SOS LÍNGUA PORTUGUESA

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PRÉ-MODERNISMO (1902 - 1922)

   O pré-modernismo (ou ainda estética impressionista foi um período literário brasileiro, que marca a transição entre o simbolismo e modernismo e o movimento modernista seguinte. Em Portugal, o pré-modernismo configura o movimento denominado saudosismo.
   O termo pré-modernismo parece haver sido criado por Tristão de Athayde, para designar os "escritores contemporâneos do neo-parnasianismo, entre 1910 e 1920", no dizer de Joaquim Francisco Coelho.
Contexto histórico
Pontos de conflito no Brasil pré-modernista.
    Para os autores, o momento histórico brasileiro interferiu na produção literária, marcando a transição dos valores éticos do século XIX para uma nova realidade que se desenhava, essencialmente pautado por uma série de conflitos como o fanatismo religioso do Padre Cícero e de Antônio Conselheiro e o cangaço, no Nordeste, as revoltas da Vacina e da Chibata, no Rio de Janeiro, as greves operárias em São Paulo e a Guerra do Contestado (na fronteira entre Paraná e Santa Catarina); além disso a política seguia marcadamente dirigida pela oligarquia rural, o nascimento da burguesia urbana, a industrialização, segregação dos negros pós-abolição, o surgimento do proletariado e: finalmente, a imigração europeia.
    Além desses fatos somam-se as lutas políticas constantes pelo coronelismo, e disputas provincianas como as existentes no Rio Grande do Sul entre maragatos e republicanos.[6]
Outras manifestações artísticas
   A música assistiu, desde o lançamento da primeira gravação feita no país por Xisto Bahia, a uma penetração nas camadas mais elevadas de manifestações até então restritos às camadas mais populares – ritmos tais como o maxixe, toada, modinha e serenata. É o tempo em que a capital do país, então o Rio de Janeiro, assiste ao crescimento do carnaval, ao sucesso de compositores como Chiquinha Gonzaga e o nascimento do samba em sua versão recente.
   Na música erudita, o nome representativo foi o de Alberto Nepomuceno, de composições de “intenção nacionalista”.
    Na pintura, tendo como principal foco a Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, vigorava o academicismo, passando despercebida a exposição feita em 1913 pelo lituano Lasar Segall. Apenas em 1917 uma forte reação à exposição de Anita Malfatti expõe o confronto que redundaria na Semana de Arte Moderna de 1922.
Ambiente literário e outras informações
    Para além dos fatos circundantes, registra-se que ainda estão ativos autores parnasianos, como Olavo Bilac, Raimundo Correia e Francisca Júlia da Silva, e neo-parnasianos como Martins Fontes e Goulart de Andrade, dominando o cenário da Academia Brasileira de Letras. Além deles, longe da Academia, simbolistas como Emiliano Perneta e Pereira da Silva, convivem com os escritores pré-modernistas.
Caracterização
    Embora vários autores sejam classificados como pré-modernistas, este não se constituiu num estilo ou escola literária, dado a forte individualidade de suas obras, mas essencialmente eram marcados por duas características comuns:
conservadorismo - traziam na sua estética os valores naturalistas;
renovação - demonstravam íntima relação com a realidade brasileira e as tensões vividas pela sociedade do período.
     Embora tenham rompido com a temática dos períodos anteriores, esses autores não avançaram o bastante para ser considerados modernos[3] - notando-se, até, alguns casos, resistência às novas estéticas.
Excerto
Num artigo publicado em 1917, Monteiro Lobato reagiu assim à exposição de Anita Malfatti, no jornal O Estado de São Paulo:
"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência fazem arte pura. (...) A outra espécie é formada dos que veem anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos da decadência(...)"
Autores e suas obras
    Os principais pré-modernistas foram:
. Euclides da Cunha, com Os Sertões, onde aborda de forma jornalística a Guerra de Canudos; a obra, dividida em três partes (A Terra, O Homem e A Luta), procura retratar um dos maiores conflitos do Brasil. O sertão baiano e pernambucano onde se deram as lutas, era um ambiente praticamente desconhecido dos grandes centros, e as lutas marcaram a vida nacional: o termo favela, que tornou-se comum depois, designava um arbusto típico da caatinga, e dava nome a um morro em Canudos.
. Graça Aranha, com Canaã, retrata a imigração alemã para o Brasil.Nesse livro tinha o constante conflito entre dois imigrantes Milkau e Lentz que discutiam se o dinheiro era mais importante do que o amor.
. Lima Barreto, que faz uma crítica da sociedade urbana da época, com Triste Fim de Policarpo Quaresma e Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e O Homem Que Sabia Javanês
. Monteiro Lobato, com Urupês e Cidades Mortas, retrata o homem simples do campo numa região de decadência econômica; Ele também foi um dos primeiros autores de literatura infantil, desse modo, transmitindo ao público infantil valores morais, conhecimentos do Brasil, tradições, nossa língua. Destaca-se no gênero conto. E foi, também, um dos escritores brasileiros de maiores prestígios.
. Valdomiro Silveira, com Os Caboclos, e Simões Lopes Neto, com Lendas do Sul e Contos Gauchescos, precursores do regionalismo, retratam a realidade do sul brasileiro.
. Augusto dos Anjos que, segundo alguns autores, trazia elementos pré-modernos, embora no aspecto linguístico tenda para o realismo-naturalismo, em seus Eu e Outras Poesias.
Outros autores:
   Figuram como escritores desse período, embora guardem no estilo mais elementos das escolas precedentes, autores como Afonso Arinos, Alcides Maya e Coelho Neto. Este último, ao lado de Afrânio Peixoto, tendia a uma visão da literatura como simples ornato social e cultural. Raul de Leoni pode ser, também, tido como pré-modernista, mas o seu Luz Mediterrânea tende ao Simbolismo.

