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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O NATURALISMO: ALUÍSIO DE AZEVEDO

       Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo (São Luís14 de abril de 1857 — Buenos Aires21 de janeiro de 1913) foi um romancista,contistacronistadiplomatacaricaturista e jornalista brasileiro; além de bom desenhista e discreto pintor.Ainda em petiz revela pendores para o desenho e para a pintura, dom que mais tarde lhe auxiliaria na produção literária.    
       Concluindo os preparatórios em São Luís do Maranhão, transfere-se em 1876 para o Rio de Janeiro, onde prossegue estudos na Academia Imperial de Belas-Artes, obtendo, a título de subsistência imediata, ofício de colaborador caricaturista de jornais.
   Filho do vice-cônsul português David Gonçalves de Azevedo, que, ainda jovem, enviuvara-se em boda anterior, e de D. Emília Amália Pinto de Magalhães, separada de um rico comerciante português, Antônio Joaquim Branco, assiste Aluísio, em garoto, ao desabono da sociedade maranhense a essa união dos pais contraída sem segundas núpcias, algo que se configurava grande escândalo à época. Foi Aluísio, irmão mais novo do dramaturgo e jornalista Artur Azevedo, com o qual, em parceria, viria a esboçar peças teatrais.
    Com o falecimento do pai em 1879 volta ao Maranhão para sustentar a família, onde, instigado por dificuldades financeiras, finalmente dá início à atividade literária, publicando Uma Lágrima de Mulher no ano seguinte. Em 1881, ano dentre a crescente efervecência abolicionista, publica o romance O Mulato, obra que deixa a sociedade escandalizada pelo modo cru com que desnuda a questão racial. Nela, o autor já demonstra ser abolicionista convicto.
    Diante da reação hostil da província, obtendo sucesso com a obra na Corte, onde era considerada como exemplo da escola naturalista, volta à capital imperial e aí, incessantemente, produz romances, contos, crônicas e peças de teatro.
Sua obra é tida na conta de irregular por diversos críticos, uma vez que a produção oscile entre o romantismo de tons melodramáticos, de cunho comercial para o grande público, e o naturalismo já em obras mais elaboradas, deixando a marca de precursor do movimento.
Diplomata
   Feito diplomata em 1895 deixa definitivamente da pena, indo servir na EspanhaInglaterraItáliaJapão (do qual fez apontamentos antevidentes e singulares), Paraguai e Argentina. Em 1910, feito já cônsul de primeira classe, instala-se em Buenos Aires, onde, passados quase três anos, vem a falecer deixando esposa e os dois filhos desta.
Contribuições
§  Inaugurou Aluísio a estética do naturalista no Brasil com a publicação do romance "O mulato" (1881). É também autor de outros romances de mesma estética, "Casa de pensão" (1884), "O cortiço" (1890) e outros.
§  Tendo por influência escritores naturalistas europeus, dentre eles Émile Zola, por tal ótica capta a mediocridade rotineira, a vida dos sestros, os preconceitos e mesmo taras individuais, opção contrária à dos românticos precedentes.
§  Fazem-se veementemente presentes em sua obra certos traços fundamentais do Naturalismo, quais sejam a influência do meio social e da hereditariedade na formação dos indivíduos, também o fatalismo. Em Aluísio "a natureza humana afigura-se-lhe uma certa selvageria onde os fortes comem os fracos", afirma o crítico Alfredo Bosi
Obras
§  Uma Lágrima de Mulher, romance (1880)
§  O Mulato, romance (1881)
§  Mistério da Tijuca ou Girândola de Amores, romance (1882)
§  Memórias de um Condenado ou A Condessa Vésper, romance (1882)
§  Casa de Pensão, romance (1884)
§  Filomena Borges, romance (1884)
§  O Homem, romance (1887)
§  O Cortiço, romance (1890), Editora moderna, São Paulo, 1991, ISBN 85-16-00149-0
§  O Coruja, romance (1890)
§  A Mortalha de Alzira, romance (1894)
§  Demônios, contos (1895)
§  O Livro de uma Sogra, romance (1895)
§  O Japão, publicado, a partir de manuscritos encontrados na Academia Brasileira de Letras (1894)
§  O Touro Negro, crônicas e epistolário
§  Os Doidos, peça
§  Casa de Orates, peça
§  Flor de Lis, peça
§  Em Flagrante, peça
§  Caboclo, peça
§  Um Caso de Adultério, peça
§  Venenos que Curam, peça
§  República, peça
§  O Esqueleto, não obstante publicado em recente versão de suas obras completas, organizadas por Nogueira Jr., não é de autoria de Aluísio Azevedo senão da de Olavo Bilac e de Pardal Mallet.
Academia Brasileira de Letras
  Aluísio Azevedo foi um dos fundadores do Sodalício Brasileiro, onde ocupou a cadeira 4, que tem por patrono Basílio da Gama.

