma direção essencial que se traduz no uso da emoção que deve fugir ao sentimentalismo ou à artificialidade. Os incidentes de enredo decorrem do caráter das personagens e dos motivos humanos que dominam as ações. O realismo retrata e interpreta seres humanos completos, vivos, cujos motivos e emoções fornecem uma interpretação objetiva da vida. Ele ainda tem a relação com a Psicologia, pois coincide com o desenvolvimento da ciência da alma humana, já que se direcionou para o corpo e a vida exterior, e para o espírito e a vida interior.
    O Realismo tem também uma técnica e um método específico. Assim é que a precisão e a fidelidade na observação e na pintura são essenciais características realistas. Usam-se detalhes aparentemente insignificantes na pintura de personagens e ambientes. E esses detalhes devem ser reunidos e harmonizados, para dar a impressão da própria realidade. Recolhidos os fatos, há que dar-lhes certo arranjo de acordo com um propósito artístico, a fim de criar uma unidade especial (COUTINHO, 1976, p. 187).
     A escola naturalista se preocupa muito com o espírito de observar e analisar a realidade. Esta realidade não é idealizada ou imaginada através da razão, mas sim, através dos sentimentos, uma realidade materialmente verdadeira. Faz uma análise em profundidade, de fatos psicológicos e sociais que assinalam a estética do real.
     Os escritores realistas até então mostram possuir uma nova visão de mundo. Eles assumem compreender e explicar a realidade, através de fatos para poder conhecê-los com precisão: “Preocupação com a observação e análise da realidade. Trata-se de uma análise em profundidade, a fim de evitar uma visão grosseira e deformada pela observação comum; é necessário assinalar os valores morais e estéticos do real” (FILHO, 1995, p. 240).
  Aluísio Azevedo destaca a preocupação com os aspectos de inferioridade dos personagens. Com clareza, equilíbrio, harmonia na composição, o autor se preocupa com a “perfeição formal” utilizando uma linguagem próxima da realidade.
     Os naturalistas se preocupam com a época contemporânea, ao mesmo tempo em que analisam fielmente o interesse da sociedade colocada em questão. Ao analisar e compreender os reflexos socioculturais, eles demonstram as atitudes, o modo de vida, os relatos, os comportamentos, bem como a despreocupação com a amoralidade, desde que o fato observado e analisado tenha interesse.
     Entre os naturalistas predomina uma concepção materialista do homem que enfatiza o equilíbrio e a harmonia na visão intencional da realidade. Algumas questões do comportamento e da cultura sobre camadas populares merecerão destaque no artigo, tais como: miséria, adultério, criminalidade, desequilíbrio psíquico com a intenção de reformar a sociedade.
     A universalidade e fidelidade aos fatos conduzem o Naturalismo a certo amoralismo, certa indiferença, não importando assim a opinião sobre atos em si. O naturalismo amplia as características do Realismo, acrescenta e acentua uma visão mais nítida do comportamento humano.
2. AS MULHERES NO CORTIÇO
     A estética de Aluísio está repleta de fatos e depoimentos femininos, hábitos estes que são desenvolvidos em habitações populares, os cortiços. O autor procura destacar o comportamento e o modo de vida de algumas personagens bem como as condições socioeconômicas do universo feminino do século XIX.
    Sua narrativa caracteriza o ambiente, preocupando-se com a época e os conflitos que interessam à sociedade, sobretudo pelas camadas mais baixas. Neste ambiente mente envolvente, o destaque maior será dado às mulheres. Elas serão abordadas no contexto social fazendo vir à tona a contribuição feminina no processo histórico.
    Acontecimentos e sentimentos que marcaram as mulheres serão abordados, visando a uma maior compreensão. A obra O Mulato, também escrita por Aluísio Azevedo será colocada em questão para se contrapor a alguns personagens que se assemelham em determinados comportamentos sociais.
    A visão da própria realidade visa interpretar e entender as razões, motivos e o caráter das personagens: Bertoleza, Dona Estela, Leónie, Leocádia, Rita Baiana, Piedade de  Jesus, Leandra, Ana das Dores, Neném e Augusta Carne-Mole.
2.1. As solteiras
     A mulata Rita Baiana, envolvente e sensual, vivia amasiada com Firmo. Gostava de ter sua própria autonomia. Diz a personagem: “Casar? Protestou a Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar! Livra! Para quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que é a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre!” (AZEVEDO, 1979, p. 85).
     A grande maioria das mulheres populares tinha a própria maneira de pensar e viver. Tinha um linguajar mais solto e menos inibido que o das outras de classe social, e vivia em regime de concubinato, já que os altos custos das despesas matrimonias as levavam a este regime.
     Tal atitude representava preconceitos da época, já que a mulher era símbolo de modelo do lar e do marido, enquanto as solteironas eram mulheres perdidas, indignas e perigosas por servirem de descaminho para as “filhas de família”.
     Leónie era na verdade uma verdadeira rameira em potencial, uma meretriz, prostituta. Ela, que era madrinha de Pombinha, acaba a levando ao mundo da prostituição. “O descompasso entre a moralidade oficial e a realidade agia ainda de outra forma para fazer vítimas entre mulheres pobres: promovia, entre as mais ingênuas, a convicção de que se não podiam ser santas, só lhes restava ser putas” (FONSECA, in PRIORI, 1997, p. 532).
     Na verdade, o que se propunha no mercado de emprego até então para mulheres de origem humilde e de baixa escolaridade não era muito satisfatório. O que importava era ser jovem e bonita, a prostituição era o que aparecia para muitas destas jovens. Muitas das meretrizes eram casadas ou viviam amasiadas. Suas atividades não eram bem vistas pela moral burguesa e tão pouco pelo marido. Era considerado um modo de vida desvinculado das normas oficiais.
      Pombinha era bonita, querida por todos no cortiço. Tinha um noivo, João da Costa e era filha de Dona Isabel, uma pobre mulher seguida de desgostos. Fora casada com um dono de casa de chapéus que quebrou e suicidou-se. Pombinha era a flor do cortiço. A história da jovem gira em torno do fato de ela ainda não ser moça, já que ainda não havia tido sua primeira menstruação.