pt.wikipedia.org/wiki/Pré-Modernismo - 49kpt.wikipedia.org/wiki/Pré-Modernismo

PRÉ-MODERNISMO (FIM SÉC. XIX E INÍCIO XX)
    "Não há um só homem de coração bem formado que não se sinta confrangido ao contemplar o doloroso quadro oferecido pelas sociedades atuais com sua moral mercantil e egoísta"--Euclides da Cunha. O Pré-Modernismo não pode ser considerado uma escola literária, mas sim um período literário de transição do Realismo/Naturalismo para o Modernismo, pois não temos um grupo de autores afinados em torno de um mesmo ideário, seguindo determinadas características.
     Na realidade, Pré-Modernismo é um termo genérico que designa uma vasta produção literária que abrangeria as primeiras décadas do século XX. Aí vamos encontrar as mais variadas tendências e estilos literários, desde os poetas parnasianos e simbolistas, que continuavam a produzir, até os escritores que começavam a desenvolver um novo regionalismo, além de outros mais preocupados com uma literatura política e outros, ainda, com propostas realmente inovadoras, como o uso de linguagem mais próxima da falada e a focalização nos problemas reais do Brasil da época. A maioria de seus membros não se enquadra como Modernistas por não terem sobrevivido o suficiente para participar ou terem criticado o movimento; os mais famosos pré-modernistas são Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos.
Referências históricas
Guerra de Canudos
Ciclo do Cangaço
Milagres de Padre Cícero gerando clima de histeria fanático-religiosa
Ciclo da Borracha
Revolta da Chibata (1910)
Revolta da vacina
Greves gerais de operários (1917)
1ª Guerra Mundial
Características
     Na prosa, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Lima Barreto e Monteiro Lobato se posicionam diante dos problemas sociais e culturais, criticando o Brasil arcaico e negando o academicismo dominante. Na poesia, Augusto dos Anjos modifica o Simbolismo, injetando-lhe traços expressionistas e revelando uma visão escatológica (cenas de fim do mundo) da vida.Quanto às características, percebe-se um individualismo muito forte, ainda assim pode-se destacar alguns pontos de aproximação desses autores.
. ruptura com o passado, principalmente em Augusto dos Anjos que afronta a poesiaparnasiana ainda em vigor 
. denúncia da realidade brasileira, mostrando o Brasil não oficial do sertão, dos caboclo se dos subúrbios
. regionalismo N e NE com Euclides; Vale do Paraíba e interior paulista com Lobato; ES com Graça Aranha e subúrbio carioca com Lima Barreto
. tipos humanos marginalizados (sertanejo, nordestino, mulato, caipira, funcionário público)
. apresentação crítica do real na ficção.

pt.scribd.com/doc/29033557/Pre-modernismo -  

PRÉ-MODERNISMO
Por Sabrina Vilarinho
    O Pré-Modernismo acontece anos antes da Semana da Arte Moderna de 1922, e é o período de transição entre as tendências do final do Simbolismo ou Parnasianismo, século XIX, e o Modernismo.
    Neste período, alguns anos após a abolição da escravatura, muitos imigrantes, em sua maioria italianos, vêm ao Brasil substituir a mão-de-obra rural e escrava.
   A urbanização de São Paulo faz surgir uma nova classe social: a operária, ao mesmo tempo em que os ex-escravos são marginalizados nos centros urbanos.
    Os estados brasileiros passam por transformações na economia: a ascensão do café no Sul e Sudeste, e o declínio da cana-de-açúcar no Nordeste.
  O governo republicano não garantia esperanças e não promovia as tão esperadas mudanças sociais, pelo contrário, a sociedade se encontrava dividida entre a elite detentora de dinheiro, respeito e poder das oligarquias rurais e a classe trabalhadora rural, bem como dos marginalizados nos centros urbanos.
   A desigualdade social culminou em diversos movimentos sociais pelo Brasil, como a Revolta de Canudos, ocorrida no final do século XIX no sertão da Bahia, sob liderança de Antônio Conselheiro, dentre outros movimentos de protesto às condições de vida no Nordeste. Além disso, ocorreu também os movimentos protestantes no meio urbano, como a Revolta da Chibata, em 1910, contra o maltrato da Marinha à corporação e também as greves de operários.
   Já no começo do século XX começa a surgir os primeiros indícios da crise cafeeira com a superprodução de café, a chamada crise da “República Café-com-Leite”.
É em meio a este quadro na sociedade brasileira que começa no Brasil uma nova produção literária, intitulada de Pré-Modernismo pelo crítico literário Tristão de Ataíde. Trata-se das obras literárias de um grupo de escritores que propunham as mesmas temáticas e formas, as que seriam enquadradas no futuro movimento literário: o Modernismo. Destaca-se neste período a obra Os sertões, de Euclides da Cunha e Canaã de Graça Aranha. Contudo, o Pré-Modernismo não é tido como uma “escola literária”, pois apresenta características individuais muito marcantes.
   No entanto, há características comuns às obras desse período: a ruptura com a linguagem pomposa parnasiana; a exposição da realidade social brasileira; o regionalismo; a marginalidade exposta nas personagens e associação aos fatos políticos, econômicos e sociais.
Os principais autores pré-modernistas são: Euclides da Cunha, Augusto dos Anjos, Lima Barreto, Graça Aranha, Monteiro Lobato.