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ALUÍSIO AZEVEDO JÁ RESSALTAVA EM 1895 DESCOMPASSO ENTRE SEXO E CASAMENTO
Autora: Angélica Brum
Ontem e sempre
    A julgar pelas cartas que chegam todos os dias à redação das revistas femininas, a vida sexual das brasileiras casadas vai mal. A situação descrita pelas leitoras não é muito diferente do quadro pintado por Aluísio Azevedo em 1895: "Mentirá todo aquele e mentirá toda aquela que disser que a presença de sua esposa, ou que a presença de seu marido, lhe foi sempre agradável; e mentirá, se não confessar que muitas vezes se prestou a satisfazer os desejos dos cônjuges com sacrifício de todo o seu ser", diz um dos trechos do Livro de uma sogra. [...]
    Na obra, [...] Aluísio Azevedo mete a colher em assuntos de marido e mulher. Na voz de Dona Olímpia, a sogra, personagem inspirada em sua mãe, o escritor revela o que se passa por trás das portas trancafiadas das alcovas na última década do século 19: pouco sexo e muita rotina.
  "Às vezes, sem razão, não podia demorar a vista sobre meu marido: irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples e naturais. Uma ocasião, em que o contemplei pelas costas, assentado à sua mesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabeça baixa, um gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia os pescoço, desejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para não disparatar com ele."
   Aluísio mexeu onde não devia e saiu chamuscado de críticas. Pelo excesso de naturalismo e pelo despudor em rimar sexo e saúde, a obra foi considerada simplista e o autor, mais uma vez, tachado de maldito, como já acontecera no lançamento de O cortiço.
    Cento e seis anos depois, os exageros de estilo de Aluísio Azevedo tornam o livro mais divertido. Uma dose de humor providencial, a ironia que o leitor precisa para constatar que, até hoje, pouca coisa mudou dentro das quatro paredes de um casamento.
 Desejo
    A editora de sexualidade da revista Cláudia, Laura Muller, 31 anos e casada há 11, traduz em números o que muito gente conhece na prática. "Antigamente, as leitoras queriam saber como atingir o orgasmo. Hoje, elas perguntam como manter o desejo no casamento. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana revelou que o desejo vem caindo significativamente nos últimos anos. Coisa de 30 a 40 por cento.
   "O consultório da terapeuta sexual e colunista do Jornal do Brasil Regina Navarro Lins, 52 anos e há um ano no terceiro casamento, reflete a mesma tendência: 'Dois terços das minhas pacientes fariam de tudo para voltar a sentir desejo pelo marido. Uma delas chegou aqui dizendo que, se o gênio da lâmpada aparecesse, ela faria apenas um pedido: recuperar o desejo."
    Muito antes da invenção da pílula anticoncepcional e sem queimar um sutiã sequer, a sogra criada por Aluísio Azevedo dava tratos à bola para descobrir por que, afinal, casamento e desejo não dividiam a mesma cama. A intenção de Olímpia era apenas uma: salvaguardar a felicidade da filha Palmira. Em nome da satisfação da moça, escreveu o Manuscrito de Olímpia, onde reuniu preceitos sobre a vida a dois. Chama atenção no texto as considerações sobre a importância do orgasmo feminino e a dissociação que a sogra faz entre sexo e amor. Uma ousadia desmedida para a época.
Surpresa
   "Ela descasca o amor romântico", afirma a pesquisadora Núbia Melhem Santos, 50 anos, que redescobriu o livro e assina o prefácio da nova edição. Núbia, que já se casou duas vezes, ganhou um exemplar da obra de um ex-namorado, em 1976. "Achei o livro impagável. Minha maior surpresa foi encontrar uma crítica bem-humorada e com bastante liberdade para falar do casamento em 1895."
   Vítima de um relacionamento infeliz, Dona Olímpia firma um pacto com a memória do marido morto. "Não! Minha filha há de amar e ser dignamente amada, (...) com toda a grande e próspera volúpia de que é capaz o verdadeiro amor. E não somente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida, todos os dias e todos os instantes."
     Depois de analisar os altos e baixos da sua própria vida afetiva, Dona Olímpia dividiu a experiência conjugal em três fases: a primeira marcada pela felicidade moral e fisiológica; na segunda, de transição, os cônjuges foram atormentados pela dúvida; e finalmente a última, quando os dois sucumbiram vencidos pelo tédio e pelo cansaço. A partir daí, a gana de matar ou sumir do mapa só aumentou.
     Depois do nascimento da filha, a situação se agravou ainda mais. Nessa passagem, o autor volta a soar extremamente contemporâneo. "Quase sempre, a gravidez acontece para tapar um buraco no relacionamento. Então, quando a criança nasce, os pais já estão, tecnicamente, separados. A gente percebe isso logo na primeira consulta depois do parto", garante o terapeuta sexual e ginecologista Amaury Mendes de Araújo Júnior, 49 anos de idade e 23 de casamento.