      A honra da mulher constitui-se em um conceito sexualmente localizado do qual o homem é o legitimador, uma vez que a honra é atribuída pela ausência do homem, através da virgindade, ou pela presença masculina no casamento. Essa concepção impõe ao gênero feminino o desconhecimento do próprio corpo e abre caminhos para a repressão de sua sexualidade. Decorre daí o fato de as mulheres manterem com seu corpo uma relação matizada por sentimentos de culpa, de impureza, de diminuição, de vergonha, de não ser mais virgem, de vergonha de estar menstruada etc. (SOIHET, in PRIORI, 1997, p.389)
     A personagem sofre uma desvinculação por parte de sua madrinha Leónie, que a leva para a prostituição. Pombinha se vê insatisfeita com sua vida e totalmente seduzida ao que lhe é imposto. Ela nos remete à jovem Ana, de O mulato. Apaixonada pelo jovem Raimundo, se vê obrigada a abrir mão de seu amor, devido aos preceitos de seu pai e de sua avó. Por ele ser negro, filho de uma escrava, o amor de ambos era impossível.Após relutar e tentar até uma fuga, a jovem não consegue. Raimundo é assassinado por seu “prometido”. O fim do romance é impressionante, já que Ana tem uma mudança radical: torna-se casada e com dois filhos perante a sociedade que tanto a questionava.
2.2 As adúlteras
     Dona Estela, personagem de  O Cortiço, traíra seu esposo Miranda. Este, por sua vez, preferia manter-se perante a sociedade, evitando maiores conflitos. “O escândalo do adultério é completado pela degenerescência moral e física de toda a espécie, jogo, doença, cor de pele, libertinagem sexual.” (FONSECA, in PRIORI, 1997, p. 52).
      Miranda prefere perdoar a esposa e fingir que nada havia ocorrido, para manter sua
postura perante a sociedade.
     Leocádia é mulher do ferreiro Bruno. Portuguesa, pequena, traía Bruno com Henrique. Leocádia sai de casa, enquanto seu esposo fica totalmente sem rumo. Assim como Miranda, ele perdoa a traição da esposa e vai até a sua procura pedindo o seu retorno. Era uma humilhação, perder a mulher por outro homem. De acordo com o código Penal do Brasil, em 1890, só a mulher era penalizada, sendo punida. O homem era apenas considerado como adúltero.
      Outra traição merece destaque: a do pedreiro Jerônimo, que se vê totalmente seduzido e atraído pela mulata Rita Baiana, a quem faz de tudo para mantê-la em seus braços. Jerônimo trai sua esposa Piedade de Jesus, que lhe tinha total submissão e dedicação. Uma mulher dotada de sensibilidade nos seus mais diversos âmbitos, Piedade, que vivia em dedicação ao marido e ao trabalho no lar, sofre quando Jerônimo a abandona. “A fidelidade obrigatória era impossível de ser mantida pelo homem cuja sexualidade era excessivamente exigente, resvalando a qualquer sedução. Julgava-se dever da esposa a compreensão de tais fraquezas.” (SOIHET in: PRIORI, 1997, p. 384).
2.3 As lavadeiras, mulheres independentes
   No Cortiço existiam aquelas mulheres que trabalhavam nas tarefas tradicionalmente femininas, eram as lavadeiras. Na obra, podemos destacar: Leandra “a machona”, portuguesa feroz. Tinha duas filhas, uma que era casada e a outra separada do marido.
    Ana das Dores, “a das Dores”, morava em uma casinha à parte, mas toda a família habitava o cortiço. Neném era espigada, franzina e forte. Já Augusta Carne-Mole era brasileira, branca e casada com Alexandre, um mulato de quarenta anos, soldado da polícia.
     O trabalho destas mulheres pobres era um trabalho honesto, fica evidente que muitas delas eram responsáveis pelo sustento principal da casa. E mais, muitas ficam divididas entre o trabalho fora de casa e ser dona de casa.
   A mulher pobre, cercada por uma moralidade oficial completamente desligada de sua realidade vivia entre a cruz e a espada. O salário minguado e regular de seu marido chegaria a suprir as necessidades domésticas só por um milagre. Mas a dona de casa, que tentava escapar à miséria por seu próprio trabalho, arriscava sofrer o pejo da mulher pública. (FONSECA, in: PRIORI, 1997, p. 516).
2.4. A mulher subordinada
      A personagem Bertoleza se destaca não somente por ser a principal, mas pelo contexto da obra. Vivia “amasiada” com João Romão, que tinha o intuito apenas de se enriquecer com o trabalho de Bertoleza. Esta ainda vivia em estágio de escravidão, já que era totalmente submissa a tal. Eles garantiam a sobrevivência com o trabalho de Bertoleza e João deixava-se sustentar por ela. Além de tudo isso, João Romão tinha vergonha de Bertoleza, por ser negra. Seu intuito era enriquecer e depois entregá-la ao seu dono, já que era escrava. João queria uma mulher branca e da sociedade. Seus sentimentos com relação a ela eram de pura repugnância. A cena final da obra retrata isso. Nela, Bertoleza, em pleno trabalho descamando peixes é surpreendida por policiais. Denunciada por aquele a quem tanto sempre dedicou trabalho e sua vida, ela crava a própria faca em seu peito.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
     Este trabalho teve o intuito de analisar as diversas faces da mulher na obra O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e mostrar que foi mais um passo para a percepção das reflexões sobre o mundo atual. Com diferentes personagens e uma narrativa rica, o romance tenta nos mostrar fatos que nos remetem à metrópole moderna de hoje, analisando os valores familiares da sociedade, bem como dinâmicas sociais e padrões de organização familiar da sociedade atual.
     Com uma linguagem simples, natural, direta, o autor utiliza imparcialidade e objetividade para ressaltar atos, o destino, o caráter e as motivações dos personagens.
     A estrutura da obra é basicamente o predomínio dos personagens sobre o enredo. Retrata a realidade destes utilizando um recurso de descrição detalhada do ambiente onde a cena foi ocorrida.
   A narrativa dá ênfase à liberdade de expressão das personagens, destacando suas condições psicológicas e morais.
     O Cortiço, através de várias mulheres apresentadas, nos remete a uma imitação da vida real, ou seja, temos os assuntos do mundo real de maneira objetiva, documental e fotográfica sem a participação do subjetivismo do artista. Não se tem uma visão demasiada, ordenada da vida, o que parece artificial, já que a vida possui um ritmo irregular.
   A narrativa move-se lentamente, devido à intensa caracterização das ações. Há uma fidelidade a todos os fatos, não importando a opinião sobre os atos, mas os atos em si mesmos. O romance tenta mostrar as vidas de todas as mulheres que foram destacadas como realmente são, utilizando-se da técnica da observação e documentação.