www.mundoeducacao.com.br/literatura/premodernismo.htm - 53k

PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL
 Ruth Olinda Gentil Sivieri
artculturalbrasil@gmail.com

   O Pré-Modernismo acontece anos antes da Semana de Arte Moderna,em 1922, sendo um período de transição entre as tendências do final do Simbolismo ou Parnasianismo, no século XIX, e o Modernismo.
   É uma época que apresenta, na literatura, um entrecruzar de várias correntes estéticas. Por um lado, tem-se a queda da proposta realista/naturalista/parnasiana e de outro, uma afirmação da poesia simbolista.
   Neste período, alguns anos após a abolição da escravatura, muitos imigrantes, em sua maioria italianos, vêm ao Brasil substituir a mão-de-obra rural e escrava. A urbanização de São Paulo faz surgir uma nova classe social: a operária, ao mesmo tempo em que os ex-escravos são marginalizados nos centros urbanos. Os estados brasileiros passam por transformações na economia: a ascensão do café no Sul e Sudeste, e o declínio da cana-de-açúcar no Nordeste.
    O governo republicano não garantia esperanças e não promovia as tão esperadas mudanças sociais, pelo contrário, a sociedade se encontrava dividida entre a elite detentora de dinheiro, respeito e poder das oligarquias rurais e a classe rural, bem como dos marginalizados nos centros urbanos.
   A desigualdade social culminou em diversos movimentos sociais pelo Brasil, como a Revolta de canudos, ocorrida no final do século XIX no Ceará(BA), sob a liderança de Antonio Conselheiro, dentre outros.
   Já no começo do século XX começa a surgir os primeiros indícios da crise cafeeira com a superprodução de café, a chamada crise da “República Café com Leite”. É em meio a este quadro na sociedade brasileira que começa no Brasil uma nova produção literária, intitulada de Pré-Modernismo pelo crítico literário Tristão de Ataíde. Trata-se das obras literárias de um grupo de escritores que propunham as mesmas temáticas e formas, as que seriam enquadradas no futuro movimento literário: o Modernismo. Destaca-se neste período a obra Os sertões, de Euclides da Cunha e Canaã de Graça Aranha. Contudo, o Pré-Modernismo não é tido como uma “escola literária”, pois apresenta características individuais muito marcantes.
   O termo pré-modernismo parece haver sido criado por Tristão de Athayde, para designar os "escritores contemporâneos do neo-parnasianismo, entre 1910 e 1920. Representa, assim, um período eclético (que possui várias correntes de idéias, sem se fixar a nenhuma delas). Embora vários autores sejam classificados como pré-modernistas, este não se constituiu num estilo ou escola literária, dado a forte individualidade de suas obras, mas essencialmente eram marcados por duas características comuns:
CONSERVADORISMO - traziam na sua estética os valores parnasianos e naturalistas;
RENOVAÇÃO - demonstravam íntima relação com a realidade

PRINCIPAIS AUTORES PRÉ-MODERNISTAS

AUGUSTO  DOS  ANJOS  (1884/1914)
   Notoriamente solitário, Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) formou-se em direito e foi professor de Português. Nervoso, misantropo e solitário, este possível ateu morreu de pneumonia dupla antes de assumir um cargo que lhe daria mais recursos, já que sua única obra foi impressa com recursos de seu irmão. Publicou apenas um único livro de poesias, Eu. Este livro foi mais tarde reeditado como Eu e outras poesias. Sua obra era profundamente pessimista e sua visão da morte como o fim, o linguajar e os temas usados, por muitos considerados como de mau gosto, é a única em nossa literatura.

SONETO
Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos.

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!

SOLITÁRIO
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta.
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços –

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

ETERNA MÁGOA
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo á Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

VERSOS ÍNTIMOS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

VANDALISMO
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametitistas e os florões e as pratas.

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


O MORCEGO
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

INSÔNIA
Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo
Passou de certo por aqui chorando!
Assim, em mágoa, eu também vou passando
Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo...

Que voz é esta que a gemer concentro
No meu ouvido e que do meu ouvido
Como um bemol e como um sustenido
Rola impetuosa por meu peito adentro?!

- Por que é que este gemido me acompanha?!
Mas dos meus olhos no sombrio palco
Súbito surge como um catafalco
Uma cidade ou mapa-múndi estranha.

A dispersão dos sonhos vagos reuno.
Desta cidade pelas ruas erra
A procissão dos Mártires da Terra
Desde os Cristãos até Giordano Bruno!

Vejo diante de mim Santa Francisca
Que com o cilício as tentações suplanta,
E invejo o sofrimento desta Santa,
Em cujo olhar o Vicio não faísca!

Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,
Depois de embebedado deste vinho,
Sair da vida puro como o arminho
Que os cabelos dos velhos embranquece!

Por que cumpri o universal ditame?!
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Por que não evitei o precipício
Estrangulando minha carne infame?!