 A difícil vida a dois
     Para retornar ao estágio de encantamento do início da vida de casado, Dona Olímpia só enxergava um caminho: evitar os exageros de intimidade. Tudo para que o casal apaixonado não virasse "feijão com carne-seca", como se dizia na época.
   "Não há estômago que resista a faisão-dourado todos os dias (...). O mesmo acontece no matrimônio: os cônjuges acabam invariavelmente por se enfararem um do outro, não pelo uso que fazem do seu amor, mas pelo abuso da convivência e da ternura."
    Assim, depois de escolher um marido para a filha, "que além de são e possante, fosse inteligente, honesto, simpático e carinhoso", Dona Olímpia começou, enfim, a ser sogra: fez de tudo para manter o casal afastado. Antes de o casamento se consumar, acertou com o futuro genro, Leandro, que ele e a filha Palmira jamais viveriam sob o mesmo teto. Se união em casa separadas, tão discutida atualmente, já deu o que falar, que dizer da preocupação com a iniciação sexual dos jovens? Dona Olímpia chegou a consentir que os noivos experimentassem "beijos furtados e desejos mal contidos".
   "É torpe lançar na mesma cama, sem transição, um rapaz e uma donzela, que horas antes se tratavam ainda com certa cerimônia e só se amavam por palavras, olhares e sorrisos. O salto é muito brusco; há de fatalmente perturbá-los. Reinará sempre mais vexame do que felicidade entre o casal que se vê duramente entalado na decantada lua-de-mel."
      Apesar de certa permissividade controlada, o genro penou até conhecer as verdadeiras intenções de Dona Olímpia e passa a tomá-la como santa. Durante um bom tempo, o pobre Leandro só pensou em se livrar da senhora. Na ocasião, chegou a invejar Adão. "Esse é que era deveras um felizardo, porque não tinha sogra!"
     Com sua visão mordaz do casamento e da sociedade brasileira no século 19, Aluísio Azevedo nunca quis saber de relacionamentos duradouros. A explicação talvez esteja numa preleção da sogra, seu alter ego feminino.
      "O constante esforço encefálico, para conceber e produzir grandes obras de arte, traz fatalmente consigo o precoce esgotamento nervoso; o que suponho, não preciso dizer que é de suma importância na felicidade conjugal."
A crítica do irmão
    "Depois do belo artigo anônimo de Caldas Viana, com que o Jornal do Commercio recebeu o Livro de uma sogra, depois das entusiásticas palavras que Valentim Magalhães ontem lhe consagrou no seu folhetim d'A Notícia, depois dos elogios que mereceu Olavo Bilac na cintilante Cigarra, depois do ruído que se tem feito em torno do surpreendente volume, posso dizer publicamente que o novo romance de Aluizio Azevedo (grafia da época) é um acontecimento literário. Sem recear que atribuam o meu juízo aos laços de sangue que me ligam ao ilustre escritor. Não venho fazer a crítica do livro, que é um libelo terrível contra nossos costumes conjugais; como náufrago que sou do casamento, os meus aplausos a muitos olhos pareceriam suspeitos. Direi apenas que nenhum de seus romances que precediam ao Livro de uma sogra, Aluizio se mostrou, como agora, tão profundo analista de almas, bem tão senhor dos incomparáveis recursos de nossa língua. Não sei de livro do nosso grande romancista escrito com tanta sinceridade e tanta limpidade"
       Observou Valentim Magalhães.
      "Parece-me que ele atingiu neste livro o seu estilo definitivo — um estilo como o sonhava Zola — claro, transparente, amplo, sonoro, como um regato de águas cristalinas fluindo e cantando e deixando ver todos os seixos e areias do leito. Eu abraço inteiramente essa opinião. Aluizio pôs no retrato da sua Olympia tanta coisa da nossa mãe, que a leitura do romance despertou cá dentro uma tristeza enorme, e lembrei-me de que ela não poderá gozar a suprema satisfação de lê-lo. Se vivesse ainda, faria do Livro de uma sogra o livro de minha mãe, e abençoaria o talento e o espaço do seu filho. E a sua bênção te seria mais agradável — não é assim, meu irmão — que o próprio louvor da posteridade que espera a tua obra."
      Publicada em 'O Paiz', em 24 de setembro de 1895, e incluído na nova edição de "O livro da sogra". O escritor morreu como solteiro convito. Se Artur foi um náufrago do casamento, como assume na crítica acima, seu irmão Aluísio jamais se aventurou nesse mar.