      Nenhuma atitude de tais mulheres apresentadas não é gratuita, há sempre uma explicação lógica e cientificamente aceitável para tais comportamentos. Uma literatura de construção à qual se confundem os sentimentos com os dos personagens. O intuito seria denunciar as desigualdades sociais através de uma pintura verdadeira da vida dos humildes e obscuros, através das várias mulheres que estão habitualmente em torno de nós.
      Aluísio Azevedo consegue conduzir o drama das mulheres adúlteras, solteiras, lavadeiras, independentes e subordinadas, fazendo com que o próprio desfecho não pareça arbitrário, mas uma transposição dos casos reais.
       Por meio de um contexto político e social, o autor relata a situação de miséria das “camadas populares” em que vivia boa parte da população brasileira do séc. XIX, o que de certa forma, serve para a situação de hoje. Ele faz com que o leitor perceba deslizes entre o ontem e o hoje. Tenta nos mostrar o óbvio, com um olhar crítico, ou seja, a miséria escandalosa em que vive boa parte de nossa população.
      Pelos valores familiares, destaca também o aumento do número de famílias chefiadas por mulheres, ou seja, relata-nos a autonomia da mulher.
      Tem-se que uma intensa urbanização trouxe a integração dos trabalhadores na cidade. As mulheres das camadas populares possuíam características próprias e condições concretas de existência. Elas se adaptavam às características dadas como universais ao sexo feminino: submissão, recato, delicadeza, fragilidade. Eram mulheres que trabalhavam muito e tinham sua própria maneira de pensar e agir, assim como a grande maioria delas assumia a responsabilidade integral familiar. Temos então a compreensão sobre a realidade vivida por estes grupos subalternos: mulheres e pobres.
www.unipam.edu.br/cratilo/images/.../MulheresNoCortiço.pdf

HOMOSSEXUALIDADE NAS LITERATURAS DE LÍNGUA PORTUGUESA DO SÉC. XIX
 Laís Azevedo
      Homossexualidade é um tabu, ainda nos dias de hoje. Imagine esse tema sendo tratado no século XIX? No Brasil e em Portugal, o homossexualismo foi aduzido na literatura de cunho naturalista. Naquele período, assim como há pouco tempo (falo aqui no tocante à ciência e não ao pensamento de determinadas camadas da sociedade), optar por alguém do mesmo sexo era visto como uma doença, um desvio de comportamento que levava o indivíduo a um estado degradante. A literatura naturalista, contaminada pela ciência que estava desenvolvendo-se a todo vapor no século XIX, coadunava, também, com a ideia de que os homossexuais eram indivíduos enfermos.
   Nos Oitocentos, os ideais duma família estruturada por: marido, mulher e filhos, foram levados ao extremo. À mulher cabia a administração da casa, o orçamento e a educação dos filhos. O homem, por seu turno, era o provedor. Foi no período oitocentista que as crianças ganharam um novo olhar. Outrora, por exemplo, não havia a  adolescência; assim, os infantes eram tratados como adultos em miniatura. Isso fica bem explícito nas pinturas renascentistas, barrocas e, claro, nos documentos retratam o modo de vida dessas épocas.
     Partindo do pressuposto que esse núcleo familiar burguês era considerado o padrão certo para que uma nação fosse civilizada e progredisse — no melhor espírito positivista, cada vez mais —, tudo que não se adequava a esse pensamento familiar burguês deveria ser curado ou eliminado do corpo social. Ora, desse modo, a literatura naturalista, que buscava apresentar os males sociais no intuito de corrigí-los, colocava no cerne de suas narrativas: homossexuais, prostitutas, libertinos, solteiros; enfim, todos aqueles que, duma certa maneira, apresentavam um risco para a unidade familiar.
     No Brasil, o maior exemplo de exposição da homossexualidade masculina, na literatura do século XIX, deu-se através da pena de Adolfo Caminha em O Bom Crioulo. Mas e a homossexualidade feminina? O assunto ficou a cargo de Aluísio Azevedo. O conhecido autor de O Mulato, O cortiço e Casa de pensão, que é apontado pelos historiadores literários como responsável por ter trazido para o Brasil os ditames da escola de Émile Zola, escreveu, também, romances românticos e fez, em pleno período Imperial, da pena o seu mister. Azevedo costumava a escrever folhetins, um desses foi A Condessa Vésper. A obra, com pitadas naturalistas e grandes doses de romantismo, expôs o safismo, isto é, o lesbianismo na literatura brasileira.
   A Condessa Vésper traz à tona uma variedade imensa de personagens, o livro tem reviravoltas típicas de folhetins que podem ser observadas, ainda nos dias de hoje, nas telenovelas. As principais personas são: Gaspar, Ambrosina, Gabriel, Gustavo  e Laura.
     Ambrosina, depois dum casamento frustrado com um homem, Leonardo, que enlouquece no na noite de núpcias, torna-se amante de Gabriel. Este último, um jovem que herdara uma boa fortuna da mãe e fora criado por Gaspar, um médico, faz de tudo para manter Ambrosina ao seu lado; porém, a jovem sempre consegue enganá-lo e pegar do rapaz bons contos de réis. Laura é, tal como o grumete de O Bom Crioulo, a paixão de Ambrosina, que conhece a garota graças a uma intervenção de Gabriel. Ambrosina, num dos seus golpes, seduz Laura e foge para a Bahia. O interessante é que, em nenhum momento, o narrador explícita com detalhes a relação amorosa entre as duas mulheres.     
      Há, pois, sempre um jogo de palavras, um eufemismo, para trazer a lume a questão para o leitor. Gustavo, por sua vez, aparece na história quase no findar da obra, quando Ambrosina, depois de retornar da Europa — Laura já havia morrido —, torna-se a Condessa Vésper. A figura de Gustavo é interessante, uma vez que o jovem assemelha-se muito a história de vida do próprio Aluísio. Oriundo duma província, o rapaz além de tornar-se escritor era também caricaturista. O fato é que, tal como Gabriel, Gaspar e outras personagens, o provinciano também, depois de travar contato com Ambrosina, tem sua vida ceifada.