Até que dia o intoxicado aroma
Das paixões torpes sorverei contente?
E os dias correrão eternamente?!
E eu nunca sairei desta Sodoma?!

À proporção que a minha insônia aumenta
Hierógafos e esfinges interrogo...
Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo
Toda a alvorada esplêndida se ostenta.

Vagueio pela Noite decaída...
No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus
Vai projetando sobre os campos largos
O derradeiro fósforo da Vida.

O Sol, equilibrando-se na esfera,
Restitui-me a pureza da hematose
E então uma interior metamorfose
Nas minhas arcas cerebrais se opera.

O odor da margarida e da begônia
Subitamente me penetra o olfato...
Aqui, neste silêncio e neste mato,
Respira com vontade a alma campônia!

Grita a satisfação na alma dos bichos.
Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.
As árvores, as flores, os corimbos,
Recordam santos nos seus próprios nichos.

Com o olhar a verde periferia abarco.
Estou alegre. Agora, por exemplo,
Cercado destas árvores, contemplo
As maravilhas reais do meu Pau d'Arco!

Cedo virá, porém, o funerário,
Atro dragão da escura noite, hedionda,
Em que o Tédio, batendo na alma, estronda,
Como um grande trovão extraordinário.

Outra vez serei pábulo do susto
E terei outra vez de, em mágoa imerso,
Sacrificar-me por amor do Verso
No meu eterno leito de Procusto!

RECOMENDAMOS
http://www.harmoniadomundo.net/Poesia.htm

RAUL DE LEÔNI RAMOS  (1895-1926)
   Raul de Leoni Ramos (1895-1926) foi um autor altamente independente de seu tempo, sem filiações a movimentos literários. Amigo de Olavo Bilac, sua poesia continha muita influência parnasiana, mas também possuía características simbolistas e uma bela simplicidade.
   Formado pela Faculdade Livre de Direito, terminando o curso em 1916, mas desde 1914 já atuava na profissão. Colaborou com a revista Fon-Fon, Para Todos, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Jornal e O Dia.
   Era admirador de esportes e participou de prova de natação e remo vencendo, pelo Clube Itaraí. Foi membro do corpo diplomático brasileiro no Uruguai, na cidade de Montevidéu em 1918.

HISTÓRIA ANTIGA
No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para a frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

ARGILA
Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs na carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
(Que ouço de longe o oráculo de Elêusis),

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo,
E do teu ventre nasceriam deuses...

INGRATIDÃO
Nunca mais me esqueci!... Eu era criança
E, em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente –

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu.., cresceu ... e, aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Dai por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

EUCLIDES DA CUNHA (1866/1909)
    Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha passou a infância e a adolescência entre fazendas e cidades fluminenses, com tios que o criaram desde os três anos, quando perdeu a mãe. Quando jovem, transferiu-se para o Rio de Janeiro, desejando cursar a escola Politécnica; nela matriculou-se em 1885, mas saiu no ano seguinte, ingressando na Escola Militar, onde recebeu influência positivista, de oposição às instituições monárquicas. Também nessa escola Euclides não permaneceu, por grave incidente disciplinar: a arma que deveria apresentar à passagem do ministro da Guerra, durante comemoração realizada, foi deliberadamente jogada ao chão, ao mesmo tempo em que proferia palavras contra a inesperada passividade dos colegas. O fato, com suas repercussões, ficou como símbolo da sua altivez, resultando em prisão e exclusão das fileiras (1888). Em 1894, ao atacar pelos jornais as ideias de um senador governista para a situação dos presos políticos, foi transferido para Campanha, em Minas Gerais, onde fez novos amigos e recebeu provas de apreço. ( ver no blog -
   Tomou, então, a decisão de se dedicar aos problemas brasileiros para sempre. Em 1895, outra vez em São Paulo, onde o pai prosperava numa pequena fazenda, abandonou definitivamente a carreira militar, trocando-a pela engenharia civil e pelo jornalismo, como colaborador de O Estado de São Paulo, ao mesmo tempo em que trabalhava na superintendência de obras. Dois artigos de 1897 revelaram-no conhecedor da geografia do sertão baiano, bem como de aspectos táticos e estratégicos da luta que ali ocorria (a Guerra de Canudos), o que levou o diretor daquele jornal a convidá-lo para ir ao interior do Estado da Bahia como seu correspondente. O assunto das cartas que Euclides passou a enviar da caatinga nordestina, relatando o que presenciava da luta entre o Exército brasileiro e o povo do arraial de Canudos, foi a fonte de que se valeu para escrever, entre 1898 e 1901, Os Sertões. A obra, aliás, foi escrita paralelamente à chefia dos trabalhos de reconstrução de uma ponte de aço que ruíra na cidade de São José do Rio Pardo, no interior do Estado de São Paulo.
Obras:
   Os Sertões, de 1907, sua obra-prima, com mais de cinquenta edições em português, seis em inglês e uma dezena em outras línguas, é livro pioneiro do modernismo brasileiro, com certeza a principal obra do nosso pré-modernismo, superior, portanto, aos trabalhos de Monteiro Lobato e Lima Barreto.
   Contrastes e confrontos, de 1907, são estudos retirados, em sua maior parte, das contribuições de Euclides à imprensa. Examinam assuntos brasileiros, americanos, internacionais e outros problemas de ordem social.
Peru versus Bolívia
Castro Alves e seu tempo