      O autor do Livro de uma sogra nasceu em 1857, em São Luiz do Maranhão, e morreu aos 55 anos, em Buenos Aires, depois de colecionar histórias de amor, sem jamais se arriscar numa união estável. A renitente aversão ao casamento acrescentou uma dose a mais de controvérsia à biografia de quem foi fruto de uma união malvista. Antes de se juntar a Davi Gonçalves de Azevedo, pai de seus cinco filhos, a mãe de Aluísio, Emília Amália, largou um casamento de conveniência. Ela fugiu de casa depois de flagrar o marido nos braços de uma escrava. Decidida como Dona Olímpia (a sogra do livro), Emília Amália pagou caro pela ousadia. Ao lado do segundo marido e dos filhos, atraía a ira e os comentários maliciosos da São Luiz do século 19.
   "Toda a família costumava ser apontada nas ruas. Quase ninguém dirigia a palavra a eles e muita gente evitava passar na calçada em frente da casa", diz Alexandre Arbex Valadares, 21 anos, assistente editorial de Casa da Palavra.
     "O caso foi tão comentado que no livro Aluísio Azevedo: uma vida de romance, o autor Raimundo de Menezes conta que o primeiro marido, envergonhado, se mudou para o Rio de Janeiro e nunca mais voltou." Com pouquíssimos amigos, os cinco irmãos cresceram muito unidos, sob proteção cerrada da mãe. Segundo a biografia, Emília Amália era uma leitora voraz e uma educadora das mais exigentes. Por influência dela, todos meninos aprenderam latim, contrariando a determinação do pai. "Ela fez isso porque queria que os filhos fossem literatos", conta Alexandre. Até a juventude, no entanto, Aluísio não parecia disposto a seguir o destino traçado pela mãe. Sonhava em ser caricaturista e ainda jovem começou a desenhar charges para as publicações locais.
 Ateu
    Anos mais tarde, Aluísio se mudou para o Rio de Janeiro, seguindo os passos do irmão Artur. Na capital, ele esperava encontrar uma oportunidade no serviço público. Sem emprego, se sustentou com seus desenhos até que a morte do pai, em 1879, o levou de volta ao Maranhão. Na casa da mãe, enquanto revia os títulos da extensa biblioteca da família, começou a escrever. Para desespero da sociedade local, fonte de inspiração de artigos nada condescendentes.
    Ateu e anticlerical, Aluísio sempre fez questão de alardear suas convicções. O primeiro livro, Uma lágrima de mulher, foi lançado em 1880. "A fama dele sempre foi péssima. Ao mesmo tempo, nesse período, ele mantinha vários casos na cidade", acrescenta Alexandre. Entre as amantes, havia uma viúva de 18 anos. Como o romance era proibido por uma parenta que morava com ela, Aluísio esperava a madrugada chegar e entrava pela janela no quarto da amada.
Por causa dessa mesma namorada, ele perdeu o vapor para o Rio de Janeiro. "Ele foi até a casa dela para se despedir.       
     Os dois estavam sozinhos, mas a tia, para castigá-los trancou o casal dentro da casa." Aluísio não viajou e manteve o cavalheirismo. Para não comprometer a jovem viúva, alegou que perdera e embarcação por motivo de doença. Quando, enfim, retornou ao Rio de Janeiro, Aluísio Azevedo conquistou o sucesso.
      O romance O mulato, um manifesto abolicionista publicado em 1881, agradou à crítica. A consagração aconteceu nove anos depois com O cortiço, obra-prima do naturalismo que chegou a ser proibida em algumas escolas até meados do século 20. O Livro de uma sogra, escrito em 1895, foi o último trabalho do escritor.
       Depois de 19 livros, centenas de artigos e caricaturas, ele se mostrou frustrado com a literatura. Sem dar maiores explicações aos amigos, trocou as noites de boemia e a inquietação dos autores russos e franceses pela tranqüilidade e o conforto de um emprego público. Ainda em 1895, Aluísio Azevedo ingressou na carreira diplomática. O escritor serviu no Uruguai, na Espanha e na Argentinab, onde morreu como vice-cônsul.

ALUÍSIO AZEVEDO - Ousadia e aceitação? - SÓ PARA AJUDAR O ...
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UMA LEITURA DO ROMANCE NATURALISTA BRASILEIRO: ENTRE O FOLHETIM E A CIÊNCIA
Doutorando Cassio Dandoro Castilho Ferreira (UFPR)
RESUMO:
   Carece o Naturalismo de uma avaliação mais abrangente dentro de nossa literatura. Quase sempre o Naturalismo no Brasil é avaliado tendo em vista o conceito da importação de idéias, e fica assim perdido entre duas posições contrárias: ou é louvado pelo que tem de semelhante aos romances de Emile Zola e Eça de Queirós, ou combatido pelo que tem de diferente. Cabe perceber que no Brasil o Naturalismo teria que se modificar caso quisesse vingar em nossas letras. Por isso, foi em nosso país um misto das idéias que vinham de fora (França e Portugal), com tudo aquilo que havia sido praticado na escola anterior: o Romantismo. Neste sentido, esta comunicação visa analisar como se deu a presença de muitas das características típicas do romance romântico, e principalmente o de caráter folhetinesco, dentro dos romances naturalistas publicados no Brasil no século XIX. Será dada maior atenção ao romance O Mulato (1881), de Aluísio Azevedo, devido à importância do autor para o nosso Naturalismo e por ser esse o romance que inaugura esta escola em nossas letras. Porém, não serão deixadas de lado as produções de autores como Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro e Pardal Mallet, pois pensando a tradição de nosso romance naturalista a partir de nomes menores e maiores, poderemos avaliar com mais clareza a importância desta escola na literatura brasileira. Escola que permanece como algo recorrente em nossas letras, chegando até a ficção dos anos 30 e os romances dos anos 70.