      Essa característica mórbida, de ceifadora, que Ambrosina desempenha na narrativa e sua personalidade ladina que sempre atrapalha a vida dos outros está, implicitamente nas palavras do narrador, ligada à sua opção sexual. A conduta homossexual de Ambrosina, que não se regenera em nenhum momento do romance, mesmo tendo ao seu lado um médico, que é uma figura muito utilizada nos romances naturalistas e, até mesmo nos românticos, para colocar certas personagens no caminho considerado correto, não funciona. A obra demonstra que a homossexualismo, se não fosse curado, levaria não somente o indivíduo que sofria de seus males à morte, bem como todos aqueles que o cercavam.
      A história duma personagem que acaba, devido aos vícios das paixões homossexuais, encaminhando os outros para situações degradantes, aparece também em O Barão de Lavos, do escritor português naturalista Abel Botelho. Influenciado, tal como Azevedo, por Émile Zola, o autor escreveu uma série de cinco romances, cujo título é Patologia Social. O nome da série já indica bem a proposta do escritor português. A ideia de traçar as principais doenças que atingia Portugal no ultimar do século XIX abre-se com a história do Barão de Lavos, a personagem Sebastião Pires de Castro. Casado com Elvira o Barão, no decorrer da narrativa, devido sua obsessão por pessoas do mesmo sexo, vai se degradando tanto psicologica como fisicamente. Dono de uma boa fortuna herdada do pai, após conhecer Eugênio, um jovem rapaz que aceita tornar-se amante do Barão de Lavos por uma boa oferta de dinheiro, Sebastião põe tudo a perder. Elvira, sua esposa, apaixona-se por Eugênio; desse modo, o casamento é destruído, uma vez que o Barão sente-se traído duplamente, ou seja, tanto pelo jovem, bem como pela baronesa. A homossexualidade que é explicada como uma doença, um mau que se dava por meio da hereditariedade, leva o barão à falência.
   A narrativa, calcada nos ideiais naturalistas, apresenta a figura do barão de forma nauseabunda; isso tudo, devido a homossexualidade. O narrador condena a felação, que surge de forma surpreendente na narrativa, numa noite entre Eugênio e Sebastião. Ademais, alerta para os riscos da masturbação, que provoca enfermidades na pele do barão. Interessante notar como essa visão do sexo como algo feito somente para procriar e manter a família ganha força no século XIX através das teorias cientificistas. O ideal de procriação já era colocado pela religião católica de forma bem explícita, porém torna-se, nos Oitocentos, uma verdade científica. Essa mentalidade perdura, ainda, nos dias de hoje.
     Nas duas narrativas que foram brevemente comentadas neste texto, vemos que os autores naturalistas encaravam os homossexuais como criaturas perigosas, maliciosas, que não mediam esforços para satisfazerem, na visão dos autores, seus pérfidos desejos.
     A leitura das obras supracitadas ajuda a entender bem a mentalidade do período, além de trazer os recursos estéticos que eram empregados para aduzir o tema.
   Aconselho, fortemente, para todos que gostam de literatura a leitura de A Condessa Vésper e O Barão de Lavos. Ambos, infelizmente, esgotados, mas que podem ser encontrados nos sebos.
www.literaturaemfoco.com/?p=2243

OS ROMANCES-FOLHETINS DE ALUÍSIO AZEVEDO: AVENTURAS PERIFÉRICAS
Angela Maria Rubel Fanini
RESUMO
Este  paper  constitui um resumo das conclusões a  que cheguei a partir do trabalho de doutorado sobre a obra romanesca de Aluísio  Azevedo. Na tese, empreendemos uma releitura dos romances-folhetins -  Condessa Vésper  (1882),  Girândola de amores  (1882), Filomena Borges (1884), Malta, Mattos ou Mata? (1885), O coruja (1890), A mortalha de Alzira (1894) e Livro de uma sogra (1895), escritos por Aluísio Azevedo. Esses romances têm sido desqualificados por parte da crítica literária brasileira que os desvaloriza por julgá-los fora dos padrões da escritura real-naturalista; por voltarem-se para o mercado e atenderem às demandas do leitor e por instituírem-se a partir de uma linguagem híbrida entre o romantismo e o real-naturalismo. A leitura dessas obras revelou que o discurso híbrido não indica falta de coerência, mas formaliza a contradição real em que vivia a sociedade brasileira oitocentista entre o escravismo e o liberalismo, este vinculado a um projeto de renovação conservadora e apegado ao discurso real-naturalista e aquele, ligado a um projeto conservador passadista e atrelado ao romantismo. O hibridismo é uma maneira de se ajustar as formas romanescas importadas ao contexto sócio-econômico local. 
Palavras chaves: hibridismo discursivo; romance-folhetim; literatura brasileira; romantismo/realismo; Aluísio Azevedo. 
                                                                                     
    Percebemos que a obra de Aluísio Azevedo é dividida em dois conjuntos dicotômicos por parte da crítica canônica: um conjunto é considerado literário e  esteticamente válido. Desse conjunto, fazem parte  O mulato, Casa de pensão e  O cortiço. Este se sobressai, de forma uníssona, em qualidade estética. Mesmo dentro dessa “unanimidade”, há divergências, pois cada linha analítica (nacionalista, formalista, estruturalista, sociológica etc) valoriza de modo diferente essas obras, destacando aspectos qualitativos diversos. Do conjunto desconsiderado, fazem parte algumas obras que permanecem em uma espécie de limbo, como O homem,  O coruja e  Livro de uma sogra, que são ora desqualificadas, ora qualificadas, enquanto o restante da produção literária que analisamos - Condessa Vésper, Girândola de amores,  Filomena Borges, Mattos, Malta ou Matta? e  A mortalha de Alzira - sofre um processo veemente de desvalorização. 
     Os romances-folhetins escritos por Aluísio Azevedo foram e continuam sendo desconsiderados por parte da crítica acadêmica e canônica. José Veríssimo constitui um discurso inaugural e de autoridade, afirmando que essa produção é de  inspiração industrial(VERÍSSIMO, 1969), elaborada para o mercado, com o propósito de obter meios de subsistência material. Esse posicionamento é retomado e repetido de modo fechado e conclusivo por Lúcia Miguel Pereira, que enfatiza que essa produção visava tão somente ao lucro  (PEREIRA,1988).  Ainda nessa linha de crítica à dimensão comercial, industrial e mercadológica da obra de Aluísio Azevedo, encontramos Nelson Werneck Sodré, para quem os romances-folhetins foram elaborados  sobre a pressão da necessidade e  do drama da subsistência  (SODRE,1965). E, finalmente, temos Alfredo Bosi, ainda nessa perspectiva, retomando literalmente as palavras de José Veríssimo, destacando que os romances-folhetins se orientam por “pura inspiração industrial”(BOSI,1984). Desse modo, percebemos que o discurso primeiro, de autoridade do crítico oitocentista, vem sendo repetido e reacentuado ora de forma atenuada, ora de forma desrespeitosa, ora “ipsis litteris” .