O livro Os  Sertões está dividido em 10 capítulos.
A TERRA
O HOMEM
A LUTA (preliminares)
TRAVESSIA DO CAMBAIO
EXPEDIÇÃO MOREIRA CÉSAR
QUARTA EXPEDIÇÃO
COLUNA SAVAGET
O ASSALTO
NOVA FASE DE LUTA
ULTIMOS DIAS

A TERRA
   O autor começa descrevendo, geograficamente, o grande maciço central brasileiro para chegar à região do Vaza-Barris, ao norte da Bahia, onde se passou a Campanha de Canudos. Demarca-a, e descreve sua flora, sua formação geológica e a influência do clima. Procura interpretar sua evolução geológica. Estuda-lhe a hidrografia e a conformação orográfica.
   Volta a considerar o clima da região expondo uma teoria sobre as secas. Descreve geograficamente as caatingas com toda sua flora específica e a influência que elas sofrem dos climas. Então chega ao “agente geológico notável – o homem que, reagindo brutalmente contra a terra madrasta, vem, historicamente desnudando-o, fazendo desertos.
   Considera as maneiras de combater os desertos com açudes, etc. Só assim combateria o martírio que ali sofre o homem e que é conseqüência do “martírio secular da Terra”.

O HOMEM
    Inicia, expondo o autoctonismo do “homo americanus”. Depois considera a influência da variabilidade mesológica nos três elementos essenciais de nossa formação étnica, dando a gênesis das sub-raças, mestiças, do Brasil. Daí a heterogeneidade racial brasileira e a impossibilidade de futura unidade de raça entre nós, devido a particularidades específicas de cada elemento formador, tão díspar. Para confirmar sua teoria cita exemplos em nossa História.
    Mostra o jagunço em sua gênesis, esparramando-se do Maranhão a Bahia, passando pela gênesis do mulato. Expõe a função histórica do Rio São Francisco na dinâmica social dos jagunços, descendentes de paulistas, e no aparecimento dos vaqueiros que se insularam nas regiões do interior. Nesse ponto surge Canudos, aglomerado de alimentos de uma subcategoria étnica já constituída: o sertanejo do norte. Mas a mistura de várias raças dá o tipo desequilibrado, possuidor da moralidade rudimentar das raças inferiores. Insulados, ficaram porém livres de uma adaptação, penosíssima, a um estágio social superior. Faz análises desses nossos patrocínios: o sertanejo, o gaúcho, estabelecendo comparações entre eles. Fala sobre o jagunço, as vaquejadas, a arribada.

    Conclui que as agitações sertanejas são baseadas no fanatismo Canudos, por exemplo, é uma agitação nordestina, baseada no fanatismo. Monte Santo já era um lugar lendário. Daquela complexidade étnica e sob aquelas influências ecológicas e sociológicas era inevitável o aparecimento de um Antônio Conselheiro. Fizeram-no santo devido ao seu misticismo estranho, quase um feiticeiro. Ele não deslizou para a loucura, porque o ambiente o amparou, respeitando-o. Antônio Conselheiro descendia de cearenses do norte, de gente arrelienta que há 50 anos sustentava uma rixa de família. Infeliz no casamento-abandonado pela esposa raptada por um policial, e por isso fulminado de vergonha - embrenha-se nos recessos dos sertões, surgindo incógnito, missionário sombrio, no nordeste baiano. Era produto condensado do obscurantismo de três raças, criando em torno de si lendas que se espalhavam por toda aquela imensa região. A Igreja tentou intervir, inutilmente. Canudos, que era um lugarejo obscuro antes da vinda do Conselheiro, revivesse com sua chegada, em 1893, crescendo rapidamente, a pau a pique, chegando a possuir 5000 casas, com 15000 a 20000 habitantes.
    Todo sertanejo que ali chegasse tornava-se logo um fanático. E, como muitos deles eram bandidos, saqueavam lugarejos, conquistavam cidades vizinhas, depredando-as. Eram subchefes do Conselheiro; José Venâncio, com 18 mortes; Pajeú e seu ajudante – de – ordens Lalau; Chiquinho e João da Mota, Pedrão, cafuz brutal; Estevão, disforme, tatuado à faca e à bala; Joaquim Tranca-pés; “Major”Sariema; o tragi-cômico Raimundo Boca-Torta, do Itapicuru; o ágil Chico Ema; Norberto; o velho Macambira e seu filho Joaquim; Villa-Nova; a figura ridícula, de mulato espigado, de Antônio Beato, meio sacristão e meio soldado; e o chefe de todos João Abbade. Pregavam contra a República, sem convicção, mais “como variante forçada ao delírio religioso”. Um capuchinho lá estivera para converte-los todos. Nada conseguira. Voltando, amaldiçoa a vida.

A LUTA – PRELIMINARES
   Uma desavença antiga com o Juiz de Direito de Joazeiro e não entrega de madeira adquirida nessa cidade para o remate da igreja nova de Canudos, em outubro de 1896, determinaram uma ameaça de assalto àquela cidade por parte do Conselheiro.
   Ameaçados, o Juiz pediu ao Governador do Estado da Bahia auxílio. Foi, então, enviada uma força de cem praças, da guarnição estadual, para bater os fanáticos de Canudos. Essa 1ª Expedição de Canudos foi comandada pelo tenente Manoel da Silva Pires Ferreira, que após longa caminhada bivacou, exausta, em Uauá. Atacada de surpresa pelos soldados de Antônio Conselheiro, abandona a luta. “O revez de Uauá requeria reação segura”. E.C.
   A 2ª Expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, da força estadual, veio melhor aparelhada, formada de 543 praças e 3 médicos. Seria a “1ª Expedição regular” contra Canudos. Os fanáticos eram comandados por João Grande, João Abbade, Pahejú, Macambira, pai e filho, José Venâncio e outros.