Palavras-chave: Naturalismo, Século XIX, Prosa de Ficção, Aluísio Azevedo
1. INTRODUÇÃO
    Nosso Naturalismo vai, grosso modo, de 1881 com a publicação de O Mulato, de Aluísio Azevedo, até aproximadamente 1902, com a publicação de Canaan, de Graça Aranha os romancistas do período, poucos sobrevivem até os nossos dias. Nomes como os de Antônio de Oliveira, Farias Neves Sobrinho, Rodolfo Teófilo, Marques de Carvalho, Horácio de Carvalho, Pardal Mallet e Valentim Magalhães, passam despercebidos para o leitor atual, e muitas vezes nem são mencionados nas histórias da literatura .
 . Permanecem em nossas letras: Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Júlio Ribeiro. Este último, inclusive, por apenas um romance naturalista, A Carne (1888).
    É difícil precisar o porquê deste apagamento de nossas páginas de história literária destes autores e obras, porém em alguns casos isto se deve em partes a tentarem eles serem naturalistas puros. Basta lembrarmo-nos de Rodolfo Teófilo, e seu A Fome (1890), no qual, segundo Lúcia Miguel-Pereira, seus “excessos delirantes” e “a preocupação científica ou pseudo-científica representou um pesado fator antiartístico.” (MIGUEL-PEREIRA, 1950, p. 133). Ou seja, falhou, pois seguiu muito a risca a receita naturalista, o que em certo sentido gerou um excesso prejudicial para sua obra. Outros, é claro, tem seus nomes apagados, possivelmente por não apresentarem romance de fôlego. Pardal Mallet, por exemplo, falha sensivelmente em seu  O Hóspede (1887). Como já apontou Massaud Moisés:
      Ao proibir que os protagonistas consumassem  os desejos acalentados desde que Marcondes entrou na casa de Pedro, Pardal Mallet procurava fugir ao lugar-comum naturalista. O desvio, se atesta conscientemente autonomia perante o clichê, um empenho de avistar ângulos novos de equação burguesa em face do casamento, - frustra o leitor, menos pela ausência de cenas eróticas, repetidas ad nauseam nos romances da época, do que pelo fato de o clímax, cuidadosamente preparado, a fim de torná-lo efeito de uma causa, não deflagrar: como um tiro que negasse, deixa a impressão de um ficcionista a querer escapar, a todo o transe, do modismo, mas a culminar num vazio que beira o ridículo. (MOISÉS, 1996, p. 135).
      O que talvez boa parte da crítica não percebeu é o fato de que em nosso país o Naturalismo teria que se modificar caso quisesse frutificar. E foi este justamente o seu erro: tentando inovar, trazendo para nossas letras as idéias de Emile Zola e de seu discípulo português Eça de Queiroz, viram-se os romancistas brasileiros aferrados a muitos dos ideais da escola anterior, e só aí encontravam uma base para sua produção naturalista. Por outra chave, segundo Lúcia Miguel-Pereira: “No fundo, eram românticos que se ignoravam, mas que nem por isso deformavam menos a realidade. Uns românticos mais pedantes, sem a ingenuidade dos outros.” (MIGUEL-PEREIRA, 1950, p. 126).
     Neste artigo pretendo, ainda que preliminarmente, analisar como se deu a presença de muitas das características típicas do romance romântico, e  principalmente o de caráter folhetinesco, dentro dos romances naturalistas publicados no Brasil no século XIX. Será dada maior atenção ao romance O Mulato (1881), de Aluísio Azevedo, devido à importância do autor para o nosso romance naturalista e por ser esse o romance que inaugura a escola em nossas
letras.
     No final da década de 1880, quando ísio Azevedo vende os direitos de publicação de suas obras para a Livraria Garnier, seu segundo romance, O Mulato (1881),passa por um processo de reescrita que muda completamente boa parte do texto original. Nesta reescrita, Aluísio Azevedo consegue retirar parte dos elementos folhetinescos presentes na primeira versão, em uma tentativa clara de enquadrar seu romance dentro da concepção estética do Naturalismo.