      Essa crítica depreciativa apresenta uma visão muito simplificada e redutora das relações entre público leitor e escritor no campo da produção de bens simbólicos para uma audiência mais ampla. Por isso analisei essa reorientação dos romances-folhetins para um 3público maior, evitando uma postura dicotômica que destaca apenas um pólo do discurso, ou seja, a sua orientação única para o gosto e os valores populares, pois o público influencia a obra, mas o escritor e a obra também exercem  influências sobre o leitor. O processo de escritura e leitura se intercambiam, auto-construindo-se e se esclarecendo. Esse processo não é dicotômico, mas dialógico e aberto, operando por pressões e resistências tanto do escritor quanto do público. Aluísio Azevedo faz concessões ao público leitor, oferecendo-lhe o romantismo, o sentimentalismo, o rocambolesco, mas também tenta manipulá-lo, ordená-lo, influenciá-lo para que trilhe outra possibilidade de leitura que o escritor considera melhor, introduzindo tanto a crítica ao romantismo quanto o discurso real-naturalista nessa produção.
    Nesse sentido, destacamos que a obra considerada menor não pode ser lida como unicamente unidimensional, ou seja, fazendo toda sorte de  concessões à audiência social dos leitores leigos a fim tão somente de que o escritor  pudesse sobreviver materialmente de sua obra considerada secundária. Aluísio Azevedo apresenta, tanto em discursos explícitos (prefácios às obras) quanto em todo o conjunto de sua produção desconsiderada, um projeto políticopedagógico, viabilizado por intermédio da literatura, cujo propósito consiste em educar o leitor. Aluísio Azevedo, revelando-se um escritor de perspectiva ilustrada e progressista burguesa, desejava com tal projeto colocar o leitor no caminho do “bem”, da emancipação pela leitura, fornecendo-lhe, em meio aos romances-folhetins, “boa e instrutiva literatura”. Há aí todo um reordenamento dos romances-folhetins que passam a atender a um projeto de leitura emancipatória que não pode ser desvalorizado e desconsiderado. Há aí todo um projeto de poder, de disciplina, de controle do leitor para que ele venha a trilhar “o caminho do bem”, ou seja, se liberte do romantismo e do folhetinesco e se introduza em uma escritura madura, científica, objetiva e racional do universo narrativo do real-naturalismo. Esse conteúdo programático se concretiza em parte e é também revisto e desconstruído, demonstrando toda uma trajetória de Aluísio Azevedo no sentido de questionar os fundamentos e o alcance da linguagem real-naturalista. Esse movimento  entre o gosto popular e a imposição de um projeto ilustrado faz desses romances-folhetins um material literário de suma importância para o estudioso das letras, pois é nesses romances que se localiza uma mecânica discursiva que questiona os paradigmas discursivos do romantismo e do real-naturalismo, ora entronizandoos, ora parodiando-os.
      Essa crítica depreciativa em relação à obra considerada menor é também extremamente aristocrática porque, nessa perspectiva, o ofício de escrever não é vinculado à idéia de trabalho cultural. O exercício da escrita é percebido como uma atividade paralela ao universo do trabalho, destinando-se somente àqueles que, nas horas vagas e de ócio, escrevem para passar o tempo, por diletantismo. Não é  raro em nossa ficção encontrarmos nossos escritores justificando que escreveram seus romances nas férias para preencher o tempo e o ócio.
     Aluísio Azevedo vai de encontro a esse universo aristocrático. O escritor é oriundo de estratos médios da população e não obteve, como muitos outros escritores, um cargo público que lhe propiciasse, nas horas vagas, fazer literatura. Aluísio Azevedo é um dos primeiros profissionais das letras no Brasil a viver da produção literária. Essa profissionalização de Aluísio Azevedo o coloca como um trabalhador e produtor de bens simbólicos para o mercado cultural, e isso não foi um impeditivo para que lêssemos atentamente a produção literária considerada menor do escritor, procurando aí encontrar qualidade estética, complexidade discursiva, diálogo e confronto com a tradição literária local e importada, um projeto de literatura e interações orgânicas com o contexto sócio-econômico. O fato de Aluísio Azevedo escrever, não para a crítica, e sim para um público mais amplo, apresenta implicações estruturais, formais e conteudísticas para a obra do escritor, mas isso não implica que a produção literária orientada para uma platéia mais ampliada se transforme automaticamente em subliteratura. É o mesmo escritor quem escreve romances canonizados e romances “desqualificados”. Como vimos, o autor, por sobreviver da literatura e nas palavras de Valentim Magalhães “ser talvez o único escritor que ganha o pão exclusivamente à custa de sua pena, mas note-se que ganha o pão: as letras no Brasil ainda não dão para a manteiga,”demonstra em  sua obra preocupação com o universo do trabalho. 
     Essa crítica depreciativa parece também se localizar fora da história, pois não percebe que o discurso do escritor é  situado historicamente porque comunga de uma episteme econômico-cultural ativa e específica ao contexto brasileiro. A realidade brasileira oitocentista é contraditória, pois vive entre o escravismo e o liberalismo. Essa contradição faz com que o romantismo não se torne obsoleto e o real-naturalismo também possa se afirmar. Da comunhão de ambos, surge a prosa “híbrida” de Aluísio Azevedo, destacada por ele mesmo, que tanto se atrela ao “passado” ainda vigente dos senhores proprietários de terras e de escravos, cuja linguagem e valores românticos idealizam a nação no intuito de impedir quaisquer mudanças sociais que enfraqueçam o poderio da elite, quanto se vincula ao projeto liberal, apegado ao presente e futuro da  nação, cuja linguagem cientificizante e de nomenclatura do real defende uma outra reordenação social, baseada no trabalho formalmente livre e na República. Esse hibridismo formalizado em toda a obra de Aluísio Azevedo, inclusive nos romances considerados literários, se estabelece como uma “redução estrutural,” na acepção de Antonio Candido, do movimento sócio-histórico, oscilante entre um paradigma e outro. Entretanto, se examinarmos esses dois  paradigmas discursivos  atrelados a projetos políticos diferentes, veremos que essa diferenciação é apenas aparente porque ambos se ligam a políticas que não visam a desarticular e  modificar as estruturas sociais econômicas verticalizadas e hierarquizadas que edificam a sociedade brasileira oitocentista. Nesse sentido, a contradição da prosa híbrida de Aluísio Azevedo se acha na superfície do texto, pois tanto o projeto romântico quanto o real-naturalista são conservadores e autoritários, fortalecendo políticas econômicas, sociais e culturais em que a hierarquia social, a hegemonia do capital sobre o trabalho e os privilégios de classes são mantidos. É por isso que as estéticas romântica e real-naturalista conseguem conviver dentro do mesmo enunciado romanesco. Embora haja diferenças de tratamento da matéria ficcional entre elas, ambas atendem a um projeto político conservador para a sociedade brasileira.