TRAVESSIA DO CAMBAIO
   A 2ª Expedição fez base em Monte Santo e muito sofreu no ataque planejado, na Travessia do Cambaio, não conseguindo chegar até o arraial de Canudos. Retirou-se em condições penosas.

EXPEDIÇÃO MOREIRA CESAR
   A 3ª Expedição, comandada pelo Coronel Antonio Moreira César, mais numerosa e melhor equipada que as duas primeiras, fez base, também, em Monte Santo. Eram 1.300 combatentes, fartamente municiados, com cerca de 350.000 cartuchos e 70 tiros de artilharia. Não passava idéia de alguém um revés. O 1º encontro foi no ribeirão de Pitombas. João Abbade, o “corta-cabeças” , estava no comando da defesa dos jagunços.

   Seguiram e fizeram base no alto da favela, defronte Canudos, e daí avançaram sem assegurar a retaguarda ou garantir os pontos perigosos da travessia. Na investida contra a Tróia de taipas dos sertanejos tiveram de recuar. Nessa retirada perderam o comandante Moreira César e pouco mais tarde seu substituto Coronel Tamarindo que os jagunços ergueram, empalado, no galho seco de um angico.

QUARTA EXPEDIÇÃO
   Alarmada com os resultados da luta toda envia batalhões para combaterem os jagunços. Do Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro, Bahia, etc. seguiram soldados regulares para enfrentar inimigo odioso. Eram 5.000 homens, em 6 Brigadas. As 1ª, 2ª e 3ª Brigadas eram comandadas pelo General João da Silva Barbosa e as 4ª, 5ª e 6ª comandadas pelo General Cláudio do Amaral Savaget. O general Artur Oscar era o comandante em chefe. As duas colunas partiram de pontos diversos e deviam se encontrar em Canudos. Estavam com abundância de material de guerra.
   A 1ª expedição foi na frente e tomou o caminho das expedições anteriores. Repetiu-lhes erros. Acampada defronte Canudos sitiou o arraial e, em conjunto com a brigada do General Savaget, investiu-o sem sucesso.

COLUNA SAVAGET
   A coluna do General Savaget partira de Aracajú. Possuía 2.350 homens. De Geremoabo a Canudos fazia marcha esclarecida e firme. A margem do Vasa-Barris deu-se o 1° combate de Cocorobó, que termina com ataque dos lanceiros em formidável carga de baionetas e fuga dos jagunços. No dia seguinte a peleja continua, em combate renhidíssimo (Combate de Macambira) com a morte do Tenente Coronel Sucupira.
   Unidas as duas colunas, a guerrilha continuou, crônica, em refregas furiosas e rápidas, longas reticências de calma, pontilhadas de balas. Os jagunços atacaram a “matadeira”: 11 fanáticos invadiram o centro do acampamento militar para destruir o canhão “Withworth 32” que eles apelidaram “a matadeira”. Estavam comandados por Macambira. 10 foram mortos a baioneta tendo um escapado miraculosamente, varando as fileiras agitadas. As tropas aguardavam uma briga salvadora.

O ASSALTO
   As duas colunas, reunidas defronte Canudos, resolveram atacar. Delineo-se o ataque. Eram 3.349 homens, divididos em 5 brigadas. Seguiram alta madrugada. Tomaram posição de combate perigosíssima e impraticável. Quando a luta começou levaram desvantagem. Caíram em desordem. Despencavam pelos cerros abaixo. E os jagunços, invisíveis das tocaias e dos esconderijos, fulminavam as brigadas. Sitiado o arraial a investida fora sem sucesso. Desorganizados os batalhões cada um lutava pela sua vida. Nessas condições “eram por igual impossível – o avançamento e o recuo”. Tiveram quase 1.000 baixas, entre mortos e feridos. O General Artur Oscar avaliou o estado das coisas e pediu um corpo auxiliar de 5.000 homens. Seguiu, então a Brigada Girard, dirigida pelo General Girard. Eram 1.042 praças, 68 oficiais e 850.000 cartuchos Mauser. Essa brigada não consegui repelir o inimigo! e a retaguarda tinho sido alvejada.

NOVA FASE DA LUTA

   Novos reforços foram então enviados. Mais 2 brigadas, com o total de 3.000 homens, uma entregue ao comando do Coronel Sampaio e outra ao General Carlos Eugênio de Andrade Guimarães. E o próprio Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt foi para o teatro de operações. Conhecedor frio da arte de combater e descobrindo os motivos das derrotas anteriores, conseguiu a vitória da 4ª Expedição e aniquilamento de Canudos. Só fez usar o bom senso aplicado à técnica militar, transmudando aquele conflito enorme, pródigo de inúteis bravuras, numa campanha regular. Alguns chefes jagunços já haviam desaparecido: Pajehú, João Abbade, Macambira, José Venâncio. Restavm Pedrão, Norberto e outros. A 22 de agosto de 1897 falecia Antônio Conselheiro. Os jagunços já não resistiam; recuavam. Canudos estava bloqueado. A insurreição estava morta.