      Porém,como vamos perceber esta eliminação não é total. A nossa crítica literária afirma que basta recordarmos a estrutura do romance para perceber que ele é muito menos naturalista do que se supõe. Lúcia Miguel-Pereira, por exemplo, afirma que “lido hoje, deixa claramente à mostra, sob os arremates naturalistas, o arcabouço romântico. O escritor, que publicara pouco antes Uma lágrima de mulher, cheio do mais desbragado pieguismo, traia ainda com a antiga a nova escola que desposava.” (MIGUEL-PEREIRA, 1950, p. 140).
       Um dos elementos da estrutura onde podemos perceber a presença deste “arcabouço romântico” é o fato de Raimundo praticamente desconhecer suas origens. Apenas após insistir muito a seu tio que conte o porquê não lhe concede a mão da filha, é informado que é filho de uma escrava, a louca que o atacou em São Braz. O desconhecimento das origens era um fato que já vinha sendo trabalhado em muitos dos romances folhetins, como por exemplo, em O Filho do Pescador (1843), de Teixeira e Souza4
.      Outro ponto que aparece em O Mulato, e que também podemos perceber com freqüência no folhetim-romântico, é a presença do sobrenatural. Raimundo depara-se com um espectro em frente à rede onde repousa e resolve segui-lo. Descobre que se trata de uma “preta alta, cadavérica, andrajosa e esquelética”, segue o fantasma, mas acaba por perdê-la de vista. Só mais adiante somos informados por Cancela, morador da fazenda, que se trata de uma escrava fugida, como muitas que perambulavam por lá. E só em alguns capítulos adiante volta a aparecer o espectro, desta vez impedindo que Raimundo deixe as ruínas da casa onde viveu na infância. A identidade desta é revelada apenas quando Manuel Pescada informa que Raimundo é filho de uma escrava. Apesar de o narrador tentar criar um falso clima de mistério, a identidade da figura cadavérica já pode ser percebida muito antes. Quando se agarra em seu pescoço e impede-o de sair, podemos facilmente perceber que se trata de sua mãe, que já sabíamos que havia sido abandonada pelo pai de Raimundo e desaparecido.
      A cena em que surge a figura cadavérica de Domingas faz-nos lembrar de muitas das passagens de  Vicentina (1853), romance de Joaquim Manoel de Macedo. Neste, uma figura semelhante habita uma ermida abandonada no Rio de Janeiro. O narrador assim descreve a personagem:
     A figura da mísera doida tinha alguma cousa de fantástico e de romanesco, observada principalmente naquela hora do crepúsculo e naquela solidão da montanha: alta, toda vestida de branco, o seu vestido largo, sem enfeites e apenas levemente apertado na cintura, assemelhava-se a uma mortalha; seus braços nús caiam esquecidamente e como paralíticos; seus cabelos negros, bastos e ondeantes, soltos ao acaso, desciam como uma nuvem sinistra até quase chegar-lhe aos pés; (...).” (MACEDO, 1944, p. 18).
     O falso clima de mistério, criado pelo narrador, aparece em alguns pontos de O Mulato. No final do capítulo IV, quando Raimundo chega ao seu quarto, somos informados que “a pouca distancia d’ali, alguem velava, pensando nelle." (AZEVEDO, 1909, p. 103). Fica óbvio para o leitor que se trata de Ana Rosa. Porém, o autor suspende essa informação e encerra o capítulo, retomando a história apenas no início do capítulo seguinte mantendo o interesse do leitor pela mesma.
    As cenas excessivamente românticas também estão presentes em  O Mulato. Uma das mais notáveis acontece quando Raimundo vai se despedir de Ana Rosa pela última vez, e ela convida-o para que entre em seu quarto. Vamos retomar a cena, para depois fazermos algumas considerações:
     E Raymundo procurava arrancar-se das mãos de Anna Rosa. Ella prendeu-se-lhe ao pescoço, e, com a cabeça derreada para traz, os cabelos soltos e dependurados, perguntou-lhe, cravando-lhe de perto o olhar:
- O que ha de sincero na tua carta?
- Tudo, meu amor, mas por que a leste antes de eu ter partido?
- Então, sou tua! Olha, saiamos d’aqui! já! fujamos! Leve-me para onde quizeres! Faze de mim o que entenderes!E deixou cahir o rosto sobre o peito delle, e abraçou-o estreitamente.(...)
E Anna Rosa cahio de joelhos, sem se desgarrar do corpo delle.
- E’ uma escrava que chora a teus pés! é uma desgraçada que precisa da tua compaixão!
Sou tua! aqui me tens, meu senhor, ama-me! Não me abandones!
E soluçou, espalmando o rosto com as mãos.  (...) 
Ana Rosa bebeu-lhe, bocca a bocca, estas ultimas palavras.
- Entretanto... proseguio elle, vencido de todo, já não tenho coragem para deixar-te!... - E abraçavam-se  - Como poderei, de hoje em diante, viver sem ti, minha amiga, minha esposa, minha vida? ... Dize! falla! aconselha-me por piedade, porque eu já não sei pensar!...