     Outro princípio fundamental que norteia  parte da crítica que desconsidera os romances-folhetins é de caráter elitista, dividindo o público leitor entre culto e inculto. Para Araripe Júnior, os romances-folhetins são ruins porque satisfazem a  avidez dos leitores de rodapé,  revelando-se aí um preconceito em relação ao gosto dos leitores por romances sentimentais, rocambolescos e folhetinescos. Temos aí a desqualificação da obra por atender a um público social “leigo”, mais vasto, cujo gosto literário é depreciado. Essa crítica deseja exercer um ordenamento do discurso literário, higienizando esse discurso de tudo que possa ser vinculado ao gosto popular. Essa crítica desconsidera que todo discurso é historicamente situado e sempre se orienta para alguém e que essa audiência altera e, em parte, estrutura o discurso. Nesse caso, o público leitor, ávido por narrativas rocambolescas e sentimentais, é contemplado e interfere imanentemente na elaboração do discurso ficcional. Essa postura negativa em relação ao gosto do leitor leigo é autoritária e homogeneizante, pois exige que o discurso se vincule a apenas um padrão estético (o real-naturalista), desconsiderando outros padrões discursivos de raízes milenares que trabalham com o acaso, o sentimental, o aventuresco, o implausível, o folhetinesco. Essa exigência última atende, certamente, a uma crescente racionalização do pensamento ocidental que se dinamiza na Idade Moderna, com o pensamento racional de René Descartes. O processo de dessacralização das instituições e das relações sociais também atinge a esfera literária que passa a banir, do universo considerado estético, as narrativas folhetinescas. Aluísio Azevedo, ao romper, como vimos, com o projeto pedagógico-ilustrado, reinstalando o romantismo exacerbado, escova a contrapelo o processo de racionalização crescente, revelando-se altamente crítico em relação ao discurso real-naturalista, cujo objetivo era fornecer via cientificismo uma certa legitimidade ao discurso literário. Aluísio Azevedo escapa da camisa de força cartesiana e isso assanha a crítica muito ciosa do projeto racional burguês ocidental, fazendo com que se volte contra o escritor. 
      Entretanto, os romances-folhetins, mesmo incorporando uma arquitetônica cômica de carnavalização dos discursos oficiais exaltativos da racionalidade, não deixam de se atrelar a um projeto pedagógico-político que faz o elogio à racionalidade, sendo ‘enobrecidos’ a partir da crítica à irracionalidade, ao romantismo  desbaratado e à imaginação exacerbada. Desse modo, os romances-folhetins também atendem  a um projeto burguês de instauração da racionalidade via literatura, pois se instituem como discursos intermediários, servindo para criticar o romantismo, atrelado a um ordenamento social que precisa ser modificado.
     Percebemos que a forma romance-folhetim importada do contexto europeu, nas mãos de Aluísio Azevedo, torna-se diversificada, sendo  filtrada (BOSI, 1992) pelo projeto pedagógico-ilustrado do escritor que insiste em cientificizar a narrativa a fim de modernizá-la; pelo projeto literário empenhado que visa a trabalhar a literatura em conexão imediata com o contexto histórico nacional a fim de ilustrar o leitor; pela arquitetura cômica que desarticula a linguagem petrificada, armando-se tanto contra a linguagem romântica quanto a referencial  e também pelo contexto local de leitura que exige de Aluísio Azevedo um atrelamento parcial ao universo romântico e folhetinesco que ele deseja varrer do contexto literário brasileiro. 
    As estratégias de adaptação do romance-folhetim  e do romance clássico burguês,  oriundos da cultura européia para o contexto brasileiro, que ocorrem na produção aluisiana, são pouco estudadas. Alfredo Bosi desvaloriza a produção considerada subliterária, afirmando que quando Aluísio Azevedo se mantém fiel a Zola e Eça de Queirós, é um bom sinal, mas quando se afasta dos mestres europeus é um  mau sinal.  Antonio Candido também vai ao encontro dessa crítica em Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos quando afirma que a obra real-naturalista de Aluísio Azevedo se constitui como mera cópia dos romances franceses. Esse posicionamento de Antonio Candido, entretanto, se modifica totalmente nos textos, “A passagem do dois ao três: contribuição para o estudo das mediações na análise literária” e “ De cortiço a cortiço,” em que o crítico enfatiza o reordenamento formal e de conteúdo que a narrativa de perspectiva zolista sofre nas mãos de Aluísio Azevedo. O escritor reacentua as formas importadas no romance O cortiço à medida que se estabelecem relações orgâncias entre o discurso literário e a dimensão sócio-econômica brasileira. Essa interpretação em que se destaca a dependência e a liberdade em relação às formas importadas na obra de Aluísio Azevedo, no entanto, é rara. 
     A perspectiva crítica desfavorável à obra folhetinesca não considera as estratégias de “filtragem”, ajustes e descompassos por que passam as formas importadas na perspectiva aluisiana. Vimos que a prosa híbrida presente na totalidade da produção literária de Aluísio Azevedo foi uma tentativa de encontrar soluções para se operar um ajuste entre os modelos literários de que faz uso. Vários outros expedientes atestam isso, verificando-se que o discurso de Aluísio Azevedo se constitui como uma escrita vinculada a seu país e ao seu tempo. O escritor percebe que o contexto de leitura local é fraco e passa a monitorar o seu leitor, principalmente em  Condessa Vésper e Girândola de Amores. Isso ocorre a partir de um narrador interferente, falante e professoral que tutela a cada passo o leitor, guiando-o a fim de que a sua audiência não se perca no intricado do romance–folhetim já cientificizado. Esse discurso em tom familiar e íntimo tem por objetivo atingir um certo ordenamento de leitura, conduzindo os leitores para a narrativa real-naturalista. As personagens periféricas são talhadas em oposição às personagens centrais. Estas são problemáticas, demoníacas, afetadas, trágicas, seguindo toda uma estereotipia importada dos romances folhetinescos e hiperromânticos, soando falsas em relação ao meio local.