ÚLTIMOS DIAS
   Fato imprevisto: o inimigo, agônico, reage inesperadamente e vigorosamente. Mas logo depois decai a reação, atingindo o desenlace.
   Os soldados da República impunham às vítimas cenas cruéis: “Agarravam-n’as pelos cabelos, dobrando-lhes a cabeça, esgargalhando-lhes o pescoço e francamente exposta a garganta, degolavam-n’as” ou “enleado o pescoço da vítima num cabresto, estrangulavam ou esfaqueavam”. Rivalizavam-se aos jagunços em barbaridades.
    A 28 de setembro Canudos não respondeu às duas salvas de vinte tiros. Era o fim. Foi dinamitada com 90 bombas nesse dia, terminando em incêndio. Entregou-se o Beatinho e entregaram-se as mulheres e crianças. Fez-se pequena trégua depois da qual recomeçou o tiroteio.
    “Canudos não se rendeu”, resistiu até o esgotamento completo.
FONTE: Copyright 2001 CASA DE CULTURA EUCLIDES DA CUNHA


GRAÇA ARANHA (1866/1931)
    Aluno de Tobias Barreto, seguiu a carreira diplomática depois de ser juiz no Maranhão e no Espírito Santo. Participou ativamente do movimento modernista, como doutrinador. Colaborou na fundação da ABL (mesmo sem ter livro publicado) e da Semana de Arte Moderna de 22, por isso sendo considerado por muitos um modernista. Não é considerado modernista porque sua única obra "modernista", A viagem maravilhosa, é feita em um estilo extremamente artificial. Morreu logo antes de publicar sua autobiografia, O meu próprio romance, de 1931.

   "Milkau estava sereno no alto da montanha. Descobrira a cabeça de um louro de ninfa, e sobre ela, e na barba revolta, a luz do sol batia, numa fulguração de resplendor. Era um varão forte, com uma pele rósea e branda de mulher, e cujos poderosos olhos, da cor do infinito, absorviam, recolhiam docemente a visão segura do que iam passando. A mocidade ainda persistia em não o abandonar; mas na harmonia das linhas tranqüilas do seu rosto já repousava a calma da madureza que ia chegando."

"Tudo o que vês, todos os sacrifícios, todas as agonias, todas as revoltas, todos os martírios são formas errantes de Liberdade. E essas expressões desesperadas, angustiosas, passam no curso dos tempos, morrem passageiramente, esperando a hora da ressurreição... Eu não sei se tudo o que é vida tem um ritmo eterno, indestrutível, ou se é informe e transitório... Os meus olhos não atingem os limites inabordáveis do Infinito, a minha visão se confina em volta de ti [...] Eu te suplico, a ti e à tua ainda inumerável geração, abandonemos os nossos ódios destruidores, reconciliemo-nos antes de chegar ao instante da Morte..."
Obras principais
• Canaã (1902/romance)
• Estética da Vida (1921/ensaio)
• Espírito Moderno (1925/ensaio)
• A Viagem Maravilhosa (1927/romance)

     Canaã conta a história de Milkau e Lentz, dois jovens imigrantes alemães que se estabelecem em Porto do Cachoeiro, ES. Amigos e antagônicos ao mesmo tempo, Milkau é a integração e a paz, admirando o Novo Mundo, Lentz é a conquista e a guerra, pensando no dia que a Alemanha invadirá e conquistará aquela terra. Ainda assim, ambos se unem e trabalham juntos na terra e prosperam . Mais tarde aparece Maria, filha de imigrantes pobres, que é abandonada, quando morre seu protetor e lhe abandona o amante, que pensava ser seu futuro marido.
    Vagando, tomada como louca e prostituta, é rejeitada até na igreja antes de ser salva por Milkau, quem conheceu uma vez em uma festa e vai morar numa fazenda. Lá continua a ser maltratada até que um dia seu filho é morto por porcos e ela é acusada de infanticídio. Na cadeia Milkau passa a visitá-la enquanto ela é repudiada pela cidade inteira. Por fim a salva com uma fuga no meio da noite. A história em si é apenas pano de fundo para as discussões ideológicas entre Milkau e Lentz, somando-se a isto retratos da imigração alemã e da corrupta administração brasileira da época (notavelmente no capítulo VI).

LIMA BARRETO (1881/1922)
     Nascido de pai português e mãe escrava, era mulato e pobre. Afilhado do Visconde do Ouro Preto, conseguiu estudar e ingressar aos 15 anos na Escola Politécnica. Lá sofreu toda sorte de humilhações e preconceitos e, quando estava no 3º ano, teve de trabalhar e sustentar a família, pois o pai enlouquecera. Presta concurso para escriturário no Ministério da Guerra, permanecendo nessa modesta função até aposentar-se.
    Socialista influenciado por autores russos, Lima Barreto vive intensamente as contradições do início do século, torna-se alcoólatra e passa por profundas crises depressivas, sendo internado por duas vezes. Em todos os seus romances, percebe-se traço autobiográfico, principalmente através de personagens negros ou mestiços que sofrem preconceitos.
   Mostra um perfeito retrato do subúrbio carioca, criticando a miséria das favelas e dos cortiços. Posiciona-se contra o nacionalismo ufanista, a educação recebida pelas mulheres, voltada para o casamento, e a República com seu exagerado militarismo. Utiliza-se da alta sociedade para desmacará-la, desmitificá-la em sua banalidade.
   Seus personagens são humildes funcionários públicos, alcoólatras e miseráveis.. Sua linguagem é jornalística e até panfletária.
Obras principais:
Romances:
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (tematiza preconceito racial e crítica ao jornalismo carioca - 1909)
Triste Fim de Policarpo Quaresma (inicialmente publicado em folhetins - 1915)
Numa e Ninfa (1915)
Vida e Morte de M. J. Gonzaga e Sá (1919)
Clara dos Anjos (1948)
Contos:
História e Sonhos (1956)