Um novo assovio de bordo veio interrompel-o.
- Não ouves, Anna Rosa? ... O vapor está chamando...
- Deixa-o ir, meu bem! tu ficas...
E os dous estreitaram-se, fechados nos braços um do outro, unidos os labios em mudo e nupcial delirio de um primeiro amor. (AZEVEDO, 1909, pgs. 290-295).
     Acredito que apenas a leitura desta cena serviria para apontar o quanto de romântico existe em  O Mulato. Cabe colocar aqui a afirmação de Araripe Júnior, importante crítico do século XIX e que acompanhou de perto o surgimento do Naturalismo no Brasil, a respeito do romance  O Mulato: “Ali há páginas tão suaves, tão doces, tão cheias de claridade rosicler, alencariana, que sou levado a crer que o mergulho dado pelo poeta nas águas encapeladas do Estige da nova escola foi apenas à superfície.” (ARARIPE JÚNIOR, 1958, p. 120).
      A caracterização das personagens também é bastante romântica, e Raimundo é o melhor exemplo disso. Lúcia Miguel-Pereira afirma ironicamente que “Joaquim Manoel de Macedo não pôs maiores requintes na descrição dos seus ternos mancebos.” (MIGUEL-PEREIRA, 1950, p. 142).  Na descrição da personagem presente no capítulo III do romance, podemos ver as fortes tintas românticas utilizadas por Aluísio Azevedo para compô-lo:
     Raymundo tinha vinte e seis annos, e seria um typo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos azues, que puxara do pae. Cabellos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais caracteristica da sua physionomia eram os olhos  – grandes, ramalhudos, cheios de sombras azues; pestanas ericadas enegras, palpebras de um roxo vaporoso e humido; as sombrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a nankim, faziam sobresahir a frescura da epiderme, que, no logar da barba raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de
uma aquarella sobre papel de arroz. (AZEVEDO, 1909, p. 48). 
      Descrição excessivamente romântica, que rompe o limite da caracterização física e se exacerba nos atos da personagem no decorrer do romance.
 3. “A MELODIA DUMA HARPA EÓLIA TANGIDA POR MÃOS DE SERAFINS”,  O ROMÂNTICO ROMANCE NATURALISTA BRASILEIRO    
      Grande parte das características romântico-folhetinescas apontadas no romance  O Mulato, não são exclusivas dele em nossa prosa naturalista. Muitas reaparecem diluídas em meio a cenas onde abundam um cientificismo exagerado. Penso que seria interessante verificarmos passagens de outros romances naturalistas nos quais surgem diferentes características românticas-folhetinescas. Algumas vezes esses romances apresentam características românticas e depois quebram com as impressões do leitor, inserindo as características, digamos, mais naturalistas. Exemplo disso está em A Normalista (1893), de Adolfo Caminha. Zuza, por quem Maria do Carmo é perdidamente apaixonada, envia uma carta para ela, com ares extremamente românticos. Maria do Carmo logo se encanta pelo jovem estudante e encena na mente sua vida de casada. Desenha-se o ideal da vida romântica:
      Imaginava-se ao lado do Zuza, numa casinha muito bem mobiliada, com cortinas de cretone e sala de jantar e um viveiro de pássaros. – Êle, de chambre e gorro sentado na escrivaninha a fazer versos, feliz, despreocupado; ela com um robe-de-chambre todo branco, fitinhas na frente de alto a baixo, cabelo solto, a ler o último romance da moda, recostada na espreguiçadeira, sem filhos... Que vida! (CAMINHA, 1952, p. 46).
      Porém, o romantismo aparente e a paixão que Zuza sente por Maria do Carmo quebram-se repentinamente em um único capítulo da narrativa. Passa assim o herói a ser quase um vilão, mais interessado em seu bem-estar pessoal e em sua posição frente à sociedade, do que em casar-se com a normalista. Seus ideais sobre o casamento são outros, bastante diversos dos de Maria do Carmo. Para ele casamento está intimamente relacionado com uma convenção social,
que fornece um status, uma figuração perante a sociedade:
     Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério, uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente... (CAMINHA, 1952, p. 96).
       Maria do Carmo é na realidade para Zuza um tipo de mulher com a qual deseja se casar, não uma mulher pela qual está perdidamente apaixonado. Quando seu possível caso com a normalista ganha as páginas da imprensa local, e passa a ser assunto central das discussões e fofocas feitas pela sociedade cearense, Zuza decide ir embora. E conclui:
É verdade que o seu amor não era lá para que se fizesse um amor extraordinário, uma dessas paixões incendiárias que decidem do futuro de um cristão, mas, tinha a sua simpatia por âqueles olhinhos ternos como os de uma santa, lá isso tinha... (...) Com que facilidade a Maria do Carmo, aliás, uma das mais comportadas, entregava-lhe a face para beijar e escrevia-lhe cartinhas perfumadas, cheias de juras e protestos de amor! Se fôsse outro, até já podia ter feito uma asneira... Arrependia-se agora de não ter aproveitado os melhores momentos... Grandíssimo calouro! podia ter desfrutado a valer. (CAMINHA, 1952, p. 182).