   Já as periféricas são estruturadas de modo chão e prosaico, apontando para um transposição da realidade local mais fiel e menos artificial. A narrativa policialesca nas mãos  de Aluíso Azevedo afasta-se totalmente do romance policial de enigma, sendo esvaziada de seu conteúdo e de sua forma clássica em que impera a racionalidade detetivesca da coleta científica de provas e do deslinde do mistério.
      Essa reorientação da forma policial, que ocorre em Girândola de Amores e Maltos, Malta ou Matta?, distanciando-se da racionalidade científica e instrumental, ajusta-se melhor a um contexto local em que a essência do trabalho escravo emperrava o avanço de conquistas científicas e tecnológicas. As estratégias lógico-racionais que desmontam o quebra cabeça dos romances policiais, deslindando os mistérios sobre o crime e impondo a ordem, na pena de Aluísio Azevedo sofrem um deslocamento, instaurando-se a dúvida e o universo da desordem. 
     Aluísio Azevedo esteve sempre atento à relação centro e periferia e isso se confirma pelas inúmeras passagens satíricas, paródicas e críticas, especialmente em  Filomena Borges, em que se problematiza o horror da elite nacional à cultura local. As várias passagens “metanarrativas” também ilustram os conflitos entre formas importadas e contexto nacional.
       Nessas passagens discutem-se a limitação da linguagem romântica em dizer a realidade; a ligação do romantismo ao mecenato imperial  e, sobretudo, o uso indevido, por parte dos escritores, da forma folhetinesca na construção de personagens femininas extraordinárias, exaltadas e demoníacas, distantes da realidade e do contexto local. Outra mediação nas formas importadas encontra-se no contexto histórico local através  de uma publicística da época (quebra do Banco Mauá; quedas de gabinetes no governo imperial; Guerra do Paraguai; emergência da classe média liberal e do trabalho intelectual oriundo de estratos médios da população; emancipação feminina etc), que interceptam as fábulas e mudam os destinos das personagens.
      Essa orientação crítica que cola a literatura nacional aos modelos importados ora exigindo uma fidelidade aos padrões europeus de narrar, ora criticando os escritores nacionais por “copiarem” um discurso alheio, não percebe que todo discurso é evêntico e vai necessariamente estar ligado ao seu contexto e, desse modo, a reprodução  ipsis litteris do discurso do outro (a narrativa européia) é algo inexequível. O contexto brasileiro, embora interligado cultural e economicamente ao contexto europeu, não deixa de deslocar o discurso importado, atendendo a demandas outras de leitura e de situação sócio-cultural. O deslocamento e a ligação das narrativas aluisianas folhetinescas à forma importada foram investigados, resultando em  leituras que desvendam alguns pontos sobre as relações conflitantes e complexas entre literatura central e literatura de países periféricos
     .O modo de narrar proveniente de centros  europeus cuja realidade sócio-econômica é diferente da realidade nacional encontra  respaldo no meio local visto que a sociedade brasileira é estratificada em classes sociais. A elite nacional, embora viva em um ambiente diferenciado do europeu, mantém com a elite européia um diálogo possibilitado por uma linguagem de valores culturais comuns. Essa linguagem, no entanto, não se ajusta simetricamente à nossa realidade, mas passa por adaptações, “adequando-se” com percalços e ambigüidades, ao meio local. Desse modo, as idéias e as formas estão e não estão no lugar. Essa leitura é possível se percebermos que nos países periféricos há centros de poder que dialogam com os centros do poder dos países centrais.      
       Dentro do terceiro mundo temos também o primeiro mundo, reforçando e mantendo as idéias e as práticas centrais.  Em alguns romances-folhetins, a forma romanesca denominada “de segunda linha” por Mikhail Bakhtin, que consiste em perceber a realidade ficcional como um universo plurilíngue em que ocorre a crítica das linguagens sociais e a auto-crítica do gênero romanesco, se concretiza de modo mais feliz e em outros menos feliz. 
     Em  Condessa Vésper e Girândola de amores, o escritor está bem apegado a seu projeto ilustrado e pedagógico, cientificizando o folhetim, desmontando e criticando o discurso romântico tanto a partir de longas digressões quanto de situações narrativas que desacreditam o ideário romântico. Suicídios, bancarrotas, assassinatos, traições e falências, atrelados a uma dimensão romântica exaltada, demoníaca e desorientadora, contribuem para desacreditar esse universo romântico. A estética e os valores românticos estão na berlinda para serem substituídos pelo ideário realista-naturalista. Aluísio Azevedo não problematiza a linguagem oficial, monológica, unificante, pois somente faz a substituição de um paradigma discursivo por outro. O romantismo deve morrer para viver o real-naturalismo. O centro não pode estar vazio. Nessas obras ocorre romance de provas em que a linguagem e o herói românticos são colocados à prova para sucumbirem, buscando adequar esses romances, sob a ótica “ilustrada” de Aluísio Azevedo, à forma importada. O afã de modernizar a narrativa pelo discurso cientificista não recebe contestação e o romantismo e cientificismo se dicotomizam. Um é o vilão; o outro o herói. Essa dicotomia fratura a narrativa, pois o real-naturalismo fica muito pedante e monológico no texto e a crítica ao romantismo muito séria, muito didática.
    Entretanto, a linguagem folhetinesca não se  apresenta como um  objeto fácil de ser manipulado, e, não raras vezes, insurge-se, tomando a cena, provocando identificação, comoção. Essas obras também provocam identificação, sobretudo em virtude de sua maquinaria envolvente, nas palavras de Umberto Eco(1991).