Sátira Política e Literária:
Os Bruzundangas (1923)
Coisas do Reino do Jambon (1956)
Humorismo:
Aventuras do Dr. Bogoloff (1912)
Artigos e Crônicas:
Feiras e Mafuás (1956)
Bagatelas (1956)
Crônicas sobre Folclore Urbano:
Marginália (1956)
Vida Urbana (1956)
Memórias:
Diário Íntimo (1956)
Cemitério dos Vivos (1956)

MONTEIRO LOBATO (1882/1948)
   Homem de diversas atividades (escritor, editor, relojoeiro, fazendeiro, promotor, industrial, comerciante, professor, adido comercial etc.). Tem por formação Direito e participa de grupos e jornais literários, entre eles o Minarete.
   Torna-se editor com a instalação da Editora Monteiro Lobato, que traz grandes inovações para o mercado editorial brasileiro. Ainda assim, Lobato acaba falido. No ano de 1925, funda a Companhia Editora Nacional e começa a escrever sua vasta obra de literatura infantil. Isso se dá por decepção com o mundo adulto, por isso começa a investir no futuro do Brasil.
    Em 1917, publica, no jornal O Estado de São Paulo, o artigo contra a pintora Anita Malfatti (estopim do Modernismo). A Propósito da Exposição Malfatti, expressa uma postura agressiva contra as novas tendências artísticas do século XX, que resultará no seu desligamento dos principais participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Sua crítica acalorada se dá porque ele não admitia a submissão da cultura brasileira às idéias européias, daí ser chamado de Policarpo Lobato.
   Faz campanhas nacionais favor da exploração das riquezas do subsolo: petróleo e minérios. Funda a Companhia de Petróleo do Brasil, acreditando no nosso desenvolvimento e denunciando o monopólio internacional.
  Aproxima-se das idéias do Partido Comunista Brasileiro. Controvertido, ativo e participante, Lobato defende a modernização do Brasil nos moldes capitalistas. Faz uma crítica fecunda ao Brasil rural e pouco desenvolvido, como no Jeca Tatu (estereótipo do caboclo abandonado pelas autoridades governamentais) do livro Urupês. Curioso é que, na quarta edição de Urupês, o autor, no prefácio, pede desculpas ao homem do interior, enfatizando suas doenças e dificuldades.
Obras principais:
Contos:
Urupês (1919)
Idéias de Jeca Tatu (1918)
Cidades Mortas (1919)
Negrinha (1920)
Mundo da Lua (1923)
O Macaco que se Fez Homem (1923)
O Choque das Raças ou O Presidente Negro (1926)
Jornalismo:
A Onda Verde (1921)
Problema Vital (1946)
Epistolografia e crítica:
Mr. Slang e o Brasil (1929)
Ferro (1931)
América (1932)
Na Antevéspera (1932)
O Escândalo do Petróleo (1936)
A Barca de Gleyre (1944)
Literatura Infantil:
Reinações de Narizinho
Viagem ao Céu
O Saci
Caçadas de Pedrinho
Hans Staden
Histórias do Mundo para Crianças
Memórias de Emília
Peter Pan
Emília no País da Gramática
Aritmética de Emília
Geografia de Dona Benta
Serões de Dona Benta
História das Invenções
D. Quixote para as Crianças
O Poço do Visconde
Histórias de Tia Nastácia
O Pica-pau Amarelo
A Reforma da Natureza
O Minotauro
Fábulas
Os Doze Trabalhos de Hércules
O Marquês de Rabicó

SIMÕES LOPES NETO (1865-1916)
   Capitão publicou três livros em toda a vida, todos na cidade em que nascera, Pelotas, no RS. Foram eles Cancioneiro Guasca, Lendas do Sul e Contos Gauchescos. Fez teatro e, apesar de suas obras terem sempre cunho tradicionalista, era um homem de hábitos urbanos. Acalentava grandes sonhos literários, mas seu reconhecimento só foi póstumo.
   "E do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ai singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo com os homens, das erosões, da morte e das eclosões da vida, entre o Blau - moço, militar - e o Blau - velho, paisano -, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações - casos, dizia -, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende no sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca." Contos Gauchescos.

"Foi assim e foi por isso que os homens, que quando pela primeira vez viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, chamam-na desde então de boitatá, cobra de fogo, boitatá, a boitatá!" Lendas do Sul.

"Findava aqui o calhamaço de que a princípio se falou, quando disse que recebi em certa hora de pleno dezembro, por véspera de Natal, quando eu estava, desesperado, a abanar mosquitos (...) Apenas ao canto da página, a lápis, havia uns dizeres que custei a decifrar, e que eram estes: o 2o. Volume será o dos “Sonhos do Romualdo”. Casos do Romualdo.

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