    Desiste Zuza da normalista e quem irá se aproveitar da situação é o padrinho da moça, João da Mata, consumando um fato que já vinha se insinuando ao leitor desde o início da narrativa. Começa o martírio de Maria do Carmo, que apesar de todo o sofrimento termina o romance enquadrando-se na sociedade cearense, casando-se com o alferes Coutinho. Início bastante romântico, final naturalista.
    O romance de Júlio Ribeiro, A Carne (1888), também apresenta algo bastante semelhante ao visto em A Normalista. Porém, o sentido aqui é inverso: um longo romance naturalista, com um final bastante romântico. Após longos capítulos de um cientificismo puro, regados com fortes cenas naturalistas, o romance se aproxima de seu final com a partida de Lenita para São Paulo. A heroína da história está grávida de Manuel Barbosa, sua grande paixão, por quem cedeu aos impulsos da carne. Mas, termina por casar-se com um tipo que lhe parecia odioso, tal como a Ana Rosa de  O Mulato, e se insere desta maneira na alta sociedade paulista. Porém, o par romântico de Lenita, Manuel Barbosa, permanece na fazenda onde vivia sua paixão com  ela.
    Desolado e abandonado por seu grande amor passa a fazer uso de injeções de morfina para conseguir dormir. Até a natureza parece perder a vivacidade de outrora: “Parecia-lhe morta a natureza: a paisagem figurava-se-lhe um cadáver, vasto, enorme.” (RIBEIRO, 1972, p. 168). Não se alimenta mais direito, sente vontade de chorar: “Queria chorar; o pranto, julgava, far-lhe-ia bem, seria um desabafo: impossível. Um ardor seco, febril, queimava-lhe os olhos.” (RIBEIRO,
1972, p. 168). Por fim, envenena-se com curare. Suicida-se, pois “sem ela a vida se lhe tornara impossível...” (RIBEIRO, 1972, p. 180). Morre assim o herói, e a idéia final que nos parece deixar o romance é justamente de que sem amor não há vida, tal como constatado por Manuel Barbosa.
4. CONCLUSÃO
      Carece o Naturalismo, sem dúvida alguma, de uma avaliação mais abrangente dentro de nossa literatura. Quase sempre é avaliado tendo em vista a idéia da importação de idéias e fica assim perdido entre duas idéias contrárias: ou é louvado pelo que tem  de semelhante aos romances de Zola e Eça de Queirós, ou combatido pelo que tem de diferente.       
     Como afirmado no início desta apresentação, não percebe boa parte da crítica, que entre nós o Naturalismo teria que
se modificar caso quisesse sobreviver. Um crítico de ampla visão, como Araripe Júnior, já havia percebido isso em 1888. Apontava o quanto teria que se modificar o Naturalismo, opondo um naturalismo quente (o brasileiro), a um naturalismo decadente (francês). E ironiza: “Emigrando para o Brasil, o naturalismo não podia deixar de passar por uma modificação profunda. Zola, neste clima, diante desta natureza, teria de quebrar muitos dos seus aparelhos para adaptar-se ao
sentimento do real, aqui.” (ARARIPE JÚNIOR, 1978, p. 126).
      Como vimos ao longo deste artigo, nosso Naturalismo foi devedor da escola anterior, o Romantismo. Como aponta Nelson Werneck Sodré:
      É interessante reler qualquer dos poucos livros que o naturalismo nos deixou e verificar, quase página a página, como o licor romântico escorre de quase tôdas, como está presente na forma e no conteúdo, como se apresenta congraçado ao naturalismo, como lhe disfarça as arestas, como ameniza os seus contôrnos. (SODRÉ, 1965, p. 230).
     Mesmo que Nelson Werneck Sodré no mesmo parágrafo avaliará como um atraso de nossa literatura esta dependência romântica do Naturalismo, e como sendo o Romantismo a escola que “atendia às parcas exigências artísticas de nossa gente” (SODRÉ, 1965, p. 230), parece interessante apontar o excerto anterior como um primeiro passo na percepção de como se deu o Naturalismo entre nós. Mesmo que brevemente, foi esta a tentativa ao longo     artigo.
   Pensando a tradição de nosso romance naturalista a partir de nomes menores e maiores, avaliar com mais clareza a importância desta escola no Brasil. Escola que permanece como algo recorrente em nossas letras, chegando até a ficção dos anos 30 e os romances dos anos 70. Que esse artigo tenha sido uma primeira e frutificante tentativa de se pensar de outra maneira o Naturalismo dentro da literatura brasileira

Uma Leitura do Romance Naturalista Brasileiro: Entre o Folhetim ...
www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC1168

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