     Em  A mortalha de Alzira,  já no prefácio, assinado por Vítor Leal, pseudônimo de Aluísio Azevedo, o escritor desbanca com o real-naturalismo, embora nessa obra não deixe também de cientificizar o folhetim. Entretanto, o romantismo exacerbado irrompe em  A mortalha de Alzira de uma forma exuberante, recuperando o maravilhoso, o fantasioso e o inverossímil, o que neutraliza o projeto-pedagógico de Aluísio Azevedo em desacreditar o romantismo. A maquinaria envolvente da narrativa gótica em A mortalha de Alzira seduz o leitor, mas como ela não está sozinha e tem em sua companhia o seu oposto, ou seja, o cientificismo, esse envolvimento é parcial. Identificação e distanciamento são os lados da mesma moeda que é oferecida ao leitor. A obra também dialoga com a novela  Noite na Taverna, de Alvarez de Azevedo, inserindo-se em uma corrente literária de tradição gótica, bastante distante de um projeto racional de  escrita. Nessa obra, Aluísio Azevedo parece se render ao universo da desordem (o romantismo exacerbado) em contraposição ao seu projeto da ordem (o real-naturalismo). 
     Em  Filomena Borges, a categoria denominada romance de “segunda linha” se enquadra perfeitamente à medida que Aluísio  Azevedo, por intermédio de uma arquitetura cômica, destrona o romantismo, sem, contudo, substituí-lo pelo discurso realista-naturalista. O centro não é ocupado por outro discurso monológico e fechado. O romantismo entronizado, oficializado, convencionalizado é mostrado em suas dimensões históricas e isso o dessacraliza como discurso natural, estável, sempre igual a si mesmo. O riso irrompe de dentro do sério, mostrando-lhe as fraturas. Aluísio Azevedo se  utiliza do romantismo dos heróis e de suas situações, exacerbando, inflacionando e esse  exagero se apresenta como caricatural, revelando-se crítico. Em Filomena Borges, o leitor contemporâneo encontra um romance em que a relação entre as palavras e as coisas  é problematizada, assemelhando-se essa obra ao   romance magistral D.Quixote de Miguel Cervantes, como afirma Antonio Candido.
      Em Mattos, Malta ou Matta? irrompe a dualidade e a ambiguidade, problematizando-se, sobretudo, as relações tensas entre a linguagem e o real. Aqui o projeto real-naturalista que crê em uma linguagem transparente e de nomenclatura do real é desnorteado. Nesse romancefolhetim,além de termos uma narrativa muito envolvente em virtude de uma fábula recheada de peripécias à moda folhetinesca, temos, também, a elaboração de um universo cômico em que pontos chaves como a própria linguagem e sua pretensa neutralidade e objetividade são carnavalizados. 
      Em O coruja, o escritor se distancia completamente de seu projeto explícito de criticar o romantismo e introduzir, mediante longas digressões didáticas, o realismo-naturalismo. O romance é de caráter essencialmente psicológico, mas de uma psicologia objetiva, material  e social em que a consciência de si e a prática da bondade e da vaidade vão se formando e deformando nas intrincadas relações sociais entre as personagens. Ocorre a carnavalização da bondade e da vaidade à medida em que essa prática social mostra o outro dentro de si: o mal e o bem respectivamente. O bem e o mal se forjam no social e não se dissociam, contaminandose dialogicamente. Nesse romance, a estratificação sócio-econômica da sociedade na esfera da luta de classes permeia toda a narrativa, definindo, sobremaneira, o destino das personagens.
     O diálogo é a  tônica dessa obra, elaborando-se as personagens em contínua articulação entre 11
si, desvelando-se a partir de suas ações, principalmente a inter-relação das classes médias emergentes e das classes altas no Brasil, perpassada pela ideologia de favor, dada como uma prática que beneficia especialmente a elite que distribui favores, fortalecendo-se. A narrativa é construída sob o signo do duplo, captando um movimento social entre a ordem burguesa e o favor. A ação social das personagens emergentes ora ocorre dentro de um padrão burguês, sob o signo da autonomia, do trabalho, da meritocracia e do individualismo, ora sob a égide do favor e da dependência das classes altas. Simbiose, parasitismo e autonomia regem a ação das classes emergentes, sendo a ideologia do favor um limite para a sua ascensão enquanto sujeito
e sua história. 
     Em  Livro de uma sogra, o projeto pedagógico-iluminista é também desnorteado à medida que o cientificismo de tese é parodiado. Aqui, o escritor problematiza a linguagem de autoridade e autoritária. A narrativa, por intermédio de um discurso analítico satírico, elabora um receituário pormenorizado e detalhado de atitudes maritais que podem contribuir para a felicidade conjugal. Entretanto, esse receituário se torna risível em virtude de que se mostra sempre limitado em relação às possibilidades sempre novas e variadas de infelicidade, revelando a complexidade e a incompletude das relações sociais. 
      Vinculamos a derrocada do projeto ilustrado  de Aluísio Azevedo, especialmente em Livro de uma sogra, ao contexto histórico brasileiro. Aluísio Azevedo pertencia à geração boêmia e realista que lutava por mudanças significativas na sociedade. O escritor e seus amigos intelectuais criticavam o Segundo Império e ansiavam pela República. Com a Proclamação da República veio a decepção, pois o projeto democrático com que sonhavam não se efetivou. O projeto desenvolvimentista-industrial que poderia inserir o pobre, o negro, os intelectuais de classe média (professores, médicos, engenheiros, intelectuais) é boicotado por uma elite de cafeicultores que sustentam um modelo agro-exportador e especulativo (política emissionista de títulos do governo sem lastro real). Segundo José Murilo de Carvalho, o projeto “dos bolchevistas de classe média e técnicos,” do qual fazia parte
     Aluísio Azevedo e a geração-boêmia-realista, gorou, sendo vencido, segundo o historiador, por “um espírito do capitalismo sem a ética protestante.”
   Essa decepção faz com que Aluísio Azevedo também reveja o seu projeto ilustrado-pedagógico, comprometido com a mudança que não houve.  
     Concluindo este estudo, esperamos ter contribuído para uma outra leitura da obra  considerada menor escrita por Aluísio Azevedo, resgatando-a do esquecimento e da desqualificação que tem sofrido por parte considerável da crítica canônica. Essas obras não podem ser consideradas  ilegíveis como afirma certa perspectiva crítica porque todo o discurso, incluindo o literário, é um fenômeno aberto que pode suscitar leituras novas e diversas. O passado pode ser resgatado a qualquer momento, recebendo uma nova interpretação, como destacam as palavras de Mikhail Bakhtin: “Não há nada morto de maneira absoluta. Todo o sentido festejará um dia seu renascimento”.
www.dacex.ct.utfpr.edu.br/.../Os_romances_folhetins_de_Aluisio_Az.